Batom Vermelho na Maturidade

Batom Vermelho na Maturidade

Aparecida Luzia de Mello*

publicado em 04/02/2010 como www.partes.com.br/terceiraidade/batomvermelho.asp

 

Aparecida Luzia de Mello É Advogada, Mestre em Políticas Sociais

No primeiro dia de aula as alunas já conheciam o embrião do projeto que fora apresentado em alguns encontros pilotos visando desmistificar a ideia de escola para a maturidade.

Houve dificuldade para formar a turma, pois muitas se sentiam desencorajadas por terem parado de estudar muito jovens e terem aprendido somente as primeiras letras, outras porque iriam remexer o passado que já estava enterrado, afinal o primeiro módulo seria sobre memórias e outras ainda achavam que não valia a pena…. Todavia, crê-se, conforme Lima,

…que é efetivamente pela educação que vamos auxiliar o idoso a exercer a nova cidadania, fazendo-o sentir a necessidade de mudanças, de unir-se e criar espaços para tornar visível suas necessidades, suas soluções, propostas vindas do próprio idoso. (Lima, 2000, p. 48).

Mesmo com grupo reduzido, o curso teve início. Uma aluna idosa avisara que não iria aos encontros antecedentes, mas faria o curso. Era a única do grupo que tinha nível superior, adorava se arrumar, ler, fazer crochê, tricô, falar e principalmente rir. Sua chegada à aula foi um acontecimento.

Imagine uma mulher, chamada Flor, com oitenta anos, totalmente independente, mais de um metro e oitenta de altura, cabelos brancos, maquiada, brincos, anéis, colares e pulseiras, óculos com corrente, vestido estampado e BATOM VERMELHO. Provavelmente aprendeu com, ou ensinou, à Gloria Kalil, sobre moda e comportamento para os maiores de 70:

Pode tudo. Pode muita bijuteria, roupas étnicas, perfumes fortíssimos, cabelo branco, rosa, azul, estufado, cheio de laquê… Quanto mais extravagantes na aparência, mais poderosas ficam. (KALIL, 2004, p.184).

Para criar um clima propenso a trabalhar a auto-estima e promover a integração entre elas, no primeiro encontro, a professora solicitou que cada aluna escrevesse ou desenhasse no papel um defeito seu, fizesse do papel um canudinho bem enroladinho, e o colocasse cerimoniosamente dentro de uma garrafa de gargalo estreito, estrategicamente disposta sobre a mesa, no centro do salão, considerando que estariam se livrando dele naquele momento. A seguir, cada uma deveria falar sobre uma qualidade sua, que ficaria registrada no painel, com letras bem grandes, para que todas pudessem ler.

Quando chegou sua vez, ela disse que precisava dizer pelo menos três! E falou bem alto:

-: Sou BOA, BONITA E GOSTOSA!

Foi só risada. O clima ficou ótimo e a aula fluiu em alto astral.

Nas aulas que se seguiram ela sempre se mostrou muito espirituosa, seus comentários, relatos, lembranças eram recheados de sonhos. O drama sempre se transformava em vitória, o problema em solução, a dor em risadas. Percebia-se que dentro dela havia uma vida vivida e outra contada.

Acreditamos que todos os que detêm a palavra – artista, políticos, anônimos – buscam a escuta e o diálogo, e relatam a verdade possível, no tempo e no espaço presentes na narrativa – meio-verdade, meio-ficção. (BRANDÃO, 2008, p. 69).

Além de sua participação esfuziante, não perdia a oportunidade de cobrar da professora o BATOM VERMELHO, tentava convencê-la que isto daria vida ao seu rosto pálido e garantia que ela ficaria mais bonita e atraente, pois com sua pele clara, cabelos negros e lisos haveria um belo contraste.

Certa vez contou que uma de suas filhas tinha vergonha e a criticava por sua maneira de se apresentar, sempre cheia de badulaques e muito colorida. Naquele momento ficou triste, enxugou uma lágrima, sorriu e disse:

-: mas vou continuar assim até morrer!

O convívio, na escola, foi curto – um mês e meio. De repente ela perdeu a visão, percebia somente sombras e vultos, tudo muito escuro. Ao procurar ajuda médica, depois de muitos exames que não acusaram nenhum problema em suas vistas, foi detectado um aneurisma que estava localizado atrás dos olhos comprimindo o nervo ótico.  Protestos a parte, afastou-se, alegou que iria tratar-se, recuperar-se e então voltaria.

No primeiro momento acreditou que poderia… Porém logo percebeu a gravidade da doença, seu abatimento foi gigantesco, quem a via não reconhecia aquela mulher que a todos fazia rir. Estava desolada devido à cegueira, inconformada com a situação. Não aceitava viver sem a luz dos olhos que sempre lhe permitiram admirar a beleza da vida.

Queria operar, cobrava dos médicos, mas mesmo os melhores da área mostravam-se céticos e desconversavam. O risco era muito grande. Ela queria arriscar, eles não. Declarava abertamente que seu tempo aqui estava chegando ao fim, não tinha mais motivação para viver. Não queria lutar para viver cega, queira enxergar, ou morrer!

Embora tivesse se afastado do curso, participou do almoço de encerramento no mês de dezembro. Aproveitou a oportunidade e presenteou a professora com um BATOM VERMELHO.

Neste dia falou, cantou, brincou, riu, brindou, mas nas entrelinhas via-se a tristeza em seu semblante, já não acreditava naquilo que falava.

Antes do ano novo, ligou para todas amigas e amigos despedindo-se, desejando tudo de bom e informando que iria morar com uma das filhas. Sabia que não podia mais ficar só. Estava perdendo sua tão decantada independência, o que até recentemente ela abominava.

Flor marcou a vida de todas, embora em pouco tempo de convívio na escola, com suas gargalhadas, comentários, alegria, entusiasmo, ensinamentos e…. marcas de BATOM VERMELHO!

Hoje a professora, triste, olhou-se no espelho, estranhou, ficou rubra e saiu. Foi ao hospital levar flores para uma Flor que está na UTI se despedindo da vida.

Os filhos ao vê-la, dizendo que ia ao hospital, debocharam, o marido estranhou e ficou enciumado, as amigas se espantaram, e ela percebeu que Flor tinha razão – estava mais bonita e atraente, tudo porque em homenagem à Flor estava usando BATOM VERMELHO!

Obs.: Flor partiu um dia depois deste texto. Seu corpo foi sepultado enfeitado com anéis, pulseiras, colares, brincos e trazia nos lábios, um sorriso, delicadamente maquiado com BATOM VERMELHO.

BIBLIOGRAFIA:

BRANDÃO, Vera Maria Antonieta Tordino. Labirintos da memória: quem sou? São Paulo: Paulus, 2008

KALIL, Gloria. Chic[érrimo]. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.

LIMA, Mariúza Pelloso. Gerontologia educacional. São Paulo: LTr, 2000.

* Advogada, Mestre em Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor, Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o PEEM Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária da 3ª Idade e Recanto do Idoso Nosso Lar.

Email: cidamell@uol.com.br

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