Pais em férias

PAIS EM FÉRIAS

Margarete Hülsendeger

Publicado originalmente em publicado em 03/07/2009 como cronicas/mhulsendeger/paisemferias.asp

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestra e doutoranda em Teoria Literária na PUC-RS

A tarefa de ser mãe (ou pai) não é nada fácil, pelo menos para quem a encara com um mínimo de seriedade e responsabilidade. Minha mãe, por exemplo, durante anos aconselhou-me a pensar com toda a calma antes de decidir ter filhos. Segundo ela, essa era uma missão que nunca tinha fim, não importava quantos anos eles pudessem ter – quatro ou quarenta. “Filhos são para a vida toda. Não tem como devolver”, dizia ela.

No entanto, muitas mulheres, infelizmente, ainda acreditam que ao engravidarem tudo se passará como nas novelas ou nos filmes de Hollywood. Só conseguem ver os aspectos luminosos e sublimes da maternidade, ignorando, quase totalmente, o lado pouco glamuroso do trabalho de ser mãe.

A mídia, em especial, esforça-se em alimentar essa visão romântica criando a falsa ideia de que uma fada madrinha irá, num passe de mágica, retirar do caminho das futuras mamães todas as preocupações e dificuldades que o nascimento de um filho naturalmente traz. Contudo, a não ser que essa fada madrinha seja uma excelente babá ou uma competente enfermeira, tal ilusão rapidamente desaparecerá quando o primeiro choro se fizer ouvir durante a madrugada. Por isso, quando mães de primeira viagem – que antes desejavam ardentemente um filho – começam a se queixar de cansaço e frustração pergunto-me que livros andaram lendo ou quais filmes resolveram assistir para estarem tão pouco preparadas.

Do mesmo modo, é preciso entender que a criação dos filhos não se resume à simples tarefa de colocá-los no mundo. É preciso mais. Muito mais. Trata-se de uma atividade com 24 horas de duração, sem direito a férias ou feriados prolongados. Atualmente, no entanto, está-se observando uma mudança inquietante no comportamento de muitos pais quando o assunto é educar e orientar seus filhos.

Durante a infância, observa-se uma preocupação constante dos pais em acompanhar, passo a passo, o desenvolvimento das suas crianças. Tudo nesse período é importante, desde o que elas comem até se o seu sono é tranquilo. Porém, quando essas mesmas crianças se tornam adolescentes o olhar de muitos desses pais se modifica, às vezes de maneira radical. Agora parece que não lhes cabe mais esse acompanhamento cuidadoso e ininterrupto das conquistas e dificuldades de seus filhos. É como se eles, por já saberem se vestir, comer ou andar sozinhos, não precisassem mais de orientação, apoio ou, até mesmo, do bom e velho puxão de orelhas. É como se as obrigações paternas (e maternas) diminuíssem e, em alguns casos mais graves, deixassem de existir.

Não há como negar a importância do exercício da autonomia durante esse período. Contudo, não se deve confundir esse exercício saudável e necessário, que levará um indivíduo a se tornar independente e mais seguro de si mesmo, com o simples e inconcebível abandono. Criar e educar um filho dá trabalho. Muito trabalho. E a adolescência é, sem dúvida nenhuma, uma das épocas mais trabalhosas e difíceis para qualquer mãe ou pai responsável. Não há a menor possibilidade de se tirar “férias”. Pelo contrário.

Entretanto, muitos pais e mães andam “saindo de férias”, deixando muitos jovens – seus filhos – abandonados à própria sorte. E aqui, quando uso a palavra “abandono”, não estou me referindo necessariamente a abandono material, a não ter o que comer, onde morar ou o que vestir. Estou falando de abandono emocional. Pais que, diante dos frequentes embates, polêmicas e conflitos – normais nesse período –, preferem desistir, confiando no que fizeram até aquele momento. Porém, todos sabem que isso não é, e nunca será, o suficiente.

Ser mãe e pai não é uma tarefa que tenha hora, dia, mês ou ano para terminar. Na verdade, como sabiamente dizia minha mãe, ela nunca termina. Do mesmo modo, ter e criar filhos não é – ou melhor, não deve ser encarada como – uma fantasia romântica na qual tudo vai ser sempre maravilhoso. Deve-se pensar que essa é uma missão na qual momentos de muita alegria serão, invariavelmente, substituídos por longos períodos de angústias e preocupações. Após se ter um filho, o verbo dormir, por exemplo, passa a assumir um novo significado, na maioria das vezes bem diferente daquele que se encontra nos dicionários.

A essa altura, você que ainda não teve filhos deve estar pensando: “Que horror!”. Na verdade, o horror só existirá se essa tarefa for encarada com irresponsabilidade. Eu, particularmente, não me arrependo de ter assumido essa missão há 16 anos. É claro que antes de assumi-la pensei muito nos conselhos de minha mãe. E quando, em alguns momentos, as coisas ficaram feias, respirei fundo e fui em frente, acreditando que estava fazendo o meu melhor. Portanto, para aqueles que estão começando a pensar na possibilidade de se tornarem pais e mães, lembrem de Vinicius de Moraes: Filhos? Melhor não tê-los. Mas se não tê-los, como sabê-los? E eu acrescentaria: mas se resolver tê-los, assuma integralmente essa tarefa, pensando sempre que, apesar de estarem crescidos, eles nunca irão recusar um bom colo.

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