O funcionamento do poetar e os “desencontros” entre o verdadeiro e o real

Larissa Daiane Pujol Corsino dos Santos1

publicado em 03/06/2010 como www.partes.com.br/cultura/poetar.asp

 


Larissa Daiane Pujol Corsino dos Santos é Professora, poeta, crítica literária

Antoine Compagnon e Hugo Friedrich compartilham a ideia de que a poesia não deve significar, mas ser. Através da obscuridade ela se resguarda do mundo externo para que o seu interior se pronuncie livre do tumulto e da vida terrena. A poesia coloca o leitor em contato com o que se pode identificar como eterno, de dom espiritual, e acima de toda a realidade concreta.

Segundo Friedrich, a poesia se apresenta com a linguagem de sofrimento que gira em torno de si. O enfoque para o “eu” incompreendido é um ato de orgulho que se manifesta com pretensão à superioridade. Ao recorrer da anormalidade, a poesia se torna uma defesa contra a vida habitual. Ela busca aplicar termos comuns da lírica, como a metáfora e a comparação, de maneira que force a união irreal daquilo que logicamente é inconciliável. Através da anormalidade, o poeta encontra a não-conciliação entre o “eu” e o mundo, ou conforme Diderot, a consciência da inaptidão social e a grandeza espiritual a quem é permitido “lançar-se aos extremos”.

A imagem poética é inseparável da visão profética, de modo que é impossível traçar a fronteira entre a poesia e a prosa. No entanto, ao contrário desta, a lírica não pretende ser medida em base conivente com a realidade. Sua função não é a de tratar seus conteúdos descritivamente, mas é a de torná-los estranhos e deformados, evitando a intimidade comunicativa.

Cada poema visa à tradução da realidade decifrada, ou seja, ela volta a cifrar tudo o que já é desvendado e reconhecido no universo. Segundo Friedrich, a lírica é uma criação autossuficiente que, com obscuridade, se torna pluriforme de significação e entrelaçada de tensões, as quais se deslocam conforme as manifestações dos mistérios e dos conceitos.

A fantasia ditatorial nutre o estilo da poesia moderna. Ela veda aos conteúdos o direito a uma coerência para inseri-los numa dramaticidade insolucionável dentro da lírica. Na poesia, o homem tornou-se ditador de si mesmo. Ele aniquila sua naturalidade para exilar-se do mundo e satisfazer-se com a liberdade da sua escrita. De acordo com Friedrich, a obscuridade é um princípio estético dominante que impõe à linguagem a tarefa paradoxal de expressar e encobrir um significado. O futuro para a lírica moderna não tem imagem nítida, pois a obscuridade está ao redor de possibilidades não fixáveis.

Observa-se no poema que a imaginação adquire um espaço amplo na linguagem. De acordo com Octávio Paz, é uma maneira para que a natureza se olhe e se comunique consigo e conosco através do olhar do poeta. Segundo Immanuel Kant, a imaginação é um poder da alma humana que serve à priori para todo um conhecimento e, conforme Samuel Coleridge, para transformar as ideias em símbolos e os símbolos em presença.

O objetivo do poetar é a de chegar ao desconhecido do universo e de si mesmo. O “eu” atuante no poema se emerge deixando que a lírica se lance às novas experiências, as quais não são proporcionadas pela realidade, mas sim por sua própria verdade. Por exemplo, os opostos se anulam na execução da poesia, tornando-se digressões de estímulos e dinâmicas de contraste: do feio, o poeta desperta um novo encanto e, através do grotesco, ele alivia o leitor da beleza monótona.

Seu afastamento, cada vez mais decidido, da vida natural é um traço fundamental na poesia moderna. Com o crescente orgulho pelo isolamento, a lírica se baseia na fantasia para decompor o real. O poeta retalha o universo, recolhe e articula as partes resultantes para criar um mundo novo, com palavras ricas e matizes e sem limites à intimidade estendida ao inconsciente. Logo, ao que diz respeito à função do poeta, este decide deformar o real e fazer reinar a força do espírito, resultando o seu produto mais elevado que o decomposto. Sua palavra poética é uma mediação entre o sagrado e os homens, a comunicação através do ritmo, a sinceridade da imaginação, a verdade do acontecimento. Sua leitura é um hoje que se sucede em qualquer instante e um aqui que está em qualquer parte.

Referências Bibliográficas:

COLERIDGE, Samuel Taylor. Biographia Literaria. Princeton: Princeton University Press, 1983.

COMPAGNON, Antoine. O Demônio da Teoria. Belo Horizonte: Ed. da UFMG, 2003.

FRIEDRICH, Hugo. Estrutura da Lírica Moderna. São Paulo: Duas Cidades, 1991.

KANT, Immanuel. Critique de la faculté de juger. Paris: Aubier, 1995.

PAZ, Octávio. Os Filhos do Barro. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1984.

1 Poeta. Especialista em Literatura Brasileira.

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