Leite Compensado

Aparecida Luzia de Mello*

publicado em 02/06/2010 como www.partes.com.br/terceiraidade/leitecompensado.asp

Marido ébrio, jogador inveterado, sem trabalho, vivia de bicos para garantir uns trocados e investir em seus deslizes costumeiros. Sem compromisso com a responsabilidade familiar, vida desregrada, em meio a tantos exageros, não demorou muito tempo e o resultado nefasto chegou – um AVC1 deixando-o paralisado na cama.

Com o marido acamado durante anos e o filho pequeno para criar, às vezes ficava desesperada, via-se com todos os encargos de uma casa sobre suas costas. Aluguel, água, luz, supermercado, remédios, livros, roupas.. Assim a máquina de costura funcionava, todos os dias, até de madrugada. Dia após dia, hora após hora. Nunca era tempo de parar.

Costureira de mão cheia, como ela própria se intitula, na época era chamada de modista, atendia gente da alta sociedade. Contudo o dinheiro nunca era suficiente para dar conta de tudo.

Certo dia quando saia para ir ao supermercado fazer a compra básica do mês, o filho lhe disse:

-: mãe compra uma lata de “leite compensado”..

A mãe ficou a pensar o que seria aquilo? Não precisou pensar muito, logo entendeu, mas sabia que o dinheiro mal daria para as despesas do mês, e, portanto, não sobraria para comprar o luxo que o filho estava lhe pedindo.

Voltou de “mãos vazias”, o filho ficou frustrado. Ela prometeu para o próximo mês. Mas outra vez não houve recurso suficiente para atender ao pedido do filho. O tempo foi passando e de mês em mês nada de comprar o “leite compensado”.

O filho já não pedia, mas mais de uma vez ela percebeu, ao sair de casa, os olhos cumpridos dele como se quisessem dizer:

-: mãe não esquece o meu “leite compensado”.

Aquele dia foi fazer a costumeira compra básica, munida de uma grande bolsa e no corredor de doces lembrou-se do olhar do filho. Sentiu-se tentada a deixar “cair” uma lata de leite condensado e num piscar de olhos, quando se deu conta, já tinha “derrubado” a lata na bolsa.

De imediato suas pernas começaram a tremer. A boca ficou seca e a respiração ofegante. As mãos não tinham mais forças para continuar a pegar outros produtos nas prateleiras. Tudo lhe pesada demais. Parecia que sua consciência estava em cada produto. Rapidamente encerrou as compras que mal havia começado e foi para o caixa. A fila durou uma eternidade. Pensou que ia desmaiar.

Quando chegou sua vez, a atendente percebendo sua agitação, solícita perguntou-lhe se estava tudo bem? Ela acreditou que tinha sido pega!

Gaguejou, mas não conseguiu falar, empalideceu! Alguém sugeriu que era uma possível queda de pressão e a jovem prestativa imediatamente lhe ofereceu um copo d’água e uma cadeira. Suas mãos tremiam, mal conseguiu beber a água, não quis sentar-se e finalmente com a voz sôfrega só conseguiu dizer que estava atrasada…

Quando saiu do supermercado ainda suava frio. O crime estava feito, mas o preço a ser pago estava sendo alto demais.

Ao chegar a casa, o filho de olhos brilhantes aguardava em silêncio. Quando viu a latinha branca de letras azuis com o desenho da MOÇA deu um pulo e se pendurou no pescoço da mãe, gritando várias vezes:

-: Mãe obrigada, obrigada, obrigada, por comprar o meu “leite compensado”. Eu te amo!!

Naquele dia ele se lambuzou. Dormiu “mamando” na lata.

Havia no coração da mãe um misto de alegria e tristeza, ela não saberia dizer o que falava mais alto!

Ele nunca soube da verdade, nem de seu sofrimento.

O tempo passou, ela conseguiu educá-lo com primor, pagou seus estudos à base da máquina de costura. Hoje ele é alto executivo da área econômica, trabalha num grande banco do país e recompensa seus sacrifícios dando-lhe uma vida de conforto e prazer.

Depois de tantos anos, ela se emocionou ao contar a história, para “o grupo de memórias”, e revelou a promessa que fez para compensar o pequeno/grande delito cometido: Assim que a vida melhorou, ela começou a distribuir latinhas de “leite compensado”. Já perdeu a conta, crê que chegou a centenas.

Até hoje quando vai fazer compras, ao chegar à gôndola do supermercado e ver as latinhas brancas de letras azuis empilhadas, sua mão treme, sua boca fica seca e seu coração dispara. Neste momento ela ouve, no fundo da sua alma, uma voz interior que lhe diz:

-: filha você já está perdoada. Mas, por via das dúvidas, aproveite e doe mais uma latinha de “leite compensado”!

Obs.: “o grupo de memórias” faz parte da escola informal Ponto de Encontro & Estudo da Maturidade.

* Advogada, Mestre em Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor, Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o PEEM Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária da 3ª Idade e Recanto do Idoso Nosso Lar.

Email: cidamell@uol.com.br

1 Acidente vascular cerebral – vulgo derrame

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