Resíduos sólidos e líquidos descartados em lava-jatos

Pereira, H.R.;Levada, C. L. ;Levada, M. M. O.;Mussi, A.A.1

publicado em 11/11/2009 como www.partes.com.br/socioambiental/residuossolidos.asp

 

Resumo : Cada Lavajato consome, por dia, em média mil litros de água, sendo que muitos abusam do desperdício e utilizam produtos químicos que agridem o meio ambiente. Em alguns casos, os produtos químicos usados na limpeza escorrem pelo asfalto e ganham as redes de água pluviais, que caem nos leitos d’água da cidade. Em certos aspectos, é uma atividade irregular, pois, muitos locais não possuem caixas que armazenam os resíduos provenientes da lavagem. Estes resíduos deveriam ser recolhidos duas vezes por semana através da limpeza das caixas e alocados em tambores para, posteriormente, ser transportado por empresas especializadas na destinação final. Os resíduos industriais e urbanos vêm-se tornando um dos mais sérios problemas que a sociedade moderna enfrenta. Sua deposição de forma inadequada provoca a degradação do meio ambiente e a contaminação dos mananciais de água e do solo. A indústria cerâmica pode ser fonte viável e correta para reciclagem desses resíduos.

Palavras-chave: resíduos, meio ambiente, produtos químicos, indústria cerâmica.

INTRODUÇÃO

Os Parâmetros Curriculares Nacionais, PCNs, importante conjunto de orientações didáticas para o trabalho docente, apresentam, entre outras temáticas, os chamados Temas Transversais, com objetivo de apresentar propostas para desenvolver a capacidade reflexiva do aluno, dentre os quais se destacam as questões relativas ao meio ambiente. Os fatos do cotidiano das comunidades requerem a problematização nos planos de ensino da escola, pois, ela tem a função de desenvolver a prática educativa sistematizada ao longo da vida das pessoas (BRASIL 1998). Assim sendo, esse trabalho tem como objetivo a apresentação de uma experiência de investigação sobre questões ambientais, produzido durante a realização do estágio curricular supervisionado de um aluno da Uniararas, durante o ano letivo de 2007.

O aumento da consciência ambiental e as leis específicas sobre geração de resíduos proveniente da atividade industrial causou melhoria quanto a vigilância e responsabilidade sobre a questão da disposição final de resíduos. Entretanto, pequenos empreendimentos que trabalham de forma tecnologicamente simplificada, algumas vezes exercem suas funções de forma agressiva ao meio ambiente (Menezes 2002). Um exemplo é o popular lavajato. Alguns estabelecimentos desse tipo utilizam de forma descontrolada e insegura, produtos químicos de alto poder de intoxicação e contaminação, e geram uma lama impregnada com os produtos químicos utilizados. A partir dessa constatação, dentro dos projetos de estágio de Humberto Renato Pereira, da Uniararas, foram incluídas visitas técnicas em lava-jatos da região de Araras (SP). O acompanhamento ocorreu durante o ano de 2007 com o propósito de obter informações sobre os impactos ambientais e sociais causados por esses serviços.

METODOLOGIA

A investigação em pauta colocou o estagiário diante dos fatos cotidianos dos lavajatos para a familiarização, visando obter subsídios para descrever o tema de forma mais precisa. Para tanto, foram realizadas visitas informais em três estabelecimentos na cidade de Araras, estado de São Paulo. Segundo QUIVY (2007), as entrevistas exploratórias são aquelas que devem ser realizadas sempre que nos propomos a investigar um campo onde não possuímos conhecimentos prévios aprofundados a seu respeito, o que é o exemplo do presente estudo. O estagiário esforçou-se por fazer o menor número possível de perguntas e por formular as suas intervenções da forma mais aberta possível não se envolvendo em debates de ideias ou tomando posição sobre afirmações a respeito do entrevistado. A composição do diário de campo constou das anotações e das perguntas feitas pelo estagiário durante as horas que passou no estabelecimento, observando a rotina e os procedimentos.

PROCEDIMENTO PADRÃO ADOTADO EM LAVAJATOS

O local dispõem de rampas de lavagem com uma valeta no meio, que tem a função de facilitar a limpeza da parte inferior do veiculo. A operação tem início com a pulverização de um produto químico conhecido como Ativado e Solupan (AS) que tem a função de dissolver a sujeira e a gordura impregnada na parte baixa dos veículos. Para quantificar a concentração desse produto, recomenda-se dissolver 5 litros de AS em 200 litros de água (WWW.POOLTECNICA.COM.BR ). Uma primeira questão é: Será que as instruções são seguidas à risca ou será que para acelerar o processo coloca-se uma concentração maior dos produtos?

Concomitante ao processo de limpeza são realizadas com frequência operações como a manutenção, reparo ou instalação de novos sistemas, geralmente sem os cuidados necessários para conter eventuais vazamentos provenientes desses procedimentos. Como exemplo disso, na ocasião de uma de nossas visitas técnicas, num determinado lavajato, a manutenção em uma bomba de combustível era operada por uma pessoa supostamente não qualificada.

Algumas irregularidades feitas foram : a área não estava isolada; a cada teste na bomba, um excedente de gasolina escorria livremente pelo chão, recorrendo-se a um jato de água para limpar o local; o canal para a saída dessa água desembocava na rede de água pluvial municipal, sem nenhum tratamento; parte dos resíduos de pulverização dos produtos químicos era levada pelo ar.

ALGUNS PRODUTOS USADOS

Solupan é o nome comum, nome comercial, do produto químico utilizado para dissolver a graxa e demais gorduras; é um produto de forte alcalinidade e corrosividade, sendo assim classificado como produto perigoso que oferece risco a saúde humana. O Solupan tem uma cor de tonalidade rosa, e fica num reservatório, diluído na fração de 5 litros para cada 200 litros de água.

Ativado é o nome do produto de igual emprego e propriedade química semelhante ap Solupan no sentido de remoção de crostas de sujeira, sendo que seu emprego na mistura está mais associado com a propriedade espumante. Além de propiciar espuma, ele atua na redução de matéria impregnada em peças de alumínio. O alumínio é a base, ou o bloco de todo tipo de veiculo leve e de passeio.

Óleo Diesel é o produto empregado como combustível veicular utilizado principalmente em caminhões, que apresentam maior quantidade de sujeira como a graxa e os vazamentos de óleo; é pulverizado por toda a parte inferior do veículo.

Durante a aplicação dos produtos mencionados o que se vê é uma grande mancha escura residual a base de graxa e óleo misturados no escoamento da agua.

RESULTADOS

Dados sobre um dos postos visitados

Na tabela 1, na unidade visitada, atende-se, em média 200 carros por mês, sendo que cada carro utiliza em média 100 litros de água com produtos químicos diluídos.

Total de água: 200(carros mês) x 100(litro de água) = 20.000 litros de água.

LOCAL REGIÃO CENTRAL DE ARARAS
QUANTIDADADE EM MÉDIA 200 CARROS POR MÊS
INSUMOS SOLOPAN /ATIVADO / ÓLEO DIESEL
CONSUMO 20 LITROS DE CADA PRODUTO POR MÊS
CAPTAÇÃO DE ÁGUA POÇO (SEM OUTORGA)
QUANTIDADE DE AGUA 100 LITROS POR CARRO
GERAÇÃO DE LODO 75 kg DE MATERIAL SECO POR MÊS
DESCARTE DO LODO COLETA URBANA OU DISK ENTULHO
EFLUENTE LÍQUIDO REDE DE ESGOTO DO MUNICÍPIO

Tabela 1 – Informações sobre consumo de produtos no lavajato.

Um tambor plástico de 200L serve como reservatório para água que lava os carros, sendo que a cada carro lavado consome-se ½ tambor , ou seja, 100 L de água.

Depois de lavado o carro, o recipiente é reabastecido imediatamente com uma bomba que succiona água do poço, disponível no estabelecimento, completando o tambor. Esse processo é repetido a cada veiculo lavado.

Na percepção do estagiário o problema se agrava quando ocorre a lavagem do motor dos veículos, pois, além dos produtos mencionados geralmente se adiciona querosene como aditivo de reforço.

Depois da pulverização desses produtos, o chão recebe uma camada de água com a “lama” proveniente da lavagem, onde são dissolvidos os produtos químicos utilizados no processo e a massa de resíduos como graxa, óleo e outros.

Os resíduos seguem para uma caixa chamada de sumidouro que fica atrás da valeta onde são lavados os carros, com dimensões aproximadas de 1,5m x 1,5m.

Todo o arraste do produto escoa para essa caixa onde, mensalmente é feita uma retirada de, em média 76Kg de “lama” que é disposta na calçada, a espera da coleta urbana. A parte líquida segue para a rede de esgoto do município.

CONCLUSÃO

A questão da disposição final dos resíduos sólidos, gerados pelos lavajatos, é um desafio a ser solucionado por tais empresas. A construção civil poderia ser uma das maiores consumidoras desses resíduos como uma espécie de matéria prima alternativa. O aproveitamento dos rejeitos industriais para uso como material alternativo não é novo e tem dado certo em vários países do Primeiro Mundo. A indústria cerâmica é uma das que mais se destacam na reciclagem de resíduos industriais e urbanos, em virtude de possuir elevado volume de produção que possibilita o consumo de grandes quantidades de rejeitos e que, aliado às características físico-químicas das matérias-primas cerâmicas e às particularidades do processamento cerâmico, faz da indústria cerâmica uma das grandes opções para a reciclagem de resíduos sólidos (MENEZES 2002).

A incorporação de resíduos industriais em cerâmica vermelha está sendo muito usada nos últimos anos, incorporando-se lamas provenientes do tratamento das águas de limpeza e de esgoto (PEREIRA 2008). A título de ilustração, tem-se a produção de “tijolos ecológicos” (SPINELLI 2009) com argilas e resíduos da indústria, havendo a neutralização dos agentes poluentes. Como a base do tijolo é a argila, além de outras substâncias, o emprego das lamas é uma ideia de mão dupla porque diminuiu a retirada da argila do meio ambiente e absorve os resíduos (LIMA et al 2005).

Outra possibilidade é sugerir leis que determinem a lavagem a seco, pois, enquanto a convencional utiliza 200 litros de água, essa lavagem só consome de 250 ml. Ela funciona com um produto químico específico, evita o contato do lavador com produtos químicos prejudiciais a saúde, evita os arranhões nos carros, cria uma micro película repelente a água e a sujeira, mantendo o veículo limpo por mais tempo.

Concluindo, observamos que essa temática é pertinente tanto aos docentes no uso dos PCNs, temas transversais, assim como para a comunidade acadêmica e científica, no estudo e elaboração de políticas educacionais e ambientais adequadas ao contexto contemporâneo.

REFERÊNCIAS

  1. Menezes, R. R., Neves, G. A. e Ferreira H. C.; Revista Brasileira de Engenharia Agrícola e Ambiental, v.6, n.2, p.303-313, 2002.

  2. BRASIL. Secretaria da Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: meio ambiente e saúde. Brasília, 1998, 128p.

  3. www.anvisa.gov.br/legis/resol/2002/22_02re.htm – 33k Anvisa – Legislação – Resoluções solupan liquido 25001.012328/83- 3.0034.0092.007-8 institucional tambor 100 litros 05/1999 3201015 detergentes de uso profissional . ..

  4. SPINELLI, A. ; W.K.BACELAR . Caracterização dos Solos de Candeias do Jamari para aplicação em Tijolo solo-cimento. In: III Semana da Química, 2009, Porto Velho. III Encontro de Química, 2009.

  5. LIMA, V. A. et al; Construção de Tijolo Ecológico com Rejeito Oriundo do Beneficiamento de Caulim.. In: XVI Congresso de Iniciação Científica, 2005, Natal. Anais: XVI Congresso de Iniciação Científica, 2005.

  6. PEREIRA, E.G.; Aproveitamento do resíduo da estação de tratamento de água de Cubatão para fabricação de elementos construtivos estruturais; dissertação de mestrado em Engenharia Civil, da UFRJ, Rio de Janeiro (2008)

  7. www.pooltecnica.com.br/produtos.htm – 19k – Corantes, E.P.I. Intercap Renex Shampoo automotivo, Solução de bateria (enxofre) Solupan Soda solução (líquida) Tripolifosfato de sódio

 

  1. AGÊNCIA NACIONAL DO PETRÓLEO – ANP. Disponível: www.anp.gov.br. Acesso em 15 de setembro de 2003.

  2. QUIVY, R. E CAMPENHOUDT, L.V.. MANUAL DE INVESTIGAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS, disponível em w3.ualg.pt/~aferreir/PS_TDC/investig.pdf – Similares, acesso em 20/07/2008

 

Pereira, H.R.; humberto@uniararas.br

Levada, C. L. ; celsolevada@yahoo.com.br

Levada, M. M. O.;, miriamlevada@uniararas.br

Mussi, A.A.; amali@ net.uniararas.b

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