A persistência das estruturas coloniais na recém fundada República do Perú: relatos de Flora Tristán

A persistência das estruturas coloniais na recém fundada República do Perú: relatos de Flora Tristán

Gelise Cristine Ponce Martins1

publicado em 16/04/2010
www.partes.com.br/politica/relatosdefloranttristan.asp

 

 

Gelise Cristine Ponce Martins é licenciada em História pela Universidade Estadual de Maringá, pós-graduanda em História e Humanidades, pela mesma universidade. Contato: gelise.ponce@yahoo.com.br

Resumo

A partir da leitura de Peregrinações de uma pária (1838), livro que surgiu dos diários de viajem de Flora Tristán __ símbolo do feminismo e precursora do socialismo utópico __, à recém fundada República do Perú; é possível perceber que certas estruturas do período de colonização espanhola ainda existiam. O objetivo do artigo que se segue, é situar nos relatos de Flora Tristán, as instituições, costumes e preconceitos remanescentes da era colonial.

Palavras-chave: história, literatura, Perú, século XIX.

Resumen

Con la lectura de Peregrinaciones de uma paria (1838), libro que vino de los diarios de viaje de Flora Tristán __ símbolo del feminismo y precursora del utopismo socialista __, a la recent Republica del Perú; es possible dar cuenta que unas estructuras del tiempo de colonización española todavía existían. El objetivo del artículo, es encontrar en los informes de Flora Tristán, las instituciones, las costumbres y los prejuicios de la era colonial.

Palabras-llave: historia, literatura, Perú, siglo XIX.

Flora Tristán é considerada uma das maiores figuras libertárias do século XIX e precursora do socialismo utópico. Filha de um oficial espanhol e de uma francesa, cujo casamento não foi reconhecido, acabou na miséria, após a morte do pai. Foi obrigada a se casar muito cedo e diante de uma relação malsucedida, fugiu levando uma filha pequena (KONDER, 1994).

Trabalhou em casas de família na Inglaterra, até descobrir que era parente de uma das mais influentes famílias do Perú. Viajou ao país para reivindicar a herança que nunca havia recebido de seu pai. Desta viagem, surgiu o livro Peregrinações de uma Pária (1838), com o qual, obteve grande reconhecimento intelectual (KONDER, 1994).

Flora Tristán, descreve em seu diário de viajem, o modo de organização social, político e econômico da recém formada República do Perú. Apesar de livre desde 1821, o país ainda mantinha certas estruturas do período colonial. O objetivo do presente artigo é situar no relato da autora, as instituições, costumes e preconceitos remanescentes da América Espanhola.

Nas regiões peruanas visitadas por Flora Tristán __ Arequipa e Lima __, havia grande descaso dos governantes para com a população, o que se traduz na falta de investimento em infraestrutura básica. Nos diálogos entre Flora e sua prima Carmen, nota-se que não havia preocupação com o desenvolvimento agrícola, construção de estradas ou industrialização

Durante Revolução de Lima (1834), Flora Tristán, ao visitar um hospital, constata que não havia médicos o suficiente para atender os feridos, nem irmãs de caridade que ajudassem. O trabalho era realizado por curandeiros indígenas, que pouco zelo dispensavam à tarefa. Não tinham ambulâncias para transportar os enfermos e estes eram colocados no chão sem nenhum cuidado.

¡Daba pena ver el patio de este hospital! (…) No hay una solo hermana de caridad para cuidar de los enfermos y son índios viejos los encargados de hacerlo. Esos hombres venden sus servicios y no se puede esperar e ellos ningún celo (…). Los heridos transportados al hospital eran colocados en el suelo sin ningún cuidado (…). El ejército no tenía organizados servicios de ambulância y los médicos de la ciudad eran insuficientes para este aumento de trabajo (TRISTÁN, 1838, p. 62).

O exército era desorganizado e frágil, em consequência dos baixos investimentos. Durante a guerra, Flora chegou a visitar alguns acampamentos em Arequipa. Ela descreve que a infantaria tinha um ar miserável. Os soldados dormiam em tendas tão finas e mal fechadas que não os protegiam nem da chuva!

Flora conheceu de perto a pobreza dos vilarejos de Lima. Algumas casas, mal pintadas e sujas, se assemelhavam a ruínas. Outras lembravam cabanas de uma população selvagem. Ao passo que, as moradias das altas classes sociais, ostentavam grande luxo de acentuada influencia europeia. Aliás, como toda a arquitetura da nova República. Em suas visitas a diversas igrejas e conventos Flora relata que, os interiores lembravam o estilo gótico medieval.

A Europa também servia como parâmetro tanto para a organização social e política __ afinal, os descendentes da nobreza espanhola formavam a elite governante2, __ como os costumes da sociedade. Flora alega que, até mesmo as freiras enclausuradas, estavam preocupadas com a moda francesa. Perguntavam a ela, como se vestiam em Paris, o que se comia e quais eram os tipos de música apreciados.

A Igreja Católica exercia grande influência em todas as esferas sociais. Os únicos festejos ocorridos em Arequipa deviam-se ao calendário religioso. Não existiam escolas laicas, o que demonstra outra permanência da era colonial: a falta de instrução pública. A grande maioria da população era analfabeta e segundo a prima de Flora, Carmen, nem mesmo a elite detinha um conhecimento básico da literatura universal, mal conheciam o catecismo e nem sequer o compreendiam.

… y es preciso, si quiere pintar esas bellezas, cultivar la inteligência, ejercitarse en el manejo del idioma y leer Buenos livros. Antes de que sus arequipeños hagan versos será preciso que haya escuelas en donde puedan aprender a leer, em donde pueda formarse el gusto por la lectura de Homero y Virgilio, de Racine y Byron. Entre ustedes solo las personas de la primera sociedad saben leer, y aun así, solo han leído el catecismo sin intentar siquiera compreenderlo (TRISTÁN, 1838, p.45).

Do mesmo modo, não havia um estado leigo deveras constituído, pois a separação entre Igreja e Estado não estava bem definida, uma vez que o clero ocupava cargos políticos ou interferia constantemente na administração pública. Flora cita renomados cléricos que detinham grande importância política, como o monje Valdivia.

A sociedade era patriarcal e machista, visto que as mulheres estavam submetidas ao jugo de seus maridos e sofriam diversos tipos de violência doméstica e sexual. Além de que, não lhes era garantido o direito de participação política. Carmen lamenta-se muito de sua falta de liberdade. Diz a Flora que as mulheres, devido a sua fragilidade física, eram escravas das leis e sujeitas a mil sofrimentos.

__ Pero, querida Florita, usted pretende que basta uma voluntad firme para ser libre. Y es usted, débil mujer, esclava de las leyes, de los prejuicios, sujeta a mil sufrimientos, com uma debilidad física que la hace incapaz de luchar contra el menor obstáculo (TRISTÁN, 1838, p. 11).

Contudo, de todos os aspectos coloniais subsistentes, a escravidão é a mais forte. Flora, ao visitar um engenho em Lima, constata que as condições de vida dos escravos eram deploráveis, como demonstrava a alta mortandade e a consequente necessidade de importação de novos africanos. Os filhos dos cativos não chegavam a completar 12 anos, diante do mal cuidado dispensado pelos pais. Outra forma de protesto eram os constantes abortos praticados pelas negras. Este era um dos modos encontrados pelos escravos de se sublevarem contra a dominação: não aceitavam criar seus filhos no cativeiro.

__ Pero, señorita, agrego, la imposibilidad de conseguir nuevos negros es desesperante. La falta de esclavos traerá la ruína de todos los ingenios. Perdemos muchos de ellos y las tres cuartas partes de los negritos mueren ante de llegar a los doce años (…). __ El clima es muy sano, pero las negras se hacen abortar a menudo y los padres no tienen cuidado con sus hijos (TRISTÁN, 1838, p. 81).

Em discussão com os donos do engenho, Flora Tristán mostra seu pesar em relação à persistência desta instituição, alegando ser impiedosa aos olhos de qualquer religião. E ainda defende a emancipação gradual dos escravos, para que estes se transformassem em membros úteis para a sociedade.

Portanto, as heranças coloniais subsistentes na nova sociedade resumem-se na falta de infraestrutura básica para a população (indústrias, sistema de transportes, escolas, hospitais, habitações); a inexistência de um exército organizado e eficiente; a influência europeia na arquitetura, costumes, organização social e política; a ligação entre estado e igreja; a submissão feminina; e a persistência da escravidão.

Bibliografia

KONDER, Leandro. Flora Tristán, uma vida de mulher, uma paixão socialista. Rio de Janeiro: Relume-Dumara, 1994.

TRISTÁN, Flora. Peregrinaciones de una paria. In: Utopismo socialista (1830-1893). Disponível em: http://www.bibliotecayacucho.gob.ve/fba/index.php?id=97&no_cache=
1&download=Utopismo_socialista.pdf&catalogUid=26&filetype=ayaDigit
. Data de acesso: 10/03/2010.

 

1Licenciada em História e pós-graduanda em História e Humanidades, pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Contato: gelise.ponce@yahoo.com.br

2 O maior exemplo é o tio de Flora, Dom Pío Tristán y Moscoso, que ocupou altos cargos políticos. De prefeito de Arequipa chegou a ser presidente da República do Perú.

Como citar este artigo:

PONCE, Gelise. A persistência das estruturas coloniais na recém fundada República do Perú: relatos de Flora Tristán Revista P@rtes (São Paulo). V.00. P.eletrônica. Abril de 2010. Disponível em <>

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