Fatores Intervenientes no Desenvolvimento Infantil

Fatores Intervenientes no Desenvolvimento Infantil

Caroline Côrtes Lacerda[*]

Publicado originalmente como <www.partes.com.br/educacao/fatoresintervenientes.asp>

 

Pedagoga Formada pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões – URI Campus Santiago/RS, especialista em Psicopedagogia pela mesma universidade (carolinelacerda@yahoo.com.br)

Tomando como referência, o quadro de evolução da sociedade, as transformações sociais e tecnológicas, observa-se a necessidade de uma maior valorização do período da infância, devido as mudanças também interferirem no processo de desenvolvimento infantil.  Os primeiros anos de vida são fundamentais para a formação integral do sujeito, pois, é nesta fase que a criança inicia sua construção do mundo e todos os aspectos que forem vivenciados irão refletirem sua vida futura.

Para uma compreensão mais ampla sobre a infância, cabe mencionar as fases do desenvolvimento infantil propostas por Jean Piaget, psicólogo suíço, interacionista que desenvolveu estudos sobre a construção do conhecimento. Para ele a infância se caracteriza por ser uma etapa biologicamente útil, que se evidencia como sendo o período de adaptação progressiva ao meio físico e social. A adaptação, sendo um equilíbrio perdura por toda a infância e a adolescência definindo estruturas próprias de cada período.

         Piaget foi um dos grandes estudiosos da Psicologia do Desenvolvimento. Dedicou-se exclusivamente ao estudo do desenvolvimento cognitivo, sendo este determinado por estágios característicos pelos quais a criança se desenvolve e constrói o conhecimento. São eles: Sensório motor (ou prático) 0-2 anos,        Pré-operatório (ou intuitivo) 2-7 anos, Operatório Concreto 7-11 anos, e o Operacional – formal (abstrato) 11 em diante. (PIAGET, 1996)

         Já para Sigmund Freud, médico especializado em doenças mentais, fundador da psicanálise, as pessoas são vistas como vítimas dos eventos da infância. Mediante associação, descobriu que as lembranças do paciente iam invariavelmente à infância, e que muitas das experiências reprimidas de que o paciente se recordava tinham relação com as questões sexuais. A maioria dos pensamentos reprimidos referiam-se à conflitos de ordem sexual, localizados nos primeiros anos de vida do indivíduo: fase oral (boca), fase anal (ânus), fase fálica (órgão sexual). Também, destaca-se o complexo de Édipo, em que o filho deseja sexualmente a mãe, ocorrendo um apaixonamento e ciúmes do pai. Freud afirma às crianças estarem sujeitas ao desejo sexual e que o objeto desse desejo frequentemente é os próprios pais. (FREUD, 1974)

         Diante dessas ideias, cabe mencionar que o desenvolvimento da criança deve ser analisado biologicamente e externamente, visto que as interações sociais exercem grandes influencias neste processo. O ser humano cresce e se modifica no decorrer de sua vida baseado nas suas experiências. Devido a isto, considera-se de grande importância a estimulação na infância, pois é por meio dela que são desenvolvidas habilidades como a imaginação, o respeito, curiosidade, criatividade, limites e outras que são fundamentais para a vida social.

Ao ver o bebê ainda na barriga, os pais têm a possibilidade de fortalecer seus vínculos afetivos, mesmo antes do nascimento. Nesse processo de concepção humana, graças aos estudos recentes no interior do útero, é possível afirmar de acordo com Shore (2000) que existem três etapas distintas na qual primeiramente dá-se a formação dos órgãos; na segunda, após os 6 meses, acontece o desenvolvimento dos sentidos e os primeiros estímulos do mundo exterior, e a terceira, a partir da 26ª semana, onde se formam os pulmões e se especializam os sentidos, a percepção, e onde começa, com relação ao cérebro, o processo de armazenamento de lembranças pelo reconhecimento e familiarização com a voz da mãe e o mundo sonoro externo.

Daí a importância, em especial de nos últimos três meses de gravidez, de se orientar as gestantes a iniciarem a estimulação e a atenção ao feto, através de ações, tais como: contar histórias, cantar cantigas, conversar e massagear a barriga, pois o processo de pensar dos bebês se inicia durante a gravidez. Eles são capazes de lembrar de fatos, após o nascimento, graças a sua memória em longo prazo, devido a isto, segue a importância da estimulação antes do nascimento.

Na fase da formação neuronal que dará origem ao cérebro do bebê, já está comprovado que o estresse, a ingestão de bebida alcoólica e de drogas podem alterar significativamente a velocidade de migração dos neurônios e, em casos extremos podem levar ao aborto. É nos primeiros anos de vida da criança que as células irão formar rapidamente as conexões -sinapses. (SHORE, 2000)

De acordo com Shore (1998) o mais intrigante é que os fetos não estão somente escutando no útero da mãe, eles também estão aprendendo. Portanto, o desenvolvimento integral da criança e a aprendizagem estão inter-relacionados desde o momento da concepção do feto. As estimulações não podem realizar-se de forma descontextualizada, é preciso sempre levar em consideração as etapas do desenvolvimento, bem como os fatores biológicos e ambientais.

É com base nesses pressupostos, que torna-se imprescindível destacar a amamentação, como insubstituível para o crescimento infantil. O corpo da mãe começa a se preparar para a amamentação, já na fase da gravidez, onde vários hormônios agem nas glândulas mamárias, fazendo-as crescer. O leite materno tem uma composição de nutrientes específica, que acompanha as necessidades da criança. Além disso, contém agentes imunológicos, doados pela mãe, que agem como protetores de doenças infecciosas e diarreias, também atua no fortalecimento da musculatura da face e da boca, o que previne futuros problemas na fala e na oclusão dos dentes. Até os 6 meses, não deve-se dar água ou chás para a criança, somente o leite materno é o suficiente para o seu desenvolvimento. (CTENAS,1999)

Outro aspecto a se destacar, é a alimentação, sendo fundamental e necessária a partir dos seis meses. Porém, é necessário que haja um equilíbrio com a inclusão alimentos de diferentes grupos em cada refeição, para que a criança receba todos os nutrientes necessários e não corra o risco de ficar obesa. Esta é uma orientação que garante relevância para qualidade para a alimentação infantil, pois através de uma dieta equilibrada a obesidade pode ser evitada.

Conduzir a alimentação de uma criança não é apenas nutri-la e fazê-la crescer, mas, também, ajudá-la a criar um sentimento de troca, prazer e convivência que repercutirá para sempre em sua saúde e estilo de vida. Por essa razão, vale destacar  um grave problema que vem atingindo as crianças: a obesidade infantil.

Até muito pouco tempo atrás, a grade preocupação na área da saúde era a desnutrição. De fato, existia, como ainda existem reais motivos para isso. Naquela época, criança gordinha talvez por ser o oposto de criança desnutrida, era encarada como sinônimo de saúde. Era comum, por exemplo, a imagem de bebês cheios de dobras. Isso levou a uma certa tolerância social em relação à obesidade, e hoje mais de 30% dos brasileiros apresentam excesso de peso. (CTENAS, p. 176, 1999)

A obesidade, além desenvolver problemas psicológicos, em função da rejeição e discriminações, também desencadeia uma série de outros problemas na saúde como: diabetes, hipertensão, lesões ortopédicas entre outros. Em casa e na escola, estas crianças merecem atenção especial, pois a prática inadequada de atividades, brincadeiras e jogos pode trazer prejuízos à saúde. Diante disso, manter pais e professores informados é fundamental para o bem-estar e integração social da criança.

Considerando a atividade física como qualquer movimento do corpo destaca-se o brincar como atividade primordial no processo de desenvolvimento infantil. Para a criança não há atividade mais completa do que o brincar. De acordo com as ideias de Santos (1999) pela brincadeira a criança é introduzida no meio sociocultural do adulto, constituindo-se num modo de assimilação e recriação da realidade.

A criança é um ser social e a apropriação do conhecimento  acontece antes mesmo do seu nascimento, isto é, o seu desenvolvimento se dá num espaço e tempo compartilhado com outras pessoas, através da interação. O brincar é uma das atividades mais completas para a evolução infantil, pois proporciona o desenvolvimento de diversas habilidades intelectuais, sociais e motoras. Através da brincadeira é possível afirmar que a criança está aprendendo e construindo esquemas que irão intervir posteriormente na vida adulta

Para Santos (1999), à medida que a criança vai avançando em suas etapas evolutivas as brincadeiras vão se tornando mais consistentes, de forma que o adulto possa mais facilmente identificar as situações de jogo. No brincar, o conhecimento de si mesma, os papéis sociais evidenciados, o envolvimento com os parceiros e a característica prazerosa contida no jogo remetem a criança a um tipo de conhecimento da realidade, permitindo sua apropriação e representação, contribuindo para a construção do conhecimento e da personalidade.

O brincar representa a atividade principal da criança. Mesmo quando está de alguma forma debilitada, persiste nela à vontade de brincar. Por tando, esta atividade é responsável pelo desenvolvimento físico moral e cognitivo das crianças, constituindo-se uma peça fundamental na formação da personalidade, nos domínios da inteligência, na evolução do pensamento e de todas as funções mentais superiores, transformando-se num meio viável para a construção do conhecimento. Desse modo, a brincadeira por ser uma atividade enriquecedora, é uma necessidade básica, assim como a nutrição, saúde, e educação.

O desenvolvimento infantil é fundamental para atingir a maturidade. Para tanto, é importante destacar que cada criança tem seu ritmo próprio de aprendizagem e de evolução, umas podem ser rápidas e outras lentas, mas o certo é que todas passam pelas mesmas fases. Estas transformações vão depender dos fatores biológicos de maturação e dos fatores ambientais, já que estes dois influenciam o crescimento.

Desse modo, aposta-se na ideia de que o desenvolvimento acontece antes da criança entrar na escola e o sob esse enfoque deve-se priorizar a estimulação pela família. Por mais que na realidade seja evidenciada, que desde cedo as crianças entram na escola, a participação e a atenção da família é essencial para os avanços no crescimento. Conforme Nolte, (2003) na maioria das vezes os filhos estão prestando atenção nas atitudes dos pais, no que veem, por isso é certo dizer que as crianças aprendem o que vivenciam.

Assim, a atividade lúdica pode ser um grande recurso para a interação de pais e filhos, bem como professores e alunos. É brincando que a criança aprende e se torna apto a viver em sociedade e esta é uma atividade fundamental para o desenvolvimento infantil, pois além de permitir a socialização, desenvolve aspectos que influenciam o corpo e a mente da criança.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: 

CTENAS, Maria Luiza de Brito. Crescendo com Saúde: o guia de crescimento da criança. São Paulo: C2 editora e consultoria em nutrição, 1999.

SANTOS, Santa Marli Pires dos. Brinquedo e infância: um guia para educadores em creche. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.

SHORE, Rima. Repensado o cérebro. Trad. De Iara Brazil. Porto Alegre: Mercado Aberto, 2000.

____________. Biologia e Conhecimento. 2ª Ed. Vozes : Petrópolis, 1996.

FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Rio de Janeiro: Imago, ESB, 1974.

[*] Pedagoga Formada pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões – URI Campus Santiago/RS, especialista em Psicopedagogia pela mesma universidade (carolinelacerda@yahoo.com.br)

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