Oficinas de Aquisição de Habilidades Básicas em Pesquisa: alternativa à formação das novas gerações de pesquisadores

Cecília Machado Henriques1  Estela Maris Giordani**

publicado em 10/11/2009 como www.partes.com.breducacao/oficinasdeaquisicao.asp

 

RESUMO


Cecília Machado Henriques é pedagoga. Aluna do curso de graduação em Ciências Contábeis e do Mestrado em Educação do Programa de Pós-Graduação Educação, ambos pela Universidade Federal de Santa Maria.
ceciliamhenriques@yahoo.com.br

O presente trabalho é resultante da realização de oficinas de Aquisição de Habilidades Básicas de Pesquisa e tem como objetivo apresentar as atividades desenvolvidas e a avaliação dos participantes sobre a oficina, bem como nossas considerações acerca do trabalho realizado, o qual se mostrou como um excelente recurso didático para o desenvolvimento de habilidades e atitudes científicas necessárias ao desempenho de pesquisas acadêmicas.

Palavras-chave: Pesquisa científica, Evento de extensão, Formação para a pesquisa, Habilidades básicas de pesquisa.

RESUMEN

Este trabajo es resultado de los talleres para la adquisición de competencias básicas de investigación y tiene como objetivo presentar las actividades realizadas y la evaluación de los participantes del taller, y nuestros comentarios sobre la obra, que ha demostrado como un excelente recurso de enseñanza para el desarrollo de habilidades y actitudes necesarias para el desempeño de la investigación académica.


Palabras clave:
investigación científica; eventos de extensión, formación para la investigación, habilidades básicas para la investigación.

INTRODUÇÂO

Muitos autores têm focado seus interesses de estudo para o ensino através das pesquisas, como é o caso de Demo (2002, 2003), Moraes (2004), Galiazzi (2002), dentre outros. A própria Lei de Diretrizes e Bases da Educação, coloca, em seu art. 43, que a Educação Superior tem por finalidade “estimular a criação cultural e o desenvolvimento do espírito científico e do pensamento reflexivo”.

Porém, nas atividades que envolvem realização de pesquisas, observamos a crescente dificuldade que os estudantes demonstram quanto à elaboração de seus projetos e trabalhos de conclusão de cursos. Esse despreparo diz respeito, principalmente, aos conhecimentos elementares sobre a realização de pesquisas, bem como a aquisição de um conjunto mínimo de habilidades e atitudes científicas necessárias ao desempenho de pesquisas nas IES. A questão é que as disciplinas que têm por finalidade preparar os alunos para a elaboração de suas pesquisas possuem um caráter teórico muito grande e não proporcionam vivências práticas aos alunos. Por outro lado, os

Estela Maris Giordani é pedagoga. Doutora em Educação. Professora do curso de Pedagogia da Universidade Federal de Santa Maria.
estelagiordani@gmail.com

professores orientadores, a cada novo orientando, seja ele bolsista de iniciação científica, seja de mestrado, já não se dispõem a repetir novamente aquilo que já foi abordado com inúmeros orientandos, o que torna a atividade maçante e, muitas vezes, superficial, deixando por conta do aluno seu desenvolvimento.

Severino (2002) entende que “a função do orientador deveria ser aquela de um educador, cuja experiência, mais amadurecida, ele compartilha com o orientando, num processo conjunto de construção de conhecimento. Duas partes interagindo, num processo de diálogo, respeitando-se a autonomia e a personalidade de cada uma das partes” (p. 77). Ou seja, são os orientadores os responsáveis pela formação da maioria dos futuros pesquisadores. Porém nossa experiência mostra que isso nem sempre acontece, pois muitos orientadores já não se dispõem mais, a cada novo orientando, a percorrer todos os caminhos que são pré-requisitos ao processo de elaboração de trabalhos científicos.

Segundo Clark e Castro (2003), a pesquisa “é basicamente um processo de aprendizagem tanto do indivíduo que a realiza quanto da sociedade na qual esta se desenvolve” (p. 67). Assim, não estamos nos referindo a roteiros de pesquisa, ou dicas de como fazê-los e sim, de entrar na arquitetura do processo de produção do conhecimento adquirindo um conjunto de ferramentas elementares. Destacamos dentre elas: como fazer uma leitura dos textos científicos, como realizar resenhas, resumos, mapas conceituais, sinopses, esquemas explicativos e como estabelecer a parceria com o orientador no processo de produção da escrita do texto, do relatório ou do artigo da pesquisa. Estas ferramentas que denominamos habilidades básicas em pesquisa possuem o objetivo de promover a superação das barreiras encontradas pelos orientadores principalmente pelo despreparo de seus orientandos.

As oficinas tinham como objetivo contribuir com o desenvolvimento da pesquisa na instituição e promover a formação de pesquisadores. Nesse sentido, em suas 40 h/a desenvolvemos atividades práticas com metodologia interdisciplinar, na qual os participantes foram convidados a adquirir um conjunto de instrumentos práticos na atividade da pesquisa científica. Para tanto, propomos atividades nas quais os participantes pudessem aprender habilidades básicas de pesquisa, realizar a iniciação e o desenvolvimento de pesquisas e elaborar com coerência a pesquisa que já estivessem realizando.

Como metodologia, optamos por atividades eminentemente práticas que provocassem os participantes a trabalhar de diferentes modos com leitura, escrita e investigação. Permeando os exercícios práticos sempre foram explicitados os componentes epistêmicos das atividades de modo que ao participante ficasse claro os pressupostos teórico-metodológicos das seções realizadas.

Quanto ao programa didático, foi dividido em módulos e desenvolvido ao longo de cinco meses, em encontros quinzenais, respeitando o calendário acadêmico da IES e a disponibilidade dos participantes. Exigiu-se dos participantes apenas compromisso em concluir e cumprir com as atividades propostas, estar desenvolvendo pesquisa ou elaborando seu projeto de pesquisa e querer desenvolver atividades de pesquisa na instituição.

Considerações dos participantes sobre as atividades desenvolvidas

Os participantes mostraram-se bastante entusiasmados com o Evento de Extensão. Segundo seus relatos, a atividade foi bastante enriquecedora para sua formação, enquanto profissionais pesquisadores. Ao final dos encontros, solicitamos aos alunos que elaborassem um memorial descritivo contendo os resultados que obtiveram a partir da realização dessa formação. A partir dos depoimentos dos alunos podemos perceber que alguns se envolveram na oficina, inicialmente, apenas para conseguir horas em atividades complementares de graduação ou para preencher um tempo vago:

“[…] pensei que seria uma forma de conseguir ACG’s […] porém aquela procura inicial por horas de ACG’s, é tão minúscula em relação ao aprendizado que tive nesta oficina” (S1); “As oficinas surgiram apenas como uma atividade para preencher horários vagos já que eu estava em uma fase em que participava de tudo que aparecia” (S10).

Outros afirmaram que buscavam formas de complementar o aprendizado dos cursos de graduação:

“Escolhi a oficina porque estava me inserindo em uma pesquisa, já havia feito disciplinas sobre o assunto na graduação (Pedagogia), mas nenhuma delas correspondia aos meus anseios e necessidades” (S4); “[…] no meu curso não havia nenhuma disciplina totalmente voltada para a aquisição dessas habilidades básicas de pesquisa” (S7); “O que realmente chamou minha atenção para a oficina de pesquisa foi a oportunidade de aprender um pouco mais sobre as diversas formas de pesquisa que, apesar de termos algumas disciplinas no curso, estas não abordam o tema de forma mais aprofundada” (S12); “[…] aprimorar conceitos/noções vistos na graduação” (S6); “[…] aprender alguns elementos fundamentais para se começar uma pesquisa” (S7).

Os participantes afirmam também que as atividades possibilitaram que percebessem suas limitações e se desenvolvessem a partir dessa percepção, principalmente quanto a elaboração de seus projetos de pesquisa e/ou trabalhos de conclusão de curso:

“[…] conseguiu unir teoria e prática […] a partir das dinâmicas e atividades propostas, além de nos apontar “falhas”, conseguiu […] proporcionar reflexões significativas” (S6); “[…] a oficina foi muito produtiva, nos acrescentou em muitos aspectos, como a leitura, elaboração e construção de projetos de pesquisa” (S7); “[…] nos colocar diante das nossas limitações e […] a partir disso, o crescimento intelectual” (S3); “[…] cresci muito, tenho mais cuidado ao elaborar minhas falas e textos, continuo praticando a capacidade de organizar o pensamento antes de expô-lo” (S4).

Sobre os resultados pessoais que a freqüência as oficinas proporcionou, os alunos apontam que

“[…] aprendi a fazer auto-crítica” (S5); “As mudanças foram consideráveis quanto ao meu entendimento sobre os métodos de pesquisa e suas aplicações nas diferentes formas de pesquisa. Pois algum tempo atrás, quando fui realizar um projeto de pesquisa senti-me um pouco perdida quanto aos métodos e técnicas que deveria adotar para realizar a coleta de dados. Hoje me sinto mais preparada […]” (S9); “O que mais gostei nas oficinas foi a possibilidade de análise e discussão sobre métodos e práticas de pesquisa, pois apesar do curso ter disciplinas que abordam este tema, nossa prática acaba sendo de tentativa e erro, pois aprendemos apenas a teoria” (S13); “[…] o mais importante, talvez o que me prendeu até o final da oficina, termos analisado nossa escrita em vários momentos. Contudo, me dou conta agora, de que fiz isto, sem estar na oficina ou escrevendo para a mesma, ultrapassando as paredes da sala” (S4).

A partir dos depoimentos obtidos durante as oficinas nossas observações, análises e os memoriais descritivos dos participantes nos possibilitaram estabelecer algumas conclusões provisórias, dentre as quais:

a) existe uma lacuna na formação básica dos acadêmicos para pesquisa, no que se refere às leituras de texto científico, construção e organização de projetos ou textos acadêmicos, dentre outros. Essas lacunas são observadas tanto nos cursos de graduação quanto na pós-graduação (especialização e mestrado);

b) há uma dificuldade na transposição do conhecimento acadêmico ou dos fundamentos científicos para as práticas de pesquisa e práticas profissionais específicas de cada área do conhecimento;

c) existe a carência da elaboração de uma pedagogia para o desenvolvimento da pesquisa científica;

d) observamos que o fato do aluno ser acadêmico e gostar da atividade cientifica não pressupõe o seu desenvolvimento como um investigador, ou um pesquisador, ou um curioso sobre os instrumentos teóricos e metodológicos de sua área;

e) percebemos que os cursos possuem poucos espaços para desenvolver nos acadêmicos processos reflexivos para, com isso, alavancar o desenvolvimento de intelectos capazes de avançar na pesquisa científica de ponta.

Considerações sobre o trabalho desenvolvido

Podemos observar que na formação das novas gerações de pesquisadores no ensino superior é preciso desenvolver o saber pensar. “A Universidade precisa garantir que os alunos aprendam a pesquisar e a aprender” (DEMO, 2002, p. 8). Porém, saber encontrar as informações necessárias, elaborar sínteses, construir reflexões, relações, aplicar em situações diversas de modo criativo, são habilidades a serem desenvolvidas durante o processo de formação profissional no ensino superior.

Esse conjunto de habilidades indica que os processos formativos no ensino superior devem estar cada vez mais voltados ao desenvolvimento da dimensão humana: criatividade, trabalho em equipe, capacidade interativa (comunicativa – oral e escrita -, empática) e operações cognitivas abstratas aplicadas em situações cada vez mais específicas. Estas aprendizagens portam valores éticos profundos a respeito do ser humano e estão presentes de forma implícita nas relações que estabelecemos nos processos de construção do conhecimento científico.

A partir da análise dos dados obtidos ao longo da realização da oficina, percebemos que esta é um ótimo instrumento que serve de alternativa à formação das novas gerações de pesquisadores. Os desafios que a oficina lança ao universo acadêmico não são apenas de um saber fazer pesquisas, mas de um saber formar sujeitos em processos de pesquisa, considerando os princípios da atividade científica e do desenvolvimento da ciência, dentre os quais repousa o valor humano como elementar a qualquer atividade.

REFERÊNCIAS

CLARK, O. A. C; CASTRO, A. A. A pesquisa. In: Rev. Pesquisa Odontologia. 17(Supl.1), p. 67-69, Brasília, 2003.

DEMO, P. Política Científica e Educacional na Universidade. In: Educação. Porto Alegre: PUCRS, Ano XXV, nº 47, p. 07-21, 2002.

DEMO, P. Educar pela Pesquisa. 6ª ed. São Paulo: Editores Associados, 2003.

GALIAZZI, M. do C. A explicitação do conhecimento inicial no educar pelas pesquisas: para além dos conceitos. In: Educação. Porto Alegre: PUCRS, v. 25, n. 47, P. 45-59, jun.2002.

SEVERINO, Antônio Joaquim. Pós-graduação e Pesquisa: o processo de produção e de sistematização do conhecimento no campo educacional. In: BIANCHETTI, L.; MACHADO, A. M. N. (orgs). A bússola do escrever: desafios e estratégias na orientação de teses e dissertações. Florianópolis/São Paulo: Ed. UFSC e Ed. Cortez, 2002.

MORAES, R. Educar pela pesquisa: exercício de aprender a aprender. In: MORAES, R.; LIMA, V. M. R. Pesquisa em sala de aula: tendências para a educação em novos tempos. 2ª ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004.

1 Pedagoga. Aluna do curso de graduação em Ciências Contábeis e do Mestrado em Educação do Programa de Pós-Graduação Educação, ambos pela Universidade Federal de Santa Maria.

** Pedagoga. Doutora em Educação. Professora do curso de Pedagogia da Universidade Federal de Santa Maria.

Como citar este artigo:
HENRIQUES, C. M.; GIORDANI, E. M. Oficinas de Aquisição de Habilidades Básicas em Pesquisa: alternativa à formação das novas gerações de pesquisadores. In: Revista Virtual P@rtes. São Paulo: Novembro de 2009. ISSN 1678-8419. Disponível em: <>. Acesso em _/_/_.

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