Ilustração também se lê

Rodrigo da Costa Araujoi

publicado em 16/04/2010

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“A leitura é sempre o esforço conjugado de compreender e de incorporar”

(SCHOLES, Robert. Protocolos de Leitura. Edições 70, 1991, p.25)

Rodrigo da Costa Araujo é professor de Literatura da FAFIMA – Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Macaé. Mestrando em Ciência da Arte pela UFF-Universidade Federal Fluminense.
::contato com o auto

A epígrafe acima, pode, caso reescrita, – (“A ilustração é sempre um esforço conjugado de compreender e de incorporar”) – ser um resumo para o livro Pelos Jardins Boboli – Reflexões sobre a arte de ilustrar livros para crianças e jovens (2008), de Rui Oliveira. Mas, ao lermos o livro à luz do seu título, este transforma-se num texto mais rico e proveitoso, com extremo sabor estético, e também enigmático. Afinal, caminhar pelos Jardins Boboli, é observar cada detalhe, ter a força visual e a delicadeza dos signos escondidos.

À semelhança de Umberto Eco em Seis passeios pelos bosques da ficção (1994), também o título de Rui de Oliveira projeta no imaginário pistas semiológicas e textuais. Metalinguisticamente, como sinais e encaminhamentos, Os Jardins de Boboli é um espaço do Palácio Pitti, em Florença, e, como certo convite ao olhar, caracteriza-se pela grande beleza e por uma semiótica contemplativa ao caminhar por sua arquitetura exuberante. Esse gesto, na opinião do autor, é um convite à contemplação, uma recreação para o espírito.

Com essa força do olhar, extremamente diferente de Umberto Eco, em Seis Passeios, Rui de Oliveira divide a contemplação em cinco partes ou capítulos. Nessa metáfora dos Jardins Boboli, as reflexões sobre a ilustração passam a ser vista como leituras e registros visuais do imaginário da pós-modernidade, que se apresentam sob a forma de uma decifração ou superposição de códigos. Essas “reflexões sobre a arte de ilustrar livros para crianças e jovens” – subtítulo explicativo – do livro de Rui – são encaminhamentos luminosos do livro infantil contemporâneo que se desdobram, tentaculares e fragmentários, na multiplicidade de leituras que procuram lhe dar forma.

A primeira parte do livro expõe aspectos gerais da imagem, – a ilustração, com seus códigos e sintaxes próprios configura-se aí como lugar de inscrição e rasura de signos cuja ilegibilidade seduz e desafia o olhar de Rui, congestionado pelas sub-narrativas ou pelas mágicas e truques das variadas leituras desse mundo.

Das tensões entre o texto e o ilustrador alternam-se reflexões fundamentais: “São muitos os olhares que podemos ter diante de uma ilustração. Nenhuma ilustração possui uma leitura absoluta do texto, muito menos o leitor da imagem. A leitura será sempre parcial, segmentada e particularizada. Vemos aquilo que esperamos ver”. (2008, p 32).

Em outros momentos, traçando diferenças fundamentais entre ilustração e pintura, o ensaísta chama a atenção afirmando, atentamente, que a ilustração possui sua própria história. O ilustrador utiliza, em seu trabalho intertextual, o mesmo instrumental técnico e até o mesmo suporte do pintor – aquarela, acrílica, guache, tela. Esses aspectos configuracionais se assemelham a uma pintura, mas existem diferenças fundamentais entre uma e outra.

Enquanto a ilustração sempre narra uma história, e vincula-se semioticamente a temporalidade dos fatos, aos momentos mais significativos, a pintura apresenta-se, aos olhos do espectador, como narrativa ou não. A ilustração é sempre uma representação figurativa, a pintura, por sua vez, assume aspectos variáveis. Ambas possuem diferentes funções quanto às suas características estéticas, embora a pintura seja reproduzida em livros de arte e a sua apreciação integral se verifica por meio da contemplação da obra original em museus ou galerias. Diferentemente da pintura, a ilustração é reproduzida em livros de forma múltipla.

“Passeando” por esse (campo) minado que o ensaísta-ilustrador tem diante de si, o ilustrador-esteta sabe pelas suas próprias palavras que “o virtuosismo da imagem e a interpretação do ilustrador não podem ser mais importantes que a obra. Apesar de vivermos em uma época em que as releituras são sinônimos de originalidade e pessoalidade. Frequentemente nos detemos e apreciamos a leitura, e não no texto original”. (2008, p. 33). Lê-la é então entregar-se a um jogo aberto, ao equilíbrio entre a “imaginação verbal e a imaginação visual”, é fazer reverberar no espaço do livro as conotações dos Jardins de Boboli: perplexidade, surpresa, atenção, encantamento, beleza, assombros no percurso do olhar. Interessa mais perseguir os rastros perdidos das experiências, as mensagens ilegíveis do texto, as metáforas e ambiguidades invisíveis sob o texto do que aprisionar seus signos na armadura do sentido único da decifração.

Daí a opção do ensaio pela descontinuidade e fragmentação da escrita (reflexões) em detrimento de um percurso retilíneo e compacto, como se mimetizasse alguns princípios da ilustração – a lógica de um saber que se constitui pela metamorfose incessante, pela demolição das assertivas dogmáticas, pela implosão do olhar único. A margem do ensaio, feito verbetes explicativos e ilustrados, é palco desse saber que fragmenta a ilustração para descortinar as várias leituras que a imagem contém, os signos que esconde em seus subterrâneos, as inúmeras histórias ou discursos que ainda pode contar /ver.

Na segunda parte do livro, Pelos Jardins Boboli, é um passeio pela história da arte, centrado no significante, na forma, em exemplos recorrentes ao mundo do Renascimento e do Maneirismo. A ilustração, ainda, mistura-se, segundo o ensaísta, a sintaxe cinematográfica e a outras linguagens artísticas, como a música, a literatura, a ópera e o teatro. Como em A Biblioteca de Babel, de Jorge Luis Borges as ilustrações para Rui Oliveira, é o centro alcançado do labirinto, a rede simbólica que o eu à deriva atravessa e que elege simultaneamente como lugar teórico e “texto” privilegiado da experiência – objeto de paixão.

A quarta e quinta partes falam, respectivamente, do saber da ilustração, da paixão de ilustrar, da tarefa metateórica a que se propõe o livro: “reflexões sobre a arte de ilustrar.” O movimento mais fascinante e original do texto de Rui estão nesses capítulos que resumem o confronto do ensaísta com a arte de ilustrar (que é sua) e dela mesma enquanto imagem. A ilustração é recuperação da memória visual através do ensaio que a maneira intertextual traça momentos de experiência e de pesquisa. Novamente, confirma-se o que já foi dito em outros capítulos: “Ilustrar é a arte de sugerir narrativas” (p. 114) ou “ilustrar é aludir” à música, à pintura, à literatura, ao teatro e à ópera […] não unicamente para decifrar frios enigmas, ou esotéricas esfinges, muito menos para comparar formas distintas de arte. Essas abrangentes referências compõem um mosaico no qual a ilustração é uma pedra e ao mesmo tempo, todas as outras pedras. Essas linguagens citadas nos possibilitam uma interpretação mais flexível do ato de ver a ilustração; e ver é pensar”. (p.120).

Pelos Jardins Boboli – Reflexões sobre a arte de ilustrar livros para crianças e jovens é, em muitos sentidos, mais do que um livro teórico, um livro de fundação. Por meio de uma leitura intertextual e uma nova sintaxe da imagem, projeta formas multidisciplinares sobre a circulação dos discursos da imagem e suas mediações, dando visibilidade incomum, do diálogo entre o texto literário e a ilustração. A “vigília do olhar’’, então, desenhada com a mão e olho do mestre repercute, para leitores de imagens (ou vários leitores) em resposta que se abrem para outras indagações.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ECO, Umberto. Seis passeios pelos bosques da ficção. São Paulo. Companhia das Letras, 1994.

OLIVEIRA, Rui. Pelos Jardins Boboli: reflexões sobre a arte de ilustrar livros para crianças e jovens. Rio de Janeiro. Nova Fronteira, 2008.

SCHOLES, Robert. Protocolos de Leitura. Lisboa: Edições 70, 1991.

Como citar este artigo:

ARAUJO, Rodrigo da Costa. Ilustração também se lê. Revista Partes. Cultura. Abril de 2010. Disponível em: <>
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