A produção do Nada: Um Negócio de Família

Miriam  Dias[1];   Lutiane de Lara[2]

publicado em 04/05/2010 como www.partes.com.br/reflexao/aproducaodonada.asp

RESUMO
Reflexão realizada a partir do estágio profissionalizante em psicologia do trabalho e das organizações, sob a ótica da Análise Institucional e utilizando a revisão bibliográfica como dispositivo para a compreensão acerca de uma instituição de ensino superior. Instituição essa montada e gerenciada por uma família, neste contexto, e percebendo as dificuldades em propor intervenções efetivas na organização, é que se funda a discussão sobre a ‘não produção’, frustrações e reações sobre a presença do psicólogo dentro da instituição. 

PALAVRAS-CHAVE: Família, Religião, Psicanálise, Culpa, Empresa Familiar, Instituição.

Abstract
Reflection held from period of training in psychology of work and organizations, from the perspective of institutional analysis and using literature as a device to the understanding of an institution of higher education. Institution that set up and managed by a family in this context and noting the difficulties in offering effective interventions in the organization, is that the discussion is based on ‘non-production’, frustrations and questions about the presence of a psychologist within the institution.

KEYWORDS: Family, Religion, Psychoanalysis, Guilt, Family Business, Institution.

 

 

 

INTRODUÇÃO

Este artigo refere-se às atividades desenvolvidas no estágio profissionalizante de Psicologia do trabalho e das organizações II, em uma Instituição Superior de Ensino a Distância inicialmente realizei uma observação institucional.

Percebendo todas as movimentações existentes, tais como: as relações existentes entre tutores, funcionários, acadêmicos e seu funcionamento como em um todo. Portanto, este artigo trata das análises que construí a partir da perspectiva da análise institucional e fazendo um estudo sócio-histórico que visa contextualizar a instituição dentro dos princípios de Engels, Roudinesco, Bleger, Baremblitt, entre outros autores.

Dentro da percepção de Baremblitt da análise institucional, podemos perceber este movimento de coletivos sociais, entendendo o local em questão, como organização, observando-o como um lugar de conhecimento específico, formada por experts, pois os tutores tiveram uma condição privilegiada de se graduarem em outras instituições de ensino superior, o que transmite maior confiabilidade, em falar das temáticas especificas, aos acadêmicos.  Esses profissionais, pela forma como a sociedade se organiza, estão frequentemente a serviço de grupos, empresas ou instituições que podem pagar pelo seu trabalho. (Baremblitt,1996)

Bem como as demandas do corpo acadêmico são inexistentes ou ignorados, ou se limitam às necessidades que os tutores julgam interessantes para o desempenho acadêmico, tal como a utilização de material bibliográfico, dentro desta dinâmica os acadêmicos, tornam-se restritos aos equipamentos existentes no estabelecimento. O interessante a ser observado é que existe uma relação ‘as avessas’ quem acaba por legitimar a função do ‘expert’ são os próprios acadêmicos, por se portarem como seres instituídos, que se mantém estagnados e conservadores a tudo que lhe foi ensinado e os tutores  tentam ser instituintes, pois, lhes é cobrado que orientem os acadêmicos, afinal,eles estão pagando pelo que lhes é ensinado, logo, é obrigação dos tutores essa busca contínua por tudo que há de novo no mundo científico e repassá-los com uma interpretação aos acadêmicos.

Sob a ótica ‘baremblitiana’, a instituição, seria uma organização, pois é a materialização das instituições sob a forma de um organismo, uma entidade, assumindo uma configuração mais complexa.

“São grandes ou pequenos conjuntos de formas materiais que põem em efetividade, que concretizam as opções que as instituições distribuem, que as instituições enunciam. Isto é, as instituições não teriam vida, não teriam realidade  social se não fosse através das organizações. Mas as organizações não teriam sentido, não teriam objetivos, não teriam direção se não estivessem informadas como estão, pelas instituições” (BAREMBLITT: 1996, p.30).

Uma organização ainda sem estabelecimento próprio, pois onde atualmente funciona é em um reduzido espaço físico locado, junto à escola adventista, enquanto não é finalizada sua infraestrutura, que brevemente abrigará a organização.

O objetivo da Análise Institucional é verificar em cada instituição, cada organização, uma forma de intervir buscando entender como se dão esses movimentos considerados importantes dentro deste funcionamento social. Podendo identificar os atravessamentos dispostos buscando entender como está funcionando este processo educacional e analisar esta ‘transmissão do saber’, assim como a formação destes novos profissionais, que estão sendo inseridos no mercado de trabalho.

A FAMÍLIA

Pelo fato de que os ‘administradores’ do local em questão estão vinculados ao estabelecimento, de forma mais particular do que empresarial, buscou-se entender a família e suas conexões com a economia, religiosidade, valores adquiridos, grupos e relações familiares ali estabelecidas, configurando a análise institucional referente a uma empresa familiar. Para entendermos o tema em questão, devemos rememorar o conceito de família, que pode ter vários sentidos e as mais singulares interpretações.

Muito já se foi dito, no senso comum, sobre família, afirmações como: família é a união de laços sanguíneos, de amizade e amor ou família é a união de pessoas de diversas idades, gostos, preferências, opiniões, defeitos e predicados. Família é para nos apoiar quando necessitamos e assim por diante, vejamos agora os conceitos difundidos no ambiente acadêmico. (Wikipédia, 2009).

A família é unidade básica da sociedade formada por indivíduos com ancestrais em comum ou ligados por laços afetivos. Dentro de uma família existe sempre algum grau de parentesco. Membros de uma família costumam compartilhar do mesmo sobrenome, herdado dos ascendentes diretos. A família é unida por múltiplos laços capazes de manter os membros moralmente, materialmente e reciprocamente durante uma vida e durante as gerações.(Wikipédia,2009)

A família surge como primeira instituição socioeducativa, socializadora, incutindo valor moral, que vai inserir ou excluir, alienar ou instruir o sujeito na construção de sua identidade quanto a posições autônomas, a fim de  mostrar as possibilidades sobre o novo mundo de diversidades (culturais, étnicas, religiosas) emergentes. Não menos importante a família irá oportunizar ao indivíduo a democratização e sugerir fundamentos ideológicos e referências coletivas, na constituição de subjetividade do sujeito. (Araújo,2009)

Para Foucault (1985) a estrutura familiar promove a eclosão da sexualidade e manifestação dos sentimentos e afetos. À família estabelece uma estrutura permanente para a sexualidade em formação, ou seja, é na estrutura familiar que começamos a nos desenvolver subjetivamente.

É na família que se constrói a individualidade e o sentimento de pertença a um espaço, a um grupo. Quando Foucault vincula família e sexualidade ele fala da importância da família como quem modula e organiza os modos de os sujeitos lidarem com seus corpos, sua sexualidade e, portanto, diz respeitos aos modos de subjetivação, nesse sentido a família é uma das principais instituições que governa as pessoas.

Percebendo, a família como uma infraestrutura geradora de renda, podemos entender as ligações entre a propriedade privada herdada. É onde os laços de confiança e de lealdade se unem em um sistema de troca de favores, as pessoas ligadas por laços criados pela filiação (pais/filhos, matrimônio), ou seja, tende a preservar sua ‘herança’(instituição) de forma a perpetuar seu nome, permitindo que somente os herdeiros e seus cônjuges tenham participação e atuação sobre esta propriedade, reproduzindo questões particulares tais como os preceitos religiosos, convicções, relações de favores e trocas de alianças.

Neste sentido, a relação da instituição e a família, tomam uma significação importante no momento em que as convicções religiosas familiares (em especial) de união e perpetuação (dos laços geracionais) se fundem a uma instituição religiosa de ensino, o que tende a reafirmar a função da religião no cotidiano dos sujeitos, submetendo o funcionamento laboral e institucional aos desmandes da igreja. Manifestando a necessidade de enquadramento e repressão dos desejos a fim de caracterizar a tradição moral e a visão de laços afetivos sólidos, vendendo a imagem de que a família hierárquica deve ser apreciada como referência.

Cabe salientar, que mesmo sendo uma organização de nível superior, ainda há uma reprodução de valores, presente no cotidiano da equipe diretiva, que acaba por contaminar o ambiente acadêmico e laboral.

Existe um enraizamento de preceitos e uma difusão ideológica contraditória em função de que, ao mesmo tempo no qual é proposto um espaço para a desconstrução do tradicional e a composição de outras formas de pensar, existe no comando uma família disposta hierarquicamente gerenciando e selecionando o que é certo e o que é errado, e este posicionamento afeta diretamente o grupo que ali circula, gerando uma questão de conservadorismo e repreendendo o que não é usual, não vendo com bons olhos a diversidade, deixando as claras que ali é a extensão de sua casa, portanto quem está ali deve se adequar. Não era incomum a circulação de membros familiares de tutores e funcionários, bem como conversas informais sobre casamento, planejamento familiar, relações matrimoniais (discussões sobre o relacionamento), questões sexuais (orientação sexual), comentários maldosos, preconceitos frente à diversidade (cultura, idade cronológica, ideologia, política), livre circulação de animais de estimação, relacionamento pais/filhos (funcionário /filho adolescente) suas dificuldades, seus atravessamentos e é claro que orientação religiosa correta a ser seguida (como forma de inclusão), tudo isso dentro do ambiente laboral.

A FAMÍLIA, A IGREJA E A PSICANÁLISE.

Se na sociedade em geral, vivia-se a falência do poder paterno, Freud vem propor uma teoria do psiquismo humano na qual o assassinato do pai – realizado ou fantasiado, desejado – terá decisiva importância, pois, para a psicanálise freudiana, a concepção da família é, portanto, fundada na culpa pelo assassinato do pai pelo filho, na rivalidade deste em relação ao pai, no questionamento da onipotência patriarcal e na emancipação das mulheres da opressão paterna.

“Devido aos avanços tecno-científicos, os próprios costumes, provocaram uma inovação no conceito de família. Já que a família tradicional/patriarcal imutável já foi recomposta por pares homossexuais que passaram a pleitear a adoção ou mesmo a paternidade ou maternidade, usando os novos recursos que prescindem da prática natural do coito entre homem e mulher. A decadência do patriarcado causou na Europa um grande temor do feminino, antevia-se uma emasculação e uma feminização da sociedade. Produziu-se uma ideologia que satanizava a mulher, vista como fonte do caos e da destruição social”.(Roudinesco,2003)

A família cristã e moralmente correta é aquela que segue os preceitos cristãos hierarquizados, buscando sempre na igreja a remissão dos pecados, e é na igreja que a família se funde e se une, tudo o que é visto como imoral muitas vezes interpretado como diferente, é desprezado, pela comunidade cristã bem como pela família. Para o cristão não se admite formas de controle de natalidade e abstinência sexual, tampouco outras formas de concepção, nem outros tipos de família para além da tradicional.

Para Steffen[3](s/d), um dos autores do livro de leitura obrigatória dentro da disciplina de Cultura Religiosa, os visionários religiosos que originaram a instituição mantém vivos os princípios de união e familiaridade. O cristianismo entende que a família formada pelo casamento é entre um homem e uma mulher. Também é preciso buscar a compreensão de que nem todos são cristãos e as pessoas agem movidas por razões diferentes. Sendo obrigação dos pais incentivarem os filhos as atividades escolares bem como a valorização dos professores que são os detentores do saber, e a preservação da moral e da religiosidade no cotidiano, seguindo esses preceitos é possível ter cristãos a serviço da construção do reino de Deus e cidadãos livres e altruístas.

Buscando compreender Freud (1913), ele elucida a igreja influenciando a família ao promover a remissão dos pecados humanos através do perdão e fazendo com que os sujeitos sintam-se culpados por possuírem desejos, em suma, sexuais em relação ao outro, criando a ilusão consoladora de uma salvação através do arrependimento e a fé na Sagrada Família: (Deus-pai, Igreja –Mãe-, Irmandade Religiosa – filho). Assim, para Freud, a origem da religião seria a mesma que a origem da moralidade e da civilização:  o sentimento de culpa pela morte do pai primitivo.

Na opinião de Freud, (1913), a religião surge do sentimento filial de culpa (o parricídio), como apaziguador deste sentimento, logo a religião surge para ressaltar o‘Triunfo do Pai – remorso’, Deus é introduzido como pai que puni e recompensa, sem direito a recriminação.

A família freudiana adota como sua base à culpa e a lei moral fundamentam o desejo entre condições conflitantes da autoridade, rebeldia, universal, diferença, crime, castigo (Roudinesco, 2003).

Um aspecto em comum, entre a psicanálise e a doutrina luterana é o debate sobre o sentimento de culpa e sua conexão com a família.

Na igreja a culpa surge como uma forma de gratidão para com Deus em razão da ‘proclamação da salvação ’para com a humanidade oprimida, esta salvação não tem preço, pois o cristão não ‘deve’ nada em função do grande sacrifício dispensado por Deus que entregou seu único filho Jesus Cristo, concebido sem o pecado sexual para salvar os justos e injustos.

É Deus mesmo quem paga, Deus mesmo pagou o preço de uma vez por todas, o preço mais caro que ele poderia pagar: a sua própria morte, em Jesus Cristo, na cruz. A obliteração (destruição/ eliminação) de nossa culpa é livre para nós por que Deus pagou o preço. Jesus Cristo veio ‘para salvar o que estava perdido’ (MT 18:11)

A libertação total ou remorso é praticamente inexistente a partir do momento em que se segue o principal preceito, Amar a Deus sobre todas as coisas independentemente de seu credo religioso.(Freud,1913)

Sob a perspectiva de que falamos sobre três instituições: família, religião e ambiente laboral, em âmbitos diferentes, que são atravessados pela primeira instituição, de forma excessiva, pois, há legitimação da conexão de ambas, visto pelo fato de ser uma empresa de ensino superior guiada por uma doutrina religiosa ‘dirigida’ por professores (de filiação e formação tradicional), com ênfase na formação de docentes que zelam por princípios (re) afirmados dentro do ambiente acadêmico, limitando o olhar sobre o diferente, e pensando, a longo prazo, na colaboração instituir um padrão de certo e errado,reprimindo desejos, incentivando a tradição de uma família nuclear, excluindo e culpabilizando o futuro aluno, por não estar padronizado e criando na religião a saída para a resolução das conflitivas.

Conhecendo um pouco, dos diferentes conceitos de família, fazendo um pequeno debate sobre a questão da culpa e sua ligação com a família e entendo que a família humana se reinventa permanentemente, mantendo-se desde os inícios dos tempos, como uma instituição insubstituível para nossa própria constituição de sujeitos humanos.

Utilizei o viés psicanalítico em função de que os escritos de Freud, se fundam na origem da família, bem como a moral religiosa e sua doutrina de remissão dos males e pecados, aliviando a culpa de desejos, ações e sentimentos inconscientes. A ligação que fiz com a organização se deu pelo fato de ser uma instituição familiar, com relações hierárquicas familiares, que envolve uma moral e doutrina religiosa, primando pela educação (não é em vão que a equipe diretiva é constituída por professores) e pela constituição familiar tradicional onde os costumes, crenças e religiosidade são evidenciados e primados a todo o momento.

A FAMÍLIA E AS INTERAÇÕES

Entendendo que a família, originou-se firmada em um conceito religioso, passando por diferentes interpretações e adaptações, a partir da experiência dentro do estágio de psicologia do trabalho, foi realizada uma leitura acerca dos circuitos de interação social do estabelecimento de ensino superior, levando em consideração o fluxo de pessoas que lá circulavam.

O núcleo familiar tende sempre a se preservar, optando muitas vezes por se manter excluído ou ‘alheio’ ao que acontece em seus arredores se portando com certa intolerância ao que a ameaça sua estabilidade, repelindo tudo que lhe ofereça mudanças. Neste momento remeto ao fato de que os problemas que se passam na organização, de forma geral são solucionados pela secretária, sendo que muitas vezes a equipe diretiva se retira do recinto para que ela se posicione sobre tal assunto.

Mas e o que manteria o núcleo familiar no poder? Para além da questão da perpetuação dos laços geracionais e patrimoniais, a preservação do poder econômico, monitoramento de potenciais humanos que auxiliam no crescimento do capital, poupando custos e reaproveitando funcionários.

A interação familiar se dá constantemente, demarcando seu território e promovendo a hegemonia e perpetuação do poder exercido pelos seus. A construção da nova estrutura ficará próxima à casa da família que ali futuramente trabalhará. Esta questão se torna interessante, podemos compreender a necessidade da família em legitimar a demarcação territorial, não menos importante tornar este estabelecimento um motivo para um passeio familiar em um domingo, momento no qual se reúne a prole para discutir o funcionamento e futuras instalações das salas da direção.

De posse dessas análises percebe-se esta família como provida de funções como, conservação de bens (herança), a descendência e a proteção da honra (Araújo, 2009), este modelo idealizado de família, detentora do poder e valores ainda dominantes, é o que assegura a hegemonia, a partir daí transforma seus bens em fonte de renda.

 Em seu território a família constrói realidades formas e maneiras de se organizar e se posicionar no mundo, sendo assim, tudo que não rompa e não questione a homeostase familiar é amistosamente recebido e colocado em um lugar onde não haja possibilidades de intervenção ou movimentação deste meio estático e imutável.

Neste sentido, as interações que a família estabelece deve manter a homeostase, sendo (re) significada, mesmo numa instituição repressora e interventora, como a família. Tende a se reproduzir alguns comportamentos a fim de garantir a hegemonia e a continuidade dos costumes familiares, e a partir daí os afetos bons ou ruins dela provindos se produzem. Neste momento o princípio de atuação é captado por alguém da família que ao pressentir possíveis agentes externos faz com que esta interação seja cortada pela raiz.

Nesse sentido, a família é um organismo que seleciona e qualificam as experiências do indivíduo, dando-lhe condições para vivência individual e social, por intermédio de noções fundamentais como procriação, cuidado com a saúde, criação e aperfeiçoamento de pautas sociais e culturais.

EMPRESA FAMILIAR

            Em um primeiro momento o comercio primitivo se alia às relações familiares existentes, sendo que a renda circulava entre os membros da família.

A família foi mudando de feições, suas regras de constituição foram se alterando, surgindo novas modalidades de vida em sociedade que, acrescidas de uma série de outros fatores, criando outras necessidades para além das que o grupo familiar pode suprir, dando origem a uma nascente indústria, a um sistema de compra e venda sistema que viria a ser a atividade comercial. (Engels,1995)

A mulher se converte na primeira criada e foi afastada da participação na produção social. Só na atualidade é que a grande indústria lhe abriu oportunidades. Mas isso fez com que a mulher que trabalha fora tenha uma rotina dupla de trabalho ou opte, pelos deveres com sua família ou se dedique ao seu trabalho integralmente. Da mesma forma que na fábrica, acontece o mesmo com a mulher em todos os ramos de atividade. Relacionando a empresa, seria a comunidade regida pela suprema administração do dono da casa (domacin),aqui ligada a figura da Diretora Geral da instituição, , que a representa diante do mundo exterior, tem o direito de alienar objetos de menor valor,administra as finanças, é responsável por elas, assim como pelo bom andamento dos negócios. É eleito e, para isso, não precisa ser o mais idoso. As mulheres e o seu trabalho estão sob a direção da dona da casa (domaica) que costuma ser a mulher do domacin. O chefe da família, ou no caso da instituição, presta contas a essa assembleia e é ela que toma as resoluções decisivas, ministra a justiça entre todos os membros da comunidade, decide sobre as compras e vendas mais importantes, sobretudo aquelas referentes a terras, etc.

A comunidade familiar patriarcal adquire agora, com a posse em comum da terra e seu cultivo também em comum, um significado totalmente diferente do anterior, pois agora começam a cuidar e a investir em seu patrimônio, que lhes será entregue por direito.

Com o poder patriarcal os filhos, dentro de um estágio de transição, ou seja, são os filhos quem irão partilhar e cultivar as terras, ao ofício, os bens e de certa forma dará continuidade a linhagem. Torna-se uma questão de proteger a honra da família, através das possibilidades de aumentar a lucratividade do capital que fora investido inicialmente e também na expansão e reconhecimento da empresa.

 

A PRODUÇÃO DO NADA NA INSTITUIÇÃO

Através da revisão bibliográfica, e conversas informais, pude visualizar que ocorreram mudanças físicas, em função da finalização da parte física do novo polo regional do empreendimento, logo se iniciou toda uma (re) estruturação e otimização do espaço físico, a fim de que todos estejam “treinados” para como deverá funcionar, a nova modalidade de melhorar as praticas laborais e funcionais dentro da instituição em questão.

Dentre as observações cabe salientar, algo não comentado durante a primeira etapa do estagio profissionalizante, em todos os cursos do polo acadêmico é obrigatório que os estudantes tenham o componente curricular de Cultura Religiosa, desde que se tenha bem claro que a religião sempre está ligada à família. E família sempre trabalha em negócios seculares. E porque não a educação?

No que tange a instituição e a interação com alguns funcionários, notei certa tolerância por parte da equipe diretiva em relação a algumas pessoas, em especial as pertencentes às famílias de tutores, acadêmicos. Inclusive em relação a minha presença, já que era “conhecida” da equipe, propiciou de certa forma dar “seguimento”. O mesmo não aconteceu com os outros acadêmicos que fizeram estágio de psicologia escolar, não faziam parte do ‘círculo de familiar’ ali estabelecido, sendo assim não tiveram o mesmo êxito no sentido de permanecer com suas propostas.

A respeito da intervenção do psicólogo dentro da instituição, em especial, a do referido estágio, experimentei a questão da não valorização, pois sempre que algo era pontuado ou assinalado acerca de pertinências do ambiente laboral, sempre recebia a resposta, “ah, mas isso, nem precisava, um psicólogo falar” (cic).

“Este lugar do psicólogo-analista é, portanto, aquele que se reveste da condição de assimilar, pontuar e interpretar as defesas às fantasias e as ideologias dos grupos. Somente em condições privilegiadas o profissional psicólogo poderá fazer Psicologia Institucional. Isto porque raras são as vezes que se contrata um psicólogo como assessor ou consultor. Via de regra ele é um técnico empregado da organização” (Bleger,1984)

Ou seja, nunca conseguiria ter êxito em qualquer atividade proposta já que a relação de poder existia, talvez não na configuração necessária, pois pelo fato de estar “familiarizada” com o contexto, logo nunca fui ‘vista’ como uma simples técnica, incapaz de propor qualquer mudança. (Guirado apud Lapassade,1977). Para Bleger(1986) o que inviabiliza a intervenção institucional é a questão do quão integrado o psicólogo pode estar, ou seja, ele exerce qualquer outra função que não a de psicólogo institucional, por isso o psicólogo institucional , é geralmente alguém de fora da instituição, um consultor.

Segundo Guirado o psicólogo deve contar sempre com a presença de resistência (explicita ou implícita), ainda que da parte daqueles que manifestamente o aceitam. Estes conflitos de que o psicólogo é depositário não deveriam ser considerados índices de patologia porque se apresentam como novo, o desconhecido, ou melhor, representam a ocasião de alteração das estereotipias nas relações institucionais.

O adoecimento da instituição não está em ter conflitos e sim em não problematizá-los, o psicólogo surge como um auxiliar na produção de insights dentro do local em questão, pois é necessária a mobilização. Pensando neste aspecto, vejo que minha tentativa frustrada de propor algum trabalho a fim de mobilizar, funcionários, equipe diretiva e tutores caiu por terra no momento em que não foi explicitada mesmo que precariamente um pedido se quer de intervenção, pois dentro deste enquadre percebe-se que os “ataques” e “boicotes” eram eminentes.

Em uma perspectiva mais primitiva, questiono, quem gostaria que um vizinho adentrasse sua casa e começasse a propor modificações na rotina familiar? Num primeiro, momento o dono da casa seria delicado e até ouviria as sugestões sem muito apreço, tampouco lhe passou pela cabeça de fato alterar seu ambiente que talvez até lhe remeta a questões pessoais. Em um segundo momento, o dono da casa será um tanto mais enérgico sendo indiferente, as sugestões do vizinho que aponta para as ranhuras existentes nas relações estabelecidas ali.

 O que o dono da casa, de certo modo propõe ao vizinho é contemplar que mesmo não valorizando estas pontuações realizadas pelo vizinho, as relações se mantém se estabelecem de formas diferenciadas propiciando transformações,criações e subjetivações das mais variadas formas.

Sendo assim a comunicação entre os funcionários se dava, por mais que não conseguissem ter acesso, existia uma via de escoamento de angústia, as conversas intervalares, ou seja, quando nenhuns dos chefes estavam presentes. E através destas conversas ditas informais coletei dados formais suficientes para sinalizar que o grupo constituído mesmo que esporadicamente produzia tanto ou mais diferentes formas de resistência à instituição. Outro ponto, que senti também foi não ter montando em conjunto com eles um grupo para conversar questões referentes à questão do trabalho e dos trabalhadores. No entanto escrevendo este artigo, começo a me perguntar, mas e quem disse que eu não participava de um grupo, de certa forma organizado já que tinha horário para encontro (horário do intervalo dos superiores), tinham assuntos e temáticas pré – definidos e eu pontuava levemente, a única diferença é que não havia exatidão no tempo dispensado às “trocas de ideias”. Porque não consegui pensar em um grupo diferenciado, um grupo sincrético? Porque é mais bonito pensar um grupo com funcionários devidamente dispensados para aqueles minutos e devidamente sentados, esperando eu iniciar a dinâmica?

E parando pra (re) pensar, quem disse que uma empresa necessita desta articulação entre um grupo diferenciado e um grupo organizado, porque não consegui ver a empresa, como um grupo só? E porque os funcionários deveriam se mobilizar e falar o que não lhes agrada? Será que desta forma não quebraria a homeostase da organização. Talvez seja este não falar, que sustenta mesmo que frágil a relação entre chefes – funcionários?

O que este não falar mantinha e o que o mal estar causado por coisas não ditas potencializou?  Lembrando-me da funcionária da limpeza, quando a questionei em relação ao não falar, “…a gente engole muito sapo, né J.? às vezes é melhor não falar, sabe como é… tenho filhas e o emprego não ta fácil…às vezes é melhor ficar quieta” (cic)

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Ressalto nesta finalização do artigo a angústia da ‘não produção’ concreta, ou seja, é sofrida a idealização de um trabalho efetivo munido de resultados efetivos. Mas que de certa forma ignoramos muitas vezes as pequenas modificações que a simples presença do psicólogo e da avaliação institucional bem como um estudo sócio histórico contextualizado de acordo com a realidade da instituição em foco.

Despertando o interesse em outros autores, que em alguns momentos no esquecemos de utilizar e nos despertam curiosidades sobre teorias e contextualizações há muito “esquecidas”.

 O sentimento de impotência frente à não realização de trabalhos significativos ou mesmo palpáveis dentro do local de estágio, tornou-se constante transparecendo a fragilidade do saber operacional e da necessidade de movimento, a partir daí criou-se à produção do nada.

            Mesmo o nada é uma produção, tem corpo, face, instiga, no faz pensar a seu respeito, pois é uma existência, possui uma essência, há um envolvimento teorizado, é construção, problematização, é um processo de subjetivação, pois há afetamentos, atravessamentos, questionamentos e nem tantas respostas.

            Dentro das produções do nada, uma foi deliberadamente salientada, a produção de conhecimento e os aspectos reflexivos dele provindos.

 

REFERENCIAL TEÓRICO

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BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada, Mateus 18:11. 34 ed. São Paulo: Paulinas, 1976.

 

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[1] Acadêmica do curso de Psicologia da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões, Campus Santiago. msusane86@hotmail.com

[2] Professora do curso de Psicologia da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões, Campus Santiago, Mestre em Psicologia Social.

[3] Ronaldo Steffen, um dos autores que auxiliou na elaboração do livro de Cultura Religiosa, instrumento de leitura obrigatória em quaisquer graduações oferecidas na comunidade acadêmica.

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