Delinquencia na infância e juventude: há uma cura possível, nesta metáfora orgânica, ao bullying em salas de aula e outras manifestações de violência presentes na escola?

Maria do Socorro Ricardo

publicado em 27/02/2010

Carta aberta aos professores como uma contribuição para que todos possam refletir sobre a banalização da violência nas mais diversas manifestações dentro e fora das escolas. Como uma busca de solução.

Maria do Socorro Ricardo
escritora e pesquisadora;
escreve sobre Literatura em Santana do Ipanema: Boa Leitura!

(1) Você trabalha valores éticos com seus alunos? (2) Os seus alunos conhecem o Estatuto da Criança e do Adolescente? (3) A escola já convidou quem trabalha com ECA para tirar dúvidas? (4) Qual a sua opinião sobre a delinquência juvenil? (5) Como você trabalha a indisciplina em sala de aula? (6) Os pais dos alunos participam das decisões escolares? (7) Descreva o seu cotidiano escolar e de seus alunos. (8) Por que a violência foi banalizada? (9) Em que a Literatura contribui para minimizar a violência na escola? (10) Os professores trabalham em equipe ou agem de maneira independente? (11) Os escritores alagoanos são estudados em sua escola? (12) Quais os exemplos positivos (nomes de vultos históricos alagoanos, p. ex.) que são lembrados em sala de aula? (13) A sua escola costuma realizar apresentações teatrais? (14) O folclore alagoano faz parte de seu calendário escolar? (15) Os alunos de sua escola são estimulados a participarem com textos próprios dos portais na web existentes em Alagoas? (16) Há algum projeto em sua escola de enfrentamento a violência contra crianças e adolescentes? (17) A escola onde você trabalha realizou algum estudo sobre os direitos fundamentais normatizados no artigo quinto da Constituição Federativa do Brasil? (18) Há uma biblioteca em sua escola ou um lugar onde os livros são deixados? (19) Os vultos alagoanos estão previstos no projeto político pedagógico de sua escola para serem estudados e expostos à comunidade? (20) Em sua opinião, o que faz um ser humano, enquanto folha em branco, ir parar nas páginas policiais ao invés das crônicas esportivas, políticas, econômicas, sociais ou artísticas? (21) Você acredita em destino, karma, livre-arbítrio ou determinismo? (22) Pais (ou responsáveis) e professores são exemplos observados e, às vezes, seguidos por alunos? (23) Sua escola tem o hábito de promover exposições artísticas envolvendo os talentos escolares e as celebridades do município? (24) As escolas alagoanas, públicas e particulares, alguma vez planejaram realizar uma Feira Estadual de Cultura, no princípio ou final do ano, atraindo turistas estaduais e interestaduais? (25) Esta escola onde você trabalha, em parceria com pais (ou responsáveis), professores e alunos, já criou um blog para divulgar os eventos, as imagens, os trabalhos, as aulas, os projetos escolares? (26) Alguém em sua escola sugeriu um Festival de Cinema dentro da escola com escolha de alguns títulos em DVD ou Blu-ray disc para, ao término de cada filme, toda a comunidade escolar comentar todos os aspectos cinematográficos? (27) Um dos ícones da literatura mundial é Graciliano Ramos, nascido e criado em Alagoas, ex-prefeito de Palmeira dos Índios, fez a estrada Palmeira-Santana. É matéria obrigatória de professores e alunos de sua escola lerem “Vidas Secas”, “Angústia”, “Infância” e toda a obra do velho Graça? (28) Jorge de Lima é um dos poetas alagoanos mais importantes do Brasil. É matéria obrigatória de professores e alunos de sua escola lerem “A Invenção de Orfeu”? (29) Brenno Accioly, nascido e criado em Santana do Ipanema, é um dos mais importantes contistas brasileiros. É matéria obrigatória de professores e alunos de sua escola lerem “João Urso” e outros livros deste escritor que residia onde foi instalada uma emissora radiofônica defronte a matriz? (30) Os alunos de sua escola comemoram o Dia do Escritor, 29 de setembro, (aniversário de falecimento do criador da Academia Brasileira de Letras, Machado de Assis, um dos mais completos escritores mundiais) com uma exposição da biografia de todos os escritores de Alagoas? (31) Faz parte, no calendário escolar, onde você trabalha, prestar homenagem à História Desportista Alagoana? (32) A escola convida autoridades municipais para temáticas contemporâneas relevantes às crianças e adolescentes? (33) Houve campanha em sua escola para criar uma estante só com obras de autores alagoanos? (34) Há concurso de poesias, contos e crônicas envolvendo os alunos de sua escola? (35) Sua escola tem um grupo de teatro? (36) São realizados passeios ecológicos, estudos de casos fora da escola, envolvendo as mais diferentes disciplinas? (37) São estimulados torneios esportivos entre alunos de sua escola e de outras unidades escolares de seu município? (38) Os alunos de sua escola têm o hábito de jogarem xadrez, dama, pingue-pongue ou jogos afins durante o recreio e antes e depois das aulas? (39) A escola promove atividades lúdicas para substituir as agressões ou o bullying? (40) Seus alunos estudam sobre o reisado, bumba-meu-boi, pastoris e outras manifestações folclóricas alagoanas? (41) A violência tem solução? (42) Onde começa a violência? (43) Quais são as causas da violência? (44) Você tem como identificar os agentes violentos? (45) Em sua escola existe aula de leitura? (46) Quantos escritores visitam a sua escola por ano? (47) O que atrai os seus alunos? (48) Como fazer uma escola da paz? (49) Você pode justificar se a escola é um lugar de memória traumática ou de história a ser construída no dia-a-dia? (50) Você já leu ou conhece alguém que leu o livro “Ética na Escola”, do escritor alagoano Marcello Ricardo Almeida?

Leia este artigo publicado nas páginas da web e tire as suas próprias conclusões e as divida com as conclusões de seus alunos:

Há quem impeça, em pleno século XXI, uma biblioteca em cada município alagoano? O Sertão alagoano, de onde eu venho, continua sedento por livros, sedento também o litoral, aonde eu fui. Não se fala em cada bairro – o que seria razoável -, fala-se em cada um dos municípios. Entregue as chaves dessa casa do saber nas mãos de um grêmio literário, de uma agremiação estudantil, de um padre, de um grupo de teatro, um pastor, uma boa alma. Estimular intelectuais alagoanos a manterem ininterruptos contatos com essas sementes de livros (bibliotecas espalhadas em Alagoas. Vamos desenterrar os talentos. Fazerem os líderes políticos e religiosos acreditarem que o Paraíso é um lugar cheio de bibliotecas), oxigenando-as com ilustres visitas de alagoanos dramaturgos, poetas, contistas, ensaístas, roteiristas, cronistas, juristas, romancistas. E Alagoas passe a ter a lembrança desses intelectuais que honrariam quaisquer lugares do mundo; e que eles sejam modelos em lugar da violência e do analfabetismo.

Uma biblioteca em cada município. Nas linhas do poeta de Palmares: “As minhas Alagoas são outras”. As minhas Alagoas também são outras. Os escritores alagoanos são muitos, muitos intelectuais que honrariam quaisquer lugares do mundo; esta luz continua embaixo da mesa. Tenho insistido em minhas palestras, criação de escolas de escritores, encontros, simpósios, festivais de poesia, concursos literários e premiações para que esta luz seja levada para cima da mesa. A imagem de Alagoas não pode continuar sendo as faces da violência (a tragédia) e do analfabetismo (a comédia). Todos nós temos uma grande dívida com Alagoas. Para solvê-las, muitas caixas de livros ainda terão que ir de mãos em mãos. Uma academia de letras é uma instituição de grande responsabilidade social; a imortalidade de seus acadêmicos não representa um tácito contrato com Deus para imortalizar os intelectuais em suas cadeiras perpétuas.


O pai de Capitu, Machado, co-fundador da primeira de nossas academias de letras, quis moralizar o escritor; as academias de letras depois de Machado de Assis se justificam se concorrer para moralizar a sociedade. A imagem de Alagoas não pode continuar sendo as faces da violência (a tragédia) e do analfabetismo (a comédia). O que atrai? Cabeças de bandoleiros nas portas de igrejas em latas de querosene? O que atrai? A vampirização dos noticiários? O que atrai? Ninguém em Alagoas publica mais um livro? Ninguém mais estreia um filme, uma peça de teatro? O que atrai? Ninguém mais inaugura uma exposição? O que atrai? Por que nunca mais se festejou a construção de uma outra universidade federal? O que atrai? Não se inaugura mais um museu? Aonde anda a multiplicação do número de boas escolas públicas? Continuará utópica a democratização do saber? A imagem de Alagoas não pode continuar sendo as velhas faces da violência (a tragédia) e do analfabetismo (a comédia). Estamos no século XXI. O século da erradicação da miséria humana. Os nômades no deserto africano não acreditavam no fim da escravidão, mas a escravidão chegou ao fim até mesmo àquelas caravanas de camelos e homens antigos que ainda hoje caminham no Tenerê como fizeram seus antepassados há centenas de anos.

O livro publicado em Recife, Maceió, Aracaju consegue atravessar a ponte? Quem conhece quem, se atravessar à ponte? Não se sabe. O livro publicado em Santana do Ipanema ou em Pão de Açúcar, dificilmente será conhecido em Maceió. Se o livro nasce em Delmiro Gouveia ou em Feliz Deserto, como consegue atravessar a ponte se continua “inédito”? Como chegar o livro às mãos do povo sem bibliotecas? Quem conhece quem, se atravessar à ponte? Não se sabe. Ao menos consegue atravessar a rua? Não, ainda assim; o vizinho da frente desconhece a escritura do vizinho de porta. E a literatura de quem escreve consegue atravessar a calçada? Há quem não tenha certeza. Às vezes, a boca está cheia de um Ginsberg ou de outros intelectuais estrangeiros, ídolos de pano que nunca ouviram falar em Maceió ou em Santana do Ipanema, v.g., nem na Serra do Almeida, ou da Maravilha e do Poço onde muito se falou na existência de um cemitério de elefantes. Mas os adoradores de Caramuru salivam ao pronunciar Shakespeare, pronunciar Joyce, pronunciar Kafka, pronunciar Brecht, pronunciar Elliot, cumming, Rimbaud, Whitman; e dizem muitas partes de seus livros numa decoreba típica de quem sofre do Complexo de Caramuru. Eles elogiam Fausto, de Goethe, mas se enojam dos poetas de cordel. Será que escritores de lá têm os nomes dos escritores de cá na ponta da língua? Quantos, aqui mesmo, conhecem quantos dentro das páginas de Alagoas? Alagoas estuda a Literatura Alagoana desde o ensino fundamental ao universitário?

Quem imortaliza os acadêmicos de uma academia de letras? Seus livros indo de mãos em mãos. O Sertão alagoano continua sedento por livros, sedento o litoral. Todas essas academias de letras têm o compromisso em levar os livros de mãos em mãos. O que impede, em pleno século XXI, uma biblioteca em cada município alagoano? Qual o lugar que não faria bom proveito do legado de Graciliano Ramos? Quebrangulo. Qual o lugar que não faria bom proveito do legado de Brenno Accioly? Santana do Ipanema. Os exemplos se vão a progressões geométricas. Existem verbas municipais, estaduais e federais para a criação de museus, escolas e afins; investimentos da iniciativa privada existem. Mediante projeto, cada município, com ou sem inesquecíveis intelectuais que honrariam quaisquer lugares do mundo, vai sonhar; e, aos poucos, as duas faces (tragédia e comédia) violência/analfabetismo não mais irão amedrontar as ruas de Maceió. E cada município fará o seu caminho caminhando.

É correto afirmar que muitos livros são espécies de clarões para quem ler ou escuta falar a respeito deles. Quem planta um livro, quem acende esta luz, o primeiro a ser beneficiado é o agricultor, o primeiro a ser iluminado é quem acende a luz. Algumas crianças descobrem a existência dos livros em “A Cachoeira de Paulo Afonso”, outras em “Grande Sertão: Veredas”, ou ainda em “Vidas Secas”, ou quem sabe em “João Urso”, ou em “Infância”. Infância de cada um é cheia de surpresas e cabe, desde ontem, fazer com que essas surpresas (habitantes das bibliotecas) sejam as melhores possíveis.

Após a leitura deste “
Manifesto do Poeta Marcello Ricardo Almeida” com seus alunos sugira para que eles escrevam uma paródia sobre este artigo publicado em O Jornal, de Maceió. O trabalho de seus alunos poderá ser em forma de crônica, de conto, poesia ou de teatro. Fazer os alunos pensar é encontrar meios de combate a banalização da violência. Monteiro Lobato estava certo ao dizer que um país se faz com homens e livros.

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