A arte de perdoar

Nair Lúcia de Britto

publicado em 06/05/2010

 

Foto: Rosali Martins
Nair Lúcia de Britto nasceu em Joanópolis (SP). Passou toda minha infância em Santos(SP), o que talvez explique minha paixão pelo mar…
Formada em Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, em 1977, em São Paulo (SP.) Seu primeiro emprego foi na revisão da Folha de São Paulo. Posteriormente Editora Nova Cultural, preparando textos de livros e revistas.
Escreveu vários textos infantis, publicados na Folhinha de S. Paulo; comentários de livros e filmes para a revista “Contigo”; e crônicas, publicadas na Folha da Tarde (SP) na coluna do jornalista Mário de Morais.
Em São Vicente (SP) foi repórter e cronista do jornal “Primeira Cidade”. Além de prosas, escreve também comentários de filmes de arte; publicados, atualmente, na revista virtual Partes.

Digo que perdoar é uma arte porque perdoar não é nada fácil! Não é fácil esquecer a mágoa causada por alguém, principalmente quando a pessoa não merecia ser magoada. Não é fácil vencer o primeiro impulso que temos de revidar a ofensa, devolver o ultraje… Mas, em vez disso, guardar silêncio. É preciso muita coragem, muita força de vontade, muita pureza de coração e uma crença inabalável na justiça divina. Por isso, repito, perdoar é uma arte… Arte que, pelo menos até os dias atuais, são muito poucos aqueles que têm a sabedoria e a magnitude de saber perdoar.

A primeira reflexão sobre esse tema é fazer um rigoroso exame de consciência para perguntar a si próprio se existe alguém perfeito; alguém capaz de nunca cometer um erro. Claro que não! Em algum momento da vida, qualquer um de nós e falível. E os erros mais graves são aqueles impulsionados pelo ódio, pelo desejo de vingança, pelo ciúme, pela inveja, pelo orgulho… ou seja, por todos esses sentimentos negativos dos quais ninguém, em sã consciência, pode se orgulhar de nutrir.

Bem aventurados aqueles que são misericordiosos, porque eles próprios obterão misericórdia (S. Mateus). Ou seja, se nós perdoarmos as falhas que alguém cometeu contra nós, Deus também perdoará nossas falhas. Se alguém nos magoou, o mais correto é dirigir-se diretamente à pessoa em questão, perguntar-lhe o porquê da ofensa e resolver a questão em particular. Se quem magoou se explicar e quem foi magoado entender seus motivos, de um diálogo pacífico e sincero poderá ocorrer a reconciliação, que será benéfica para ambos. Se a boa vontade de quem foi ofendido for inútil, o problema é do ofensor. O importante é não entrar nessa sintonia negativa que só traz prejuízos físicos e emocionais.

Como se proteger? Através do perdão. Isso não significa, porém, ter que oferecer a sua amizade e o seu abraço ao inimigo. Mas apenas afastar-se e ignorá-lo, sem devolver-lhe nem o rancor nem a ofensa.

E quantas vezes tenho que perdoar meu irmão? Sete vezes?, perguntou São Pedro a Jesus; que por sua vez lhe respondeu: Sete vezes, não; mas sim setenta vezes sete. 

Geralmente, julga-se que morrendo o inimigo, o perigo também morre. Essa ideia só ocorre principalmente na mente daqueles que não acreditam que a alma é imortal. A verdade é que o inimigo continua existindo, só que num outro plano. Também é ilusão pensar que quem morre fica, de repente, bom. Uma pessoa ruim, continua ruim e, se o ódio persistir nela, vai continuar perseguindo aqueles a quem odeia. A única forma de se proteger dessa perseguição é através do perdão, da misericórdia e da oração; pedindo a Deus proteção para si e luz para o espírito que insiste em permanecer nas trevas.

Outra grande ilusão de alguns fiéis a Deus é julgar que sacrifícios físicos, tais como subir uma escadaria de joelhos, seria uma forma de agradar a Deus. Deus não quer o sofrimento físico de ninguém. Qual é o pai que gostaria que seu filho se machucasse por amor a ele? Nenhum!

O sacrifício físico quando é inútil não tem valor algum, pelo contrário. Por exemplo, uma pessoa que passa a noite em claro para cuidar de outra, que está enferma; esse, sim, é um sacrifício válido, mas quando não traz nenhum benefício, é inútil.

Ama a teu próximo como a ti mesmo quer dizer não causar nenhum mal aos outros; muito menos a você mesmo.

O sacrifício que mais agrada ao Pai é que seus filhos se perdoem mutuamente as falhas cometidas, que se arrependam dos seus erros e que se cuidem para não repeti-los… Reconciliem-se e vivam em Paz tanto na Terra como no Céu.

Não julgueis, a fim de que não sejais julgados. Aquele que estiver sem pecado que atire a primeira pedra. (KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. X)

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