Anti-Nelson Rodrigues e auto-anulação: questão de modernidade

Larissa Daiane Pujol Corsino dos Santos1

publicado em 05/01/2010

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Larissa Daiane Pujol Corsino dos Santos é Professora, poeta, crítica literária

Escrita em 1973, Anti-Nelson Rodrigues contraria toda sua obra anterior. Com o intuito de testar-se a si e o seu teatro, o autor consegue anular-se nessa obra que faz a questão de ser contra o próprio autor. Segundo Flávio Aguiar (2005), Anti-Nelson Rodrigues apresenta muito do autor, embora seu desfecho seja surpreendente. Com relação aos seus personagens, a maioria se apresenta como o caricato da vertiginosa mudança social que ocorria em paralelo com a conturbada situação do golpe militar.

Nelson não deixa de revelar os caracteres mais intrínsecos e particulares do ser humano. De um lado, Oswaldinho é despreparado para a vida adulta, atordoa seu pai com cartas anônimas que revelam que sua esposa o trai. Da fase “sexuante” e de obsessão pela leviandade e vulgaridade corrupta, o amigo de Oswaldinho, Leleco desfruta do mesmo caminho, no entanto reconhecendo “a natureza das qualidades femininas”. (AGUIAR, 2005:83)

Como questão autobiográfica, o autor recupera fatos da vida anterior e realiza uma leitura das suas passagens e das experiências – no caso da peça, a consciência desse exercício com seu “eu” e sua dramaturgia, pois “ao eu vivido, portanto, se acrescenta um segundo eu, criado na experiência de escritura […]”. (Jacoby, 1997:255). O personagem Salim Simão pertence à vida real de Nelson Rodrigues, que é seu amigo. Na peça, a mania de perseguição do personagem fá-lo aproveitar esse “misto de vergonha e melancolia” (AGUIAR, 2005:84) como fato importante diante dos fatos.

Joice, filha fictícia de Simão, é dedicada ao extremo à religião e a ideologia dos bons costumes e do amor verdadeiro. Conforme Octávio Paz (1984), a modernidade consiste na auto-anulação e, diante disso, Nelson Rodrigues se espelha na criação desta personagem. Como questiona Aguiar: “Como pode ser tão pura em meio a tanta barbárie?”. Nelson Rodrigues é a forma esquizóide e fóbica dessa decisão entre a liberdade extrema e o alto moralismo, ou também, da “luta por um ideal, mesmo que individualmente concebido” (Aguiar, 2005:84). Nesse sentido, ressalta-se que:

[…] o amor extremo e dedicado guarda sempre algo de verdadeira patologia, uma “doença” da alma humana, frágil, em relação ao corpo e seus vigorosos desejos, ou então aos lados ocultos do espírito, aqueles cujos motivos são inconfessáveis para seus portadores mesmo quando sozinhos num quarto escuro. (Ibidem, 2005:84).

Entre Joice e Nelson, ou melhor, o anti-Nelson, há a vontade de reconhecer a força do amor e a sua sinceridade em meio a um perturbado desejo traçado por Oswaldinho na peça. A contrariedade do autor é representada na forma que Joice idealiza e se entrega asquerosamente a alguém “que tentou comprar-lhe” (Ibidem, 2005:84). Diga-se, desde já, que Joice completa a lacuna deixada na experimentação do autor com sua peça. Nelson constrói seu segundo “eu” ficcional na obscenidade que Joice apresenta ao rasgar o cheque e entregar-se por um amor sem custos. Joice incorpora o desespero do autor em “rasgar o cheque” da censura artística e “por amor” entrega-se à sua escrita canalha e prepotente representado por Oswaldinho, pois “para quem ama não há argumentos, não há moral, não há história, tudo é apenas momento e desejo”. (Aguiar, 2005:85)

Além da fragilidade humana, Anti-Nelson Rodrigues é uma retórica ao que se pode identificar como dual: a dupla composição do ser humano e os caminhos do bem e do mal a seguirem movem a natureza humana e artística e suas fraquezas extremas como a censura ou liberdade extrema.

Embora com esse bizarro encontro entre Nelson e o seu anti-Nelson, a peça “revela uma das fontes da matriz conservadora do seu pensamento” (Aguiar, 2005:86), pois:

Ao contrário do que apregoavam os censores do seu teatro, vendo nele obscenidades e atentados ao pudor, Nelson era um moralista severo, fascinado pela capacidade dos seres humanos de transformar nos piores pesadelos, sempre avassaladores, os seus melhores sonhos, sempre inacabados. (Ibidem, 2005:85)

Com este argumento, revela-se a ambiguidade entre a realidade e a poética de Nelson Rodrigues. A realização feliz entre o casal Oswaldinho e Joice é a comunhão entre o moralismo de Nelson e o amor pela sua escrita desvairada, própria de censuras; pois tal como na vida real, tanto o autor como o ser humano se apresentam em Anti-Nelson Rodrigues, se auto-anulando e conquistando a modernidade.

Referência Bibliográfica:

JACOBY, Sissa. O escritor e sua sombra. In: REMÉDIOS, Maria Luiza Ritzel. Literatura Confessional: autobiografia e ficcionalidade. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1997.

PAZ, Octávio. Os Filhos do Barro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

RODRIGUES, Nelson. Anti-Nelson Rodrigues. Roteiro de Flávio Aguiar. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.

1 Especialista em Literatura Brasileira – UFRGS.

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