Simbiose entre mídia e política: mais um tiro no pé da ética

Daniele Barizon

publicado em 01/10/2009 como www.partes.com.br/reflexao/simbiose.asp

Daniele Barizon é estudante de Jornalismo; Diretora Teatral, autora das peças Esses e outros 500, Maratona do Caos, Biografia de um sonho vazado, Como enlouquecer um homem em 10 lições e Cinderela da Silva.
danielebarizon@hotmail.com

As teorias de manipulação de massa (enquanto turba indistinta e alienada) pelos veículos de comunicação, há muito já foram refutadas por teóricos da atualidade. Tal dominação não ocorreria, entre outros fatores, graças ao papel desempenhado pelas mídias independentes, aliadas à influência dos chamados líderes locais. A possibilidade de se obter informações extraoficiais, assim como a identificação e pertencimento dos indivíduos a grupos específicos, portanto, fariam a diferença primordial na forma de recepção das mensagens – fundamentalmente as de cunho político.

A eleição do presidente Lula em 2002 – com clara desvantagem em relação ao opositor, no que concerne à cobertura da imprensa dita nativa – talvez seja um bom exemplo para legitimar o argumento. Principalmente considerando-se que, em pleito anterior, “detalhe” como a edição de um vídeo sobre debate entre candidatos à presidência pela TV Globo, em 1989, favoreceu a vitória de Fernando Collor, em detrimento da esquerda de Lula. O espaço de tempo decorrido entre os fatos abarca, ainda, o maior fenômeno responsável pela disseminação do discurso alternativo: a popularização da internet, que também viria a ampliar a até então restrita figura das diferentes lideranças populares.

Em que pese a importância da rede e dos processos unilaterais de resistência, entretanto, a balança está longe de ser equilibrada. A simbiose entre mídia e política, duro golpe contra a isonomia, só deixará de ser prejudicial quando houver, efetivamente, a tão propagada democratização dos meios, concentrados em poucas e coordenadas mãos. Enquanto isso, e a despeito de teorias contemporâneas, quaisquer batalhas tenderão a ser desiguais.

O recente escândalo que envolveu o presidente do senado, José Sarney, o hipotético encontro da ministra Dilma Rousseff com a ex-secretária da Receita Federal, Lina Vieira, e a discussão em torno das novas regras do pré-sal são interessantes, do ponto de vista analítico, para examinar os mecanismos de persuasão utilizados, eventualmente, por determinadas empresas jornalísticas: partidarismo mascarado nas obstinadas tentativas de desconstrução da imagem do PT, com costuras forçadas entre os assuntos e o uso indiscriminado dos já conhecidos recursos de saturação, tão ao estilo das propagandas nazistas.

O site G1, portal de notícias da Globo, chegou a publicar uma foto, sobre a cerimônia do marco de regulação do pré-sal, em que aparecem lado a lado Lula, José Sarney e Dilma Rousseff (Ver artigo na íntegra). Chama atenção o fato de que o gancho da matéria é o atraso, na chegada ao evento, dos governadores Sérgio Cabral, José Serra e Paulo Hartung.

O circo forjado sobre o depoimento de Lina Vieira à CCJ gerou muito mais suítes, em publicações de O Globo, Folha e Estadão, que as denúncias de corrupção da gestão de Yeda Crusius no Rio Grande do Sul e o possível envolvimento do PSDB de São Paulo com a francesa Alston, que teria pago propina de 6,8 bilhões para obter contrato de ampliação do Metrô na capital – isso para citar apenas dois casos.

Embora um observador atento saiba discernir entre verdades e mentiras patentes nestes já sabidos métodos de influência social, a estratégia permanece eficaz. Um despropósito, não pela ação de criticar o poder vigente, mas pelo apoio velado a uma oposição que comete os mesmos erros supostamente combatidos por coberturas que se afirmam apartidárias. Desgasta-se assim a imagem de um governo, menos por suas reais fragilidades que por indução, em prol de interesses privados dos grandes conglomerados.

Mais um tiro no pé da ética, em suma.


Daniele Barizon

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