Resenhando o livro “Peixe dourado” e sua contribuição para a negritude

Fernanda Gabriela Soares dos Santos1  Décio Luciano Squarcieri de Oliveira**

publicado em 18/07/2009 como www.partes.com.br/educacao/peixedourado.asp

Oh, peixe, peixinho dourado, cuide bem de si!

Porque são tantas as armadilhas, tantas

As redes armadas para você neste mundo.”

 

Provérbio originário da antiga civilização mexicana.

 

Fernanda Gabriela Soares dos Santos Mestre em Educação pelo PPGE/UFSM, professora da FISMA( Faculdade Integrada de Santa Maria). fernandagssantos@yahoo.com.br

Como leitores de literatura e acreditando na possibilidade de dialogar com a disciplina em nossas aulas de Filosofia e História, não raro temos introduzido em nossas aulas as questões de História e Filosofia a partir de textos literários. A experiência tem sido construtiva: muitas vezes a literatura consegue tocar mais rápido o coração de seus pequeninos e jovens leitores e acaba fazendo-lhes olhar para nossas disciplinas com um pouco mais de ternura.
A partir da indicação de um colega de mestrado, descobrimos um livro que muito nos agradou: Peixe dourado. A linguagem é simples, de facílimo entendimento. Atrai desde a primeira linha, LE CLÉZIO (2001, p. 7): “Quando eu tinha seis ou sete anos, fui raptada.”.

 

Com esse ponto de partida, impossível não nos inebriarmos com a história da menininha negra e franzina que é tirada bruscamente do seio de sua família para jamais retornar. Ela nunca soube quem de fato foi sua família. Foi adotada por uma senhora que a cuidou e que não raro precisava proteger a menina de seu único filho, pois embora a pequena jamais tivesse contado haviam fortes indícios de que seu filho tentou abusar da criança.
Essa senhora foi até parte de sua adolescência seu único contato com o mundo externo. Desde que fora sequestrada jamais soube o que se passava do lado de fora do lugar onde vivia. A senhora que a criara chamou-a de Laila, a Noite, em alusão a sua cor.

 

Da primeira vez que Lalla Asma, a senhora que a comprara e criara, passou mal, Laila teve uma dificuldade imensa de procurar ajuda. Não sabia como andar ou se cuidar pelas ruas, não sabia a quem recorrer. As únicas pessoas que via eram os vendedores ambulantes que não raro batiam em sua casa no intuito de vender as suas mercadorias.

Décio Luciano Squarcieri de Oliveira é Graduado em História – Licenciatura Plena pela Universidade Federal de Santa Maria. Especialista em História do Brasil/UFSM, Mestrando em Educação/UFSM, Professor Pesquisador I da Universidade Aberta do Brasil – UAB/UFSM, Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Imaginário Social – GEPEIS – UFSM. decioluciano@yahoo.com.br

E assim chegou pela primeira vez ao lugar onde mais tarde, quando Lalla Asma morre de fato, vai morar. Uma espécie de pensão que acolhe ambulantes de dia, vendedores, viajantes e que a noite também serve como prostíbulo. Apesar da frieza do lugar, quando retorna para definitivamente viver, é tratada com carinho pelos habitantes do lugar. Confessa mais tarde que teve uma dificuldade imensa de acreditar que as prostitutas não eram princesas, tal como imaginava.

 

A partir de então começa a se desenrolar a triste trajetória de vida da menina que um só carregava consigo a lembrança de uma rua poeirenta e de ter sido jogada dentro de um saco e carregada no porta-malas. Não havia rancores com a senhora judia que a comprara, pois Laila além de não conhecer esses sentimentos não recordava de uma outra vida ou de familiares.

 

Durante o tempo que pôde viveu nesta espécie de prostíbulo, até ser arrancada de lá pela polícia a mando da nora de Lalla Asma. Foi levada de volta a família para tratarem-na como uma empregada, sem direito à comida dos patrões ou a roupas. Também não podia sair de casa. E justo á residia um terrível engano: a protagonista já havia conhecido a liberdade ao viver no prostíbulo e por essa ansiaria todo o resto de sua existência.
Segundo LE CLÉZIO (2001, p.28): “Estava bêbada de liberdade, vivera trancada demais durante tempo demais. Estaria pronta a escapar se alguém tentasse me reter.”.

 

E mesmo assim a protagonista ficou presa até tentarem arrumar-lhe um casamento. Foi quando resolvera de vez fugir daquela casa. Contudo, sabia que mesmo que retornasse ao prostíbulo já não poderia viver naquela cidade. Era preciso partir. Ao voltar a encontrar uma de suas ex-princesas, resolveu partir com ela. Esta também fugia de um casamento doentio.

 

 

Vivera então em uma aldeia na qual consumiu os livros da biblioteca. Viajou pela mundo através da literatura: leu clássicos, conheceu pessoas, fez cursos. Sempre com sua cor e inteligência chamando a atenção de todos, sabia que não passava despercebida, o fato de ser negra e utilizar sempre a mesma roupa era marcante. Vivia quase em situação de miséria absoluta e assolada pelo medo de que alguém a encontrasse e a devolvesse a família adotiva.

 

Foi quando uma das ex-princesas, já grávida, resolveu partir para a Europa. Naturalmente ela teria de ir de forma clandestina. Não possuía documentos e nem sabia o que poderia fazer para adquiri-los. Entraram então de forma clandestina em Paris, cidade a qual passaram inúmeras necessidades. Foi também em Paris que a protagonista do livro percebeu que todos os que se aproximavam dela tentavam algo em troca. Não raro favores sexuais. Foi um tempo difícil, dolorido. A Paris não tão linda como aos olhos de um turista: a Paris de um estrangeiro, clandestino, negro e mulher, que batalha o pão e que, em determinada ocasião, é estuprada no banheiro de um metrô, sem que ninguém interferisse. Era só uma mulher. E negra. Quem se importaria?

 

 

Foi trabalhando em um hospital como camareira que Laila conhece uma médica que se interessa por ela. É convidada então para trabalhar na casa dela e em troca recebe moradia, roupas, comida. Vive um momento de tranquilidade. Contudo, meses depois se dá conta de que acorda de forma estranha: havia sido molestada pela médica na noite anterior.

 

Contudo, é como se nada mais a abalasse, a vida já se encarregara de amortecer todas as dores. E, depois de muitas outras dores vividas pela personagem, no final do livro, ao, mais uma vez, ir embora de onde estava, ela avista uma rua que lembra a remete à lembrança de infância. Caminha até o final da rua e enxerga uma senhora sentada. Não trocam palavras, mas Laila toca a sua mão para saber como é tocar a mão de sua mãe, pois sabe que é ela.
 

Fica o convite leitores para que sintam o prazer que sentimos. O escritor ganhou o Nobel de Literatura de 2008. Não temos dúvidas de que merecido. A história poderia ser a de qualquer um de nós…

 

Companhia das letras
ISBN:  8535901507 8535901507
ISBN-13:  9788535901504 9788535901504
Livro em português
Brochura
– 21 x 14 cm 1ª Edição – 2001

 

REFERÊNCIAS

 

LE CLÉZIO, J.M.G. Peixe dourado, tradução de Maria Helena Rodrigues de Souza – São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
 

1 Professora de Filosofia da Rede Municipal de Formigueiro, RS, mestranda em Educação pelo PPGE-UFSM, membro do GEPEIS(grupo de pesquisa em Educação e Imaginário Social).

** Professor de História da Rede Estadual do município de Itaara, RS, professor da UAB, mestrando em Educação pelo PPGE-UFSM, membro do GEPEIS(grupo de pesquisa em Educação e Imaginário Social).

 

Como citar este artigo:

OLIVEIRA, Décio Luciano Squarcieri., SANTOS, Fernanda Gabriela Soares, Resenhando o livro “Peixe dourado” e sua contribuição para a negritude. P@rtes (São Paulo). V.00 p.eletrônica. Julho de 2009. Disponível em <>. Acesso em _/_/_.

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