Semiótica da Arte: do signo à retórica artística

Rodrigo da Costa Araujo (UFF/FAFIMA)[1]

publicado em 05/07/2009 como www.partes.com.br/cultura/semioticadaarte.asp

 

“Et ce “langage de l’art” lui-même est une hiérarchie complexe de langages mutuelllement corrélés, mias non possibles d’un texte artistique. A cela aussi, on le voit, est reliée la charge signifiante de l’art, inaccessible à tout autre langage non artistique”.

(LOTMAN, Iouri. La Estructure du texte artistique,1973, p. 55).i

Rodrigo da Costa Araujo é professor de Literatura da FAFIMA – Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Macaé. Mestrando em Ciência da Arte pela UFF-Universidade Federal Fluminense.
::contato com o auto

Apontado como referencial máximo da semiótica soviética, o professor da Escola de Tartu, Iuri Lotman (1922-1993) surge num contexto marxista, desenvolvendo as suas investigações científicas da literatura a partir dos resultados da linguística estrutural, da semiótica, da teoria da informação e da cibernética. A partir de um sistema modelizante primário, realizado prioritariamente pela língua natural, Lotman desenvolve uma série de fundamentos que funcionam em sistemas não-verbais da cultura, denominados sistemas modelizantes secundários. Em La Structure du texte artistique (1973) Lotman descreve a arte como sistema semiótico complexo e o fazer artístico como construção de textos imbricados, possuidores de estrutura, expressão e limites próprios.

           Nessa obra, Lotman estabelece como objetivo fundamental a demonstração e explicitação da tese segundo a qual “a arte pode ser descrita como uma linguagem secundária e a obra de arte, como um texto nessa linguagem” (1973, p.37), por outro lado, o seu estudo partirá do pressuposto de que a necessidade da arte (e do conhecimento) é congênita ao homem que ao longo da sua história, mesmo em luta pela conservação da vida, “encontra sempre tempo para a atividade artística, sente essa necessidade.” A arte, tal como para Aristóteles, corresponderá a uma necessidade vital, assumindo uma dimensão epistemológica, já que, no seu entender, trata-se de “uma das formas de conhecimento da vida”.

O aspecto central do livro de Iuri M. Lotman é a abordagem da modelização na estrutura do texto artístico. Segundo ele, esse processo define-se como o mecanismo pelo qual o texto reproduz, através e processos semióticos vários (como a transcodificação interna e externa), um determinado modelo da significação do texto: trata-se de explicar o modo como, através de certos sistemas semióticos, se estabelecem as relações semânticas como os “fenômenos que lhe são externos” (LOTMAN, 1973, p.69). Para isso ele postula dois tipos de modelização que correspondem a uma distribuição hierárquica dos sistemas semióticos. No caso do texto literário, é a língua natural que opera a modelização “primária”; por outro lado, a modelização “secundária” emerge de outros sistemas semióticos e define a especificidade genérica desse mesmo texto.

Modelizar para Iuri Lotman é o mesmo que semiotizar. É, de certa maneira, conferir estrutura de linguagem a sistemas de signos que não dispõem de um modo organizado ou de uma codificação precisa para a transmissão de mensagens. Ele acredita que, quando se parte para o estudo da obra de arte e sua relação com a linguagem, encontra-se a natureza mesma da obra, ou seja, seu caráter codificado. Ao tomar consciência de algum objeto como texto, estamos supondo com ele que está codificando alguma maneira. E, nesse sentido, reconstruir tal codificação é tarefa da investigação semiótica.

Nesse contexto de transcodificação, a obra (seja ela de qual natureza for: literária, musical, pictural, teatral, cinematográfica etc) apresenta também ela uma realidade. Esta, porém, não deve ser entendida como uma simples cópia do original; é, antes de mais nada, e segundo esses princípios, o resultado emoldurado de um trabalho de “tradução”, ou seja, de “reprodução de uma realidade noutra” (1973, p.301). O real artístico é, nesse sentido, obrigatoriamente diferente do que lhe é exterior, sendo que os seus contornos se perfazem dentro de uma certa moldura configurável por questões estéticas ou ideológicas. A obra de arte, qualquer que seja ela, tem entrelaçado no seu complexo tecido semiótico um sistema modelizante que estabelece regras com que se traçam esses contornos, quer em termos espaciais, quer em termos temporais.

O estudioso postula no Capítulo I (L’art em tant que langage, p.35) que a arte pode ser entendida como uma forma de linguagem por utilizar signos e implicar uma interação entre emissor/receptor (dupla função que pode ser desempenhada por um único sujeito). Trata-se de um sistema (secundário), um meio de comunicação, que, como tal, é passível de ser estudado pela teoria dos sistemas de signos naquilo que ela tem de geral, aproximando-a de qualquer outra linguagem. Por outro lado, defende que o estudioso da arte deverá ter presente a sua especificidade, a consciência de que se trata de uma estrutura complexa em que a organização particular dos seus elementos obedece a um princípio que a diferencia dos outros sistemas de signos.

Toda arte é assim perspectivada como uma linguagem secundária que submete o seu material (as estruturas linguísticas e o modelo do mundo que subjaz à própria estrutura do sistema modelizante primário) a um processo de transcodificação, uma reorganização dos seus elementos segundo uma nova ordem constitutiva, gerando novos modelos do mundo capazes de permitir ao ser humano aceder a inesperadas reconstruções, modelizações do mundo e do seu próprio ser segundo princípios internos que ultrapassam a lógica da linguagem natural. Por isso, será este o sentido da atribuição de uma função cognitiva da arte em geral. Ela – a arte -, diz o semioticista, “possui uma série de traços que a assimilam aos modelos lúdicos. A percepção ( e a criação) de uma obra de arte exige um comportamento particular – artístico -, que possui uma série de traços comuns com o comportamento lúdico” (LOTMAN, 1973, p.110).

A todo o sistema semiótico, diz Lotman, preside uma relação de equivalência entre o grau de complexidade da sua estrutura e o seu volume de informação: quanto mais complexa a estrutura, maior é o seu volume de informação. Para além disso, num sistema semiótico bem construído não pode existir informação supérflua, sendo que a continuidade da existência de um sistema mais complexo se justifica pela sua grande capacidade informativa, caso contrário seria extinguido. O discurso poético corresponde a uma estrutura substancialmente mais complexa que a língua natural: não existe possibilidade de transmitir o conjunto de informação contida num discurso poético por um discurso corrente (ou qualquer outro meio). Tal impossibilidade deriva da própria especificidade do texto artístico em que a indissolubilidade entre a estrutura (forma) e a informação (conteúdo) se afirma como a sua condição primeira. E se entendermos que, tal como referimos, não existe informação supérflua num sistema semiótico bem construído, significa que não podemos proceder a uma análise do texto artístico, privilegiando o estudo isolado dos seus elementos (sejam elementos “formais”, ao nível do código linguístico, ou apenas ao nível do seu conteúdo, da sua mensagem). Daí que Lotman condene os métodos de estudo em que “conteúdo” e “forma” são analisados separadamente. Para ele “cada detalhe e o texto no seu conjunto são introduzidos em diferentes sistemas de relação tendo por resultado a recepção simultânea com mais de uma significação” (LOTMAN, 1973, p. 112).

A relação entre expressão/estrutura, é exemplificada pela analogia com o tipo de relação que se dá entre a vida e o tecido vivo, isto significa que o conteúdo não preexiste à sua estrutura, daí a sua afirmação de que “o pensamento de um escritor (se) realiza numa determinada estrutura artística”. Se a “ideia” em arte se define como um modelo do mundo, então não existe qualquer possibilidade de se atingir essa mesma ideia fora da estrutura que a suporta (tal como não é possível estudar a vida fora do organismo vivo, o tecido vivo que a sustente). De qualquer maneira, o texto e sua pluralidade de códigos, segundo o estudioso da semiótica e da cultura “comporta-se como um organismo vivo que se encontra numa ligação inversa com o leitor e que o esclarece” (1973: 55).

A interdependência entre expressão/conteúdo do texto artístico radica, no seu entender, no caráter icônico e figurativo dos signos em arte, isto é, trata-se de signos cuja construção se funda precisamente nessa relação de dependência entre o nível da expressão e do conteúdo: “o signo modeliza o conteúdo”. O texto artístico, confirma Lotman, corresponde assim a um signo complexo em que um elemento sintagmático (domínio da expressão), pode, num outro nível, assumir-se como elemento semântico (domínio do conteúdo). Nas suas palavras, o texto artístico apresenta-se como “um signo completo e todos os signos isolados do texto linguístico geral são elevados ao nível de elementos do signo.” […] As diferentes significações de um mesmo elemento não coexistirem invariavelmente, mas “cintilarem”. Toda interpretação cria uma forma sincrônica distinta, mas conserva paralelamente a lembrança das significações precedentes e a consciência da possibilidade das futuras” (1973, p.114).

Assim concebido, o texto artístico impõe-se como um sistema, um todo organizado (segundo regras internas específicas), em que a “transgressão” surge, muitas vezes, como mecanismo privilegiado gerador do dinamismo informativo que o caracteriza.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

LOTMAN, Youri. La Structure du texte artistique. Paris: Gallimard. 1973

i “A linguagem da arte é, ela mesma, uma hierarquia complexa de linguagens inter-relacionadas, mas não semelhantes. A isto está relacionado a pluralidade de princípios de leituras possíveis de um texto artístico. A isto também, nota-se, está ligada a carga significante da arte, inacessível a qualquer outra linguagem não-artística”. (tradução nossa).

[1] Rodrigo da Costa Araujo é Especialista em Literatura pela FAFIMA, Mestre em Ciência da Arte pela UFF e professor de Literatura e Teoria da Literatura na FAFIMA – Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Macaé. E-mail: rodricoara@uol.com.br

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