Notas sobre a Pedagogia da Autonomia

Claiton Espindola1

publicado em 01/10/2009 como www.partes.com.br/educacao/pedagogiadaautonomia.asp

 

Claiton Espindola é Nutricionista, membro do GEPEIS (Grupo de Pesquisa em Educação e Imaginário Social) – UFSM.

Paulo Freire em sua obra, Pedagogia da Autonomia, elucida as razões para pensar as práticas pedagógicas do professor, em relação à autonomia do ser e do saber do educando. Refere-se ao aluno como um sujeito social e histórico, que carrega consigo os elementos de sua cultura, sendo necessário, portanto, respeitar o seu conhecimento. Como também, compreender que “formar é muito mais do que puramente treinar o aluno”.

Em relação aos saberes necessários para a prática educativa, o autor nos convida a uma reflexão sobre uma prática educativo progressiva, a favor da autonomia do aluno. Ao referir-se a uma inconclusão do ser humano e a um permanente movimento de busca, acaba por constituir, também, uma ética, denominada “ética universal dos seres humanos”, da qual o educador deveria se aproximar. Diante a esta ética da tarefa docente, muitas vezes negada e traída; em comportamentos imorais, na perversão hipócrita que transforma pureza em puritanismo, no afrontamento ético das manifestações discriminatórias de raça, gênero ou classe, o autor a defende como inseparável da prática de educar não importando o público com que trabalhamos; sejam crianças, jovens ou adultos.

Para tanto, o preparo científico do professor deve coincidir com sua retidão ética, sendo uma lástima qualquer descompasso entre um e outra. Ou seja: formação científica, correção ética, coerência, responsabilidade, capacidade de viver e aprender com o diferente, não deixando que nosso mal estar pessoal ou nossa antipatia em relação ao outro interfira na dedicação de nossa prática. Todavia não é possível ao sujeito ético viver sem estar exposto a transgressão desta mesma ética, e esta é uma das brigas com a história; de como sermos éticos sem cairmos em moralismos hipócritas.

Como a consciência de minha presença no mundo, não é possível escapar da responsabilidade ética em meu mover-me pelo mundo. Agora, se acredito ser puro produto dos determinantes culturais, genéticos ou de classe, não tenho responsabilidade em meu mover-me e, se careço de responsabilidade, não posso falar em ética. Claro, que isto não significaria negar os condicionantes culturais a que estamos submetidos, mas reconhecermos que embora sejamos condicionados, isto não significa, porém, determinados.

Não há docência sem discência, na prática de cozinhar, por exemplo, se retificam alguns saberes, modificam-se e se ampliam outros, e, desta forma, o aprendiz vai se tornando cozinheiro. Portanto, a reflexão crítica sobre a prática é uma exigência, sem a qual corremos o risco da teoria virar um “blábláblá” e a prática um puro ativismo. Um dos saberes fundamentais na prática educativo crítica é que o formando assuma-se como responsável pela produção do seu saber e que se convença que ensinar não é transferir conhecimentos, mas sim criar condições para a produção e a construção deste.

“É preciso ficar claro desde o começo do processo que quem forma se forma e (re) forma ao formar e quem é formado, forma-se e forma o ser formado… Quem ensina aprende ao ensinar, e quem aprende ensina ao aprender” (p. 25). Neste sentido, podemos pensar que ensinar não é transferir conhecimentos e nem pode ser a ação a qual o sujeito criador dá forma, estilo e alma a um corpo indeciso e acomodado.

Desta forma, o professor não pode assumir a postura superior de achar mais inteligente, pois apenas tem certos conhecimentos. Deve, no entanto, incentivar o aluno a participar do processo e da construção da aprendizagem; justificando que, na verdadeira aprendizagem, os alunos vão se transformando em reais sujeitos do saber ensinado onde também o professor é sujeito deste processo.

A atividade docente exige a pesquisa, “pois não existe ensino sem pesquisa e nem pesquisa sem ensino” (p. 32), se pesquiso é porque busco e questiono. Porém, para pesquisar e compreender criticamente é necessário pensar. Segundo Freire, saber pensar é duvidar de suas próprias certezas, se questionar acerca de suas verdades.

Ensinar exige respeito com o saber dos educandos, saberes muitas vezes socialmente construídos, superar a curiosidade ingênua que ao criticizar-se desenvolve a curiosidade epistemológica, promovendo a ingenuidade em criticidade. Como seres histórico-sociais somos capazes de valorar, comparar, intervir, romper e, por tudo isto, nos tornamos éticos. Como homens e mulheres somos capazes de aprender, portanto, de ensinar através da corporeificação das palavras, pelo exemplo, na aceitação do novo e a rejeição a qualquer tipo de discriminação. Desta forma não é possível nos assumir como sujeitos da procura, da ruptura, da decisão, da opção, como sujeitos históricos, transformadores, a não ser assumindo-nos como sujeitos éticos. Temos que refletir criticamente a nossa prática, pois pensando na prática de hoje ou de ontem podemos melhorar a prática de amanhã.

São tantas as responsabilidades do professor em sala de aula e fora dela, que as vezes não nos damos conta de como uma presença exemplar na sala de aula, não pode escapar do juízo que os alunos dele o fazem; porém, o pior dos juízos é considerar o professor uma ausência em sala. Devemos reconhecer que a educação é ideológica, uma forma de intervenção no mundo, ter certeza que fazemos parte de um processo inconcluso onde há sempre possibilidades de interferir na realidade de modo a modificá-la. O essencial nas relações educador e educando: liberdade e autoridade. É a reinvenção do ser humano na aprendizagem de sua autonomia.

Referência bibliográfica :

Paulo Freire (1996). Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 165 p.

1 Nutricionista, membro do GEPEIS (Grupo de Pesquisa em Educação e Imaginário Social) – UFSM.

Como citar este artigo:

ESPINDOLA, Claiton. Notas sobre a Pedagogia da Autonomia. Revista P@rtes (São Paulo). V.00. P.eletrônica. Outubro de 2009. ISSN 1678-8419.  Disponível em <>. Acesso em _/_/_.

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