Funções da Música na Capoeira Escrava

Paulo Hipólito

 

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publicado em 04/03/2010

 

Resumo:

Este trabalho pretende, na medida do possível, expor algumas das funções assumidas pela música na capoeira escrava, que foram de suma importância para a sua própria sobrevivência ao longo dos tempos. Nesse sentido, estudaremos aqui sua função “mascaradora”, “ativadora”, rítmica e “memorialista”.

Palavras-chave: Capoeira, música, identidade cultural, escravidão.

Abstract:

This paper aims, as far as possible, expose some of the functions of the music in the slave capoeira, which were critical to their survival over time. Accordingly, here we will study its function “masked”, “activator”, rhythmic and “memoirist”.

Key words: Capoeira, music, cultural identity, slavery.

Paulo Hipólito é estudante de História da Universidade Estadual da Paraíba. Estagiário do Serviço Social do Comércio (SESC), Sessão Paraíba, onde atua na função de monitor de sala de aula da Educação de Jovens e Adultos (EJA). E-mail: paulo-hipolito@hotmail.com

A capoeira, assim como todos os elementos que a integra, tem sua origem mergulhada nas incertezas, uma porque a história, as experiências e os ensinamentos da capoeira foram repassados, na maioria das vezes, por meio da tradição oral entre mestres e aprendizes ao longo dos tempos. Já os documentos escritos, em quase sua totalidade foram produzidos por instituições que aspiravam sua destruição. Todavia, o Conselheiro Ruy Barbosa, sob o cargo ministro da Fazenda do Governo Provisório, em 1889, ordenou que fosse posto fogo nos documentos referentes ao período escravista brasileiro (cf. MELLO, 1996, p.29) 1, dificultando ainda mais os estudos sobre a história da capoeira.

Ferracini e Maia (2007, p.33) pontuam que a capoeira surgiu da combinação entre escravidão, religião e dança. Os escravos, subjugados por um sistema repressivo de escravidão, necessitavam de uma “arma” para lutar contra seus adversários – senhores, feitores, capitães. É nessa condição que a dança trazida do continente africano se configura numa verdadeira arte marcial. Mas a capoeira que surgia ia muito além de um mero estilo de luta, pois a religião dos africanos cuidou de inserir-lhe valores de vida e respeito aos ancestrais. Estava formada a capoeira escrava.

Hoje, não conseguimos imaginar uma roda de capoeira sem a presença da música; a música se constituiu como um elemento indissociável da capoeira, mas não foi assim sempre. Segundo Carneiro (1977, p.19), a capoeira,

[…] tratando-se de uma forma de luta pela liberdade, não seria de esperar a presença de instrumentos musicais. Estes só apareceriam mais tarde, quando os negros passaram a exercitar-se para combates futuros. Pertence certamente a esta fase a gravura de “jogo de capoeira” de Rugendas, Viagem Pitoresca Através do Brasil, 1835, devendo-se notar, porem, que o único instrumento musical à vista é um tambor, que um negro toca com as mãos, cavalgando-o.

A datação de quando a música se incorporou à capoeira nos é fugaz, apenas especulamos que sua incorporação ao jogo se deu gradualmente, tendo como principal função mascarar sua forma agressiva. Porém, como veremos, a capoeira era uma forma de manifestação negra e toda manifestação negra no período escravista era reprimida, visto que poderia subentender liberdade para o negro, ou seja, algo perigoso para uma sociedade predominantemente escravocrata. Em Salvador, por exemplo, já no início do século XVIII, o atabaque e a marimba – instrumento de percussão, vistos como subversivos pelas autoridades – foram proibidos, numa tentativa de impedir o “ajuntamento de negros” que “manchavam” a imagem da cidade (ABREU, 2008, p.37). Acontece que em muitos casos os senhores permitiam a prática da capoeira em suas fazendas – enquanto dança, brincadeira, é claro! –, porque “viam nos batuques uma oportunidade para os escravos esquecerem-se, por alguns momentos, da sua triste condição: o prazer para esconder a dor” (ABREU, 2008, p.38).

Estamos cientes de que grande parte da história dos negros foi construída com grandes batalhas e estratégias para superar sua condição marginalizada e preservar sua cultura e identidade. Com a capoeira não foi diferente. A capoeira era tolerada em algumas ocasiões enquanto “divertimento de escravos” e não enquanto prática de luta. É nesse sentido que a música surge com a função de converter a imagem agressiva da capoeira em algo aceitável. O berimbau, por exemplo, segundo Fontoura e Guimarães (2002, p.143) e Moura (2004, p.86), que servia para dar ritmo ao treinamento da capoeira, também servia para avisar aos jogadores a aproximação do senhor ou de um feitor, ou seja, o momento de transformar a luta em dança. Em outras palavras, quando a banda avistava algum feitor, transmitia uma espécie de “código rítmico musical”, que guiava os jogadores a abrandar os golpes, a deixar a luta com aparência de brincadeira.

Não sabemos qual a primeira função assumida pela música na capoeira: para dar ritmo ou camuflá-la perante seus perseguidores, mas o fato é que ela tornou-se elemento essencial para a prática da capoeira. Numa roda de capoeira, é a música que determina o andamento do jogo; ela é a que norteia o jogador para o que deve ser feito e quando ser feito. Conforme a música vai aumentando de ritmo, os golpes vão se tornando mais velozes. A união entre ritmo musical e movimento corporal transporta os jogadores a um patamar mágico. O jogador se entrega àquele momento de “corpo e alma”.

O ritmo das músicas não têm apenas caráter decorativo, serve de força ativadora das energias dos capoeiras. Essa força está justamente no aumento progressivo e repetitivo do ritmo das cantigas, que acabam exercendo influência como hipnótica ou enfeitiçante, capaz de conduzir a um transe, estado de embriaguez semelhante ao dos camdomblés. (MARCONDES, 1998, p.155)

Mesmo se no final do século XVIII a capoeira não provesse de acompanhamento musical, torna-se nítida sua tendência para a música. A presença dos capoeiras era comum nas festas populares, nos enterros de negros e escravos e principalmente em procissões religiosas, como expressa Gilberto Freyre, em Sobrados e Muncambos: “[…] as procissões com banda de música tornaram-se o ponto de encontro dos capoeiras, curioso tipo de negro ou mulato da cidade, correspondendo ao dos capangas e cabras dos engenhos” (FREYRE, 1951, p.178-9).

A música na capoeira escrava também tem a função de preservar a memória, os fundamentos, a cultura e a identidade daqueles que compartilhavam da mesma condição degradante e marginalizada – a capoeira não se limitava apenas aos negros, escravos ou não, mas todos os que se sentissem excluídos da sociedade poderiam dela participar. Por isso é que as letras das músicas da capoeira falam dos mestres antigos, dos castigos deferidos contra os escravos, das experiências nas senzalas, das armas utilizadas nos combates, e advertem que, “Zum, zum, zum, capoeira mata um”.

Referências Bibliográficas

ABREU, Frederico José de. A repressão à capoeira. Revista Textos do Brasil [online], Ministério das Relações Exteriores, 2008, n. 14, p. 35-42, Disponível em: www.dc.mre.gov.br/imagens-e-textos/revista-textos-do-brasil/portugues/edicao-no-14-capoeira Acessado em: 02/02/2010.

CARNEIRO, Edison. Capoeira. 2. Ed. Rio de Janeiro: Cadernos de Folclore, 1977.

FERRACINI, Rosemberg; MAIA, Carlos Eduardo S. O espetáculo na praça: a roda de capoeira angola. Espaço e Cultura, jan./dez, Rio de Janeiro: UERJ, 2007, n. 22, p. 32-42.

FONTOURA, Adriana Raquel Ritter; GUIMARÃES, Adriana Coutinho de Azevedo. História da capoeira. Revista da Educação Física, Maringá-PR: UEM, 2002, vol. 13, n. 2, p. 141-150.

FREYRE, Gilberto. Sobrados e mucambos: decadência do patriarcado rural e desenvolvimento do urbano. Rio de Janeiro: José Olympio, 1951.

MARCONDES, Marcos Antônio (org.). Enciclopédia da música brasileira: erudita, folclórica e popular. 2. Ed. São Paulo: Art Editora, 1998.

MELLO, André da Silva. Esse negro é o diabo, ele é capoeira ou da motricidade brasileira. Revista Discorpo, São Paulo, 1996, n. 6, p.29-39.

MOURA, Clóvis. Dicionário da Escravidão negra no Brasil. São Paulo: Editora da USP, 2004.

 Estudante de História da Universidade Estadual da Paraíba. Estagiário do Serviço Social do Comércio (SESC), Sessão Paraíba, onde atua na função de monitor de sala de aula da Educação de Jovens e Adultos (EJA). E-mail: paulo-hipolito@hotmail.com

1 Depois que a República foi instaurada, em 1889, o país entrou em um forte processo de modernização. O então ministro da Fazenda, Ruy Barbosa, embebido nas ideias de se fazer um país moderno, mandou queimar todos os documentos referentes ao período escravista, numa pretensão de esconder a “obscura” história do Brasil que nada tinha a ver com a “nova civilização” que surgira.

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