Molho Holandês

 

Aparecida Luzia de Mello*

publicado em 01/07/2010 como www.partes.com.br/

Aparecida Luzia de Mello É Advogada, Mestre em Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor, Psicogerontologia e Memórias.

A vida era muito apertada. Um casal, três filhos e uma idosa cega. Moradia, comida, roupa, escola, remédios, era coisa demais para o dinheiro que entrava no final do mês.

O pai trabalhava de sol a sol e quando chegava, cansado, ainda cuidava da plantação que cultivava no quintal imenso, da casa alugada, para complementar as refeições. Abençoado quintal que garantia a subsistência da família e ainda ajudava alguns vizinhos na mesma situação.

A mãe por sua vez cuidava da casa, dos filhos, da sogra e ainda lavava e passava roupa para fora, cerzia e ocasionalmente fazia faxina para algumas famílias.

Tudo isto não era suficiente.

De manhã, só dava para comprar, na caderneta1, meio litro de leite, que era fervido com café para render mais, embora as crianças preferissem o achocolatado, e meio filão de pão dividido milimetricamente entre os filhos e a avó. O pai saia de madrugada apenas com café preto bebido. A mãe tomava um pouco do leite com café sem pão.

O almoço era sempre a sobra da janta, entenda-se: arroz, feijão e “mato” do quintal, porque a mistura especial era somente no jantar. Comida fresquinha só à noite. O arroz e feijão estavam garantidos, mas a chamada mistura era de lascar. Como era a atração principal da mesa, exigia manobras daquela mulher..

“a mulher, em seu desempenho como boa dona de casa, faz com que apesar de pouco, o dinheiro dê. Isso implica controlar o pouco dinheiro recebido pelos que trabalham na família, priorizando os gastos (com alimentação em primeiro lugar) e driblando as despesas. Na prioridade da alimentação entre outros gastos, os que trabalham devem comer mais do que os outros adultos, e os homens, trabalhadores/provedores, comem mais que as mulheres. (SARTI, 2005, p. 61).

Às vezes era meia salsicha para cada um, exceção ao chefe de família que comia uma inteira; ou um quarto de ovo para os filhos e a sogra e um ovo inteiro para o pai, a mãe para justificar o arroz a feijão puro em seu prato, dizia que ovo lhe fazia mal. Outras vezes servia batata frita, para o pai, sempre uma porção maior, ou milho refogado extraído das espigas colhidas no quintal, mantendo sempre a proporção maior para o chefe da família.

A salada do quintal quase sempre estava presente, carne só nos dias de festas como natal e páscoa, quando havia dinheiro para comprar.

Mas um dia, no jantar, não tinha nada para servir de mistura, nem mato do quintal. Quando o pai chegou, a mãe olhou com desconforto e ele logo percebeu que algo não estava bem.

Ao questioná-la, a reposta foi que aquele jantar seria somente arroz e feijão. As crianças já com olhos compridos para o jantar esperavam ansiosas pela refeição. Ele condoído, pensou, pensou, olhando para a dispensa quase vazia e enxergou uma nova receita que se tornaria segredo de família. Chamou os filhos e disse:

-: hoje teremos uma mistura especial, molho holandês2!

Os olhos das crianças brilharam. As bocas já salivavam. Ele então falou:

-: prestem atenção à receita, porque é um segredo de família.

Pegou uma cebola descascou e picou bem picadinho; descascou alguns dentes de alho e fatiou fininho; espremeu alguns limões; misturou tudo e colocou numa tigela, temperou com sal; pimenta do reino e completou com água.

Com uma concha, colocou um pouco em cada xícara e sugeriu que a cada garfada de arroz e feijão bebessem um pouco de molho holandês.

Foi um sucesso. A mãe aliviada agradecia a Deus a criatividade do pai e a partir daí incluiu mais uma mistura ao magro cardápio da família.

No outro dia, na escola, os filhos orgulhosos falavam aos coleguinhas que o pai, no dia anterior, havia feito, no jantar, uma receita que era “segredo de família”, que era uma delícia, mas por ser segredo, não podiam contar!

Hoje, com o pai já falecido, quando se reúnem, às vezes, fazem o molho holandês só para matar a saudade de um tempo tão difícil, que se Deus quiser jamais voltará!

Bibliografia:

SARTI, Cintyia Andersen. A Família como espelho. Um estudo sobre a moral dos pobres. São Paulo: Cortez, 2003.

* Advogada, Mestre em Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor, Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o PEEM Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária da 3ª Idade e Recanto do Idoso Nosso Lar.

Email: cidamell@uol.com.br 

1 Modalidade usada no passado, onde o dono do armazém registrava as compras feitas pelo freguês num caderno pequeno – daí o nome caderneta – realizadas durante o mês para serem saldadas no dia do pagamento do salário.

2 Não se sabe de onde o pai tirou a inspiração, pois o molho holandês – receita tradicional da Holanda nada tem com o que ele preparou. Supõe-se que usou sua criatividade para despertar curiosidade nas crianças e interesse em provar a mistura que era um “segredo de família” internacional.

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