Encenações de “ser criança” em Manoel de Barros

Encenações de “ser criança” em Manoel de Barros

Rodrigo da Costa Araújoi

publicado em 02/12/2009

www.partes.com.br/cultura/livros/manoeldebarros.asp

 

O olho vê, a lembrança revê, a imaginação transvê.

 É preciso transver o mundo.

 [Manoel de Barros. Livro sobre nada. 1997, p.75]


“Cresci brincando no chão, entre formigas. De uma infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação. Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão […]”.

[BARROS, Manoel. Memórias Inventadas. São Paulo. Planeta. 2008. p.11]

Rodrigo da Costa Araujo é professor de Literatura da FAFIMA – Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Macaé. Mestrando em Ciência da Arte pela UFF-Universidade Federal Fluminense.
::contato com o auto

Lendo, delicadamente, o livro Exercícios de ser Criança [1999], de Manoel de Barros, verifica-se uma reflexão metatextual, explorada no percurso da palavra em sua capacidade de “dizer o indizível”, de reforçar o que caracteriza a literatura como jogo de brincar e eclodir outras significações.

Ilustrado pela família Diniz Dumont, num trabalho inovador, com desenhos bordados, realçando a força imagética das palavras, o livro, em prosa poética, enreda o leitor em duas estórias – O menino que carregava água na peneira e A menina avoada – que relacionam o fazer poético com a infância – etapa em que o conhecimento da realidade efetiva-se pelo sensível, pelo emotivo e pela intuição, com predomínio do pensamento mágico, razão por que é considerada fase decisiva, para a formação do futuro leitor, a interação com obras literárias cujas temáticas abordem questões de seus interesses e necessidades.

Na primeira história, um menino “que carregava água na peneira” dialoga com a mãe que compara essa atitude com o mesmo que “roubar um vento e sair correndo com ele para mostrar aos irmãos”, “o mesmo que catar espinhos na água”, “o mesmo que criar peixes no bolso”, em resumo, se para o narrador, “o menino era ligado em despropósito”, para a personagem/mãe cabe a constatação: “meu filho você vai ser poeta. Você vai carregar água na peneira a vida toda”. Assim, aquele menino “cismado e esquisito”, “quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos”, “gostava mais do vazio do que do cheio”, “falava que os vazios são maiores e até infinitos”, “foi capaz de modificar uma tarde botando uma chuva nela”, “até fez uma pedra dar flor!” e descobriu que escrever era tudo isso, e mais: era “fazer peraltagens com as palavras”.

Num segundo momento, e, em outra narrativa, uma menina, juntamente com o irmão, “pregava no caixote duas rodas de lata de goiabada, “a gente ia viajar”, isto é, “imitava estar viajando” de carro, “puxado por dois bois”, numa tarde em que “as cigarras derretiam … com seus cantos”, rumo à cidade porque o irmão tinha uma namorada, “isso ele contava”, mas na travessia de “um rio inventado”, “o carro afundou e os bois morreram afogados”, porém chegavam sempre “no fim do quintal”.

O autor, nessa delicada obra, combina imagens relacionadas ao pensamento mágico e, levemente transgressor, em ações situadas no âmbito do insólito, comunicando uma realidade através de comparações, desenhos e alegorias, mostrando que literatura é representação, linguagem imagística que, como nenhuma outra, tem o poder de concretizar o abstrato, criando um universo lúdico, ao mesmo tempo em que veicula elementos questionadores sobre o mundo, a memória infantil e sobre o próprio homem. Tais recursos conferem à obra unidade semântica que relembram, semioticamente, ao mundo infantil carregado de expressividade.

Impregnado de questionamentos, brincadeiras, adivinhas, imagens e outras manifestações do brincar-jogar, comuns à crianças de todos os tempos, – mas esquecidos atualmente por diversos motivos – encontramos diversas manifestações da Lírica no universo infantil. A oralidade, as ilustrações carregadas de aviões, anjos, pipas, barcos, peixes, pescaria, violão remontam ludicamente o universo da infância como signos entoados pelas próprias crianças e por seus pais. A prosa poética deve ser entendida aqui não somente como ponto de vista estético, mas, sobretudo, como função lúdica, como jogo memorialístico da infância. Nesse sentido, as palavras/imagens são tocadas como objetos, como algo corpóreo que participa do mesmo universo dos brinquedos da criança.

Esse mesmo tempo – volta à infância – acontece e está presente em diversos poemas das diferentes épocas da composição de Manoel de Barros. A infância, na poesia manoelina surge, segundo Afonso de Castro [1991], como expressão do lúdico no acontecer da vida, como origem do ser, ou ainda, como explicação da experiência da infância do poeta, especificamente, retratando tipos, situações, vivências arquetípicas recorrentes como matrizes de seus devaneios poéticos. Manoel de Barros tem poemas que retratam a infância como tempo/lugar ideal da inocência, como estado primordial a existência a partir do qual se originam todas as possibilidades; a infância considerada como fase inocente da vida seria a origem originante de todos os sonhos e idealidades da vida e do universo.

Por isso não é de se estranhar que nas relações entre homem, mundo e linguagem, a infância emerge como estado potencial de todas as invenções. Essas mesmas imagens, também, podem ser percebidas no livro Memórias Inventadas onde, o poeta, ao falar de si e de suas errâncias, não apresenta propriamente relatos de sua vida como acontecimentos reais que descrevem os fatos. “[…] eu tenho que essa visão oblíqua vem de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde havia transfusão da natureza e, comunhão com ela. Era o menino e as árvores” [BARROS, 2008, p.11]. Essas memórias de infância apresentam-se de maneira fragmentada e à deriva, sem que obedeçam a um movimento ou a limites de tempo e espaço. Apresentam-se como flashes memorialísticos, fragmentos de lembranças livres, soltos, inventados.

Sua escritura poética apresenta-se, assim, calcada no trabalho com o uso dos significantes os quais extrapolam os lugares comuns ao serem trabalhados de maneira tal que se ajustam ao texto, sempre que o poeta deseja extrair dele a essência de seu significado semântico ou metafórico. Nesse sentido, o Manoel-poeta, nesse livro, ao eleger o Pantanal como o espaço em que se constitui fazendo comunhão “[…] de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago em minhas “raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas” [BARROS, 2008, p.11].

Essa comunhão ou transfusão semiótica com a natureza, ou a relação direta com ela, então, revela o “chão da língua”, sempre estrangeiro, mesmo que nativo, mas nunca sem perder a delicadeza e a virgindade das palavras. “Penso que trago em mim uma pobreza ancestral que me eleva para as coisas rasteiras” [BARROS, 2003, p.123]ii. E é aí, nesse lugar de materialização do significante, da desconstrução da língua e da coisificação do sujeito poético que podemos escutar, na voz, os ecos de Fernando Pessoa ou Guimarães Rosa, mas também de outros “sussurros da mata”, gorjeio de pássaros, que, desse chão de letras podem irradiar.

Em Manoel de Barros temos explícita a evocação da infância como um estado de percepção da realidade pelos sentidos que, por sua vez, possibilita atravessar o universo da linguagem, da memória e do discurso infantil. Lendo-o amorosamente, como sua produção pede para ser lida, lembrando Barthes, o leitor não apenas atravessa essas indagações, mas também o debate sobre o gênero “literatura infantil”, discutindo os limites entre prosa e poesia, entre arte e educação, entre memória e infância, entre criação e lembrança.

Esses livros tornam visíveis em sua escritura o múltiplo olhar para a infância: o avesso delicado de sua poesia, a trama que urde entre linguagem e vida, a escritura leve e rápida que encena visivelmente o contato com a natureza e sentimentos da alma, as relações entre poesia e filosofia. Enfim, nesses cruzamentos de lembranças, costuram-se a memória também ilustrada, frutos de imagens criadas em retorno permanente, na multiplicidade polifônica de vozes e estilos. Ao costurá-la nas palavras e imagens, a infância remonta o fio poético tão sofisticado e simples a um só tempo do mundo e dos “exercícios de ser criança”.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BARROS, Manoel de. Exercícios de ser Criança. Bordados de Antônia Zulma et.alli. sobre desenhos de Demóstenes Vargas. Rio de Janeiro.Salamandra. 1999.


BARROS, Manoel. Livro sobre nada. Rio de Janeiro. Record. 1997.

______. Gramática Expositiva do Chão. (Poesia quase toda). Rio de Janeiro. Civilização Brasileira. 1990.

______. Ensaios Fotográficos. Rio de Janeiro. Record. 2001.

______. Memórias Inventadas. As Infâncias de Manoel de Barros. São Paulo. Editora Planeta do Brasil. 2008.

BARBOSA, Luiz Henrique. Palavras do chão. São Paulo. Annablume. 2003.

CASTRO, Afonso de. A Poética de Manoel de Barros: a linguagem e a volta à infância. Universidade de Brasília. Departamento de Literatura Brasileira. 1991.

WALDMAN, Berta. A Poesia ao rés do chão. Prefácio. In: Gramática Expositiva do Chão. (Poesia quase toda). Rio de Janeiro. Civilização Brasileira. 1990. pp.11-32.

i Professor de Literatura Infantil na FAFIMA – Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Macaé e Doutorando em Literatura Comparada pela UFF./ E-mail: rodricoara@uol.com.br


ii  Entrevista Em idioleto Manoelês Archaico, entrevista concedida a Lúcia Castello Branco e Luiz Henrique Barbosa em 19/11/1994. In: BARBOSA, Luiz Henrique. Palavra do chão. São Paulo; Annablume. Belo Horizonte. 2003. pp.123-128.


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