Acampamentos e assentamentos: um olhar sobre a nossa sociedade

José Reinaldo Felipe Martins Filho1

publicado em 02/09/2010

www.partes.com.br/politica/acampamentos.asp

Roteiro: Com licença, por favor; Para início de Conversa; Nossa experiência concreta; Hierarquização de dados; Um olhar crítico sobre a realidade; Finalmente.

José Reinaldo Felipe Martins Filho Graduado em filosofia pelo Instituto de Filosofia e Teologia Santa Cruz – Associação Sedes Sapientiae. Membro do Grupo de estudos VIVA VOX: Grupo de pesquisas em filosofia clássica e contemporânea – Universidade Federal do Sergipe. Membro adjunto da SBF – Sociedade Brasileira de Fenomenologia. Atua com pesquisas em filosofia, com ênfase em filosofia contemporânea: filosofia da existência, alteridade e intersubjetividade, ética, ontologia e metafísica. É músico e pesquisador sobre a relação entre mùsica e religião e música e filosofia. Possui competências em línguas clássicas – grego e latim – e contemporâneas. Também escreve reflexões no âmbito interdiciplinar, pondo em confronto e relação ciências como a política, a educação, a religião e a psicologia. Possui especial dedicação à fenomenologia, sobretudo nos seus expoentes Edmund Husserl, Martin Heidegger, Emmanuel Lévinas e Jean Luc Marion.

Resumo: A proposta do presente texto é apresentar o fruto da experiência missionária junto aos Assentados e Acampados do município de Caiapônia, oeste do estado de Goiás, no período de 17 a 27 de janeiro de 2010. Longe de possuir a estrutura e linguagem de um texto formal científico, trata-se de uma abordagem dialética, na qual são apontadas observações e posicionamentos, com o intuito de colaborar na construção de uma imagem pessoal daquilo que representa o movimento em prol da Reforma Agrária nos dias atuais. É o fruto de experiência e práxis junto às famílias, não o conjunto de orientações teóricas e validamente assumidas pelo meio científico e acadêmico.

Com licença, por favor

Com licença, por favor, mas falar em Reforma Agrária, nos dias atuais, é sinônimo de grande polêmica. Variadas são as posições tomadas por grande parte da população brasileira. Concordantes e discordantes. Contrários e simpatizantes. Vale destacar que o que, na maioria das vezes, é mal visto por um grande número de brasileiros é também a causa de esmero por parte de inúmeros pesquisadores oriundos das mais diversas partes do mundo. Diante disso, não seria o desinteresse de muitos efeito colateral da ausência de um apurado conhecimento da situação? Afinal, em que consiste tal movimento?

Com essa finalidade, eis que apresento o presente ensaio, fruto de uma rica experiência missionária que, não obstante, possibilitou as ferramentas necessárias para o desenvolvimento de uma pesquisa que objetiva compreender qual a real situação dos movimentos em prol da Reforma Agrária em nosso país, donde se poderá descobrir quais são os seus autênticos limites, necessidades e vitórias. Uma coisa é certa: trata-se de uma realidade complexa e muito mais próxima de nós do que muitas vezes pensamos. Ora, talvez ainda sejam necessárias muitas alocuções em prol de colocar às claras quais são as verdadeiras necessidades de tal movimentação. O caminho é longo e árduo e muitos são os obstáculos que podem advir. Não bastam discursos que não passem de meras elucubrações jogadas ao vento, do mesmo modo em que não será qualquer iniciativa concreta a garantia de salvação da pátria. Trata-se de uma ação que surja como fruto de uma eficaz contemplação. A isso nos propomos: contemplar a realidade que se apresenta, não com os olhos da crítica gratuita e excludente, nem mesmo que se preste a uma atitude ingênua e simplória, afinal não é vã a frase que nos impele: “Sede puros como as pombas e astutos como as raposas.” Na gratuidade da convivência, fazendo-se um no meio deles, torna-se possível a eficiente ação pastoral, única forma capaz de libertar e construir um Novo Reino; novos Céus e nova Terra.

Como lócus de nossa observação estiveram três comunidades, todas localizadas nas dependências do município de Caiapônia, estado de Goiás. São elas: a comunidade do Assentamento Conquista, a comunidade do Assentamento El Dourado dos Carajás e a comunidade do Acampamento Padre Ilgo Schneider. Nelas vivemos um período de dez dias, nos quais priorizamos a visita às famílias e os encontros específicos, com casais, jovens e crianças. O texto que segue, além de procurar apresentar, de maneira geral, em que consiste o movimento em favor da Reforma Agrária no Brasil, intenciona representar o fruto colhido após tão profícua convivência.

Para início de Conversa

Para início de Conversa, o que são os Acampamentos e em que se distinguem dos Assentamentos? Em primeiro lugar, um acampamento é formado por um grupo de pessoas, vinculadas ou não a movimentos sindicais, que possuem entre si um mesmo interesse: a obtenção de uma parcela de terra para sua própria subsistência familiar. Para tal, devem apresentar um ofício registrado em cartório no qual apontem a possível terra a ser desapropriada, absorvida pela Reforma Agrária e distribuída aos acampados, alegando a inutilidade ou improdutividade da mesma2. Para exercer maior pressão junto às autoridades e colaborar para o mais rápido fluxo do processo o grupo constituído reúne-se em um acampamento, podendo ou não se instalar na própria terra que disputa. Uma vez instalados como Acampamento instituem uma coordenação, composta por um presidente, um vice, dentre outras funções. Tal coordenação da associação terá o papel de intermediar as relações entre o seu acampamento e as outras instituições, tais como os sindicatos e o próprio Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – Incra. A partir daí dá-se o momento da petição das parcelas. Todo o processo ocorre junto ao Incra, a quem cabe emitir o parecer considerando ou não a improdutividade da terra almejada. Uma vez considerada improdutiva a terra se torna disponível para a Reforma Agrária, podendo ser distribuída em forma de parcelas a todos os produtores do acampamento. Ocupantes de suas parcelas os trabalhadores que, a princípio, eram denominados por acampados tomam o nome de assentados – donde surge o termo assentamento.

Em segundo lugar, vale lembrar que todo esse processo, mesmo que já conduzido pelo Incra, deve passar, de igual modo, pela Câmara dos Deputados de cada estado. Para se ter uma ideia, dos 41 deputados que compõem a Câmara dos Deputados do estado de Goiás, apenas 1, a saber o deputado Mauro Rubens, é favorável ao movimento de Reforma Agrária. Os restantes 40 outros deputados compõem o que se denomina por “bancada ruralista”, contrária ao movimento. É interessante notar que dos deputados da bancada ruralista muitos são os próprios proprietários de terras improdutivas ou administradores de terras devolutas. Isso dificulta em muito o avanço de todo o processo. De modo similar, não se trata de uma livre desapropriação em favor da distribuição fracionada da terra aos acampados, o fazendeiro sempre recebe o valor pelo qual sua terra é avaliada. Diante disso, pode-se dizer que, em outras palavras, o fazendeiro sempre ganha. Não são incomuns os casos de proprietários de terras e grandes latifundiários que contratam grupos de manifestantes a fim de simular uma tomada de suas terras por parte do movimento em favor da Reforma Agrária; agindo assim conseguem receber valores exorbitantes da União, tomando lucro sobre a venda de suas terras e estabelecendo todo um universo de corrupção e faucatrua, o que em muito descredibiliza a ação dos verdadeiros necessitados.

Por conseguinte, não é desordenado o trabalho dos agentes do Incra na seleção das famílias que serão beneficiadas com a terra. Quem não possui um histórico de vínculos com a terra, descendência de trabalhadores rurais ou tradição nesse modo de vida, não é apto a receber os benefícios da reforma. Do mesmo modo, os funcionários públicos ou proprietários de imóveis e empreendimentos jurídicos, aposentados e pensionistas do INSS, pessoas com ficha criminal e outros tipos de impedimento legal são excluídos da possibilidade de obtenção desse benefício. Lançando o olhar sobre a realidade que nos circunda, não são raros os casos de indivíduos que fogem ao padrão de exigências impostas e, não obstante, tomam parte nos acampamentos com vista de receberem, também para si, uma parcela de terra. Muitas vezes a vaga do verdadeiro necessitado é usurpada pelo “falso sem terra”, o que garante o aumento na concentração de renda e no desequilíbrio sustentável do país. Muito na mão de poucos e muitos de mãos vazias.

Uma vez estabelecidos na parcela devem criar o que denominam por PDA – Plano de Desenvolvimento do Assentamento -, visando uma maior estrutura em prol das famílias assentadas, bem como uma digna aplicação dos recursos recebidos: construção de rodas d’água, pontes, distribuição elétrica, cisternas, cacimbas, bueiros, “eixões” – que são as vias de acesso às extremidades do assentamento -, dentre outras diversas necessidades. Somente após um prazo de vinte anos o até então administrador da parcela recebe o título definitivo de proprietário da mesma, podendo vendê-la ou transferi-la licitamente a outrem.

Nossa Experiência Concreta

Iniciamos nossa experiência concreta no dia 18 de janeiro de 2010 com uma introdução à realidade com a qual iríamos nos deparar. Falou-nos o senhor Vitorino, de 57 anos, membro da Comissão Diocesana de Pastoral da Terra e agente ativo na luta junto aos trabalhadores de toda a abrangência do município de Caiapônia e região. Segundo ele, em toda a Diocese de São Luis de Montes Belos, que compreende um total de 36 municípios, ao oeste do estado de Goiás, existem aproximadamente 50 comunidades de assentados, dentre os quais destacamos os Assentamentos e os Projetos de Assentamento. Nesses, a diversidade é um fator imprescindível e que salta à nossa vista, seja ela manifesta nas mais variadas formas: religiosa, cultural, econômica, ideológica… Nesse sentido, a missão da CPT – Comissão de Pastoral da Terra – é intermediar as relações entre as pessoas e as instituições, gerando maior eficiência nos processos de transição e negociação nos quais essas se envolvem.

A princípio, vale destacar que nossa atividade junto àquele povo se constituía prioritariamente como um projeto missionário. Todavia, a ação missionária junto ao povo não dispensa ou anula o olhar atento e vigilante do pesquisador. Ao contrário, trata-se do que se denominaria por uma bela “dobradinha”, a saber: dois modos distintos de intencionalidade unidos em favor de um mesmo objeto.

Como campo para nosso trabalho estavam dois Assentamentos e um Acampamento, diferentes entre si e expressivos em suas particularidades. Em primeiro lugar, o Assentamento Conquista, a aproximadamente 90 quilômetros do município de Caiapônia; ali permanecemos em um grupo de 5 missionários. Adiante, encontrava-se a comunidade do Assentamento El Dourado dos Carajás, cerca de 24 quilômetros após o Conquista, no qual permaneceram 4 missionários. Por fim, tivemos a oportunidade de fazer uma experiência junto ao povo do Acampamento Padre Ilgo Schneider, que desde sua estrutura até o modo de vida e ideologia em muito se diferia dos demais visitados.

Constituído por um grupo de 36 famílias, pode-se dizer que o Assentamento Conquista possui um conjunto de características que o diferenciam dos demais. Como base para qualquer discurso, vale lembrar que é basicamente composto por famílias oriundas daquela mesma região; todas com longa tradição de vida no campo. Outro elemento importante é a comum existência de laços de parentesco entre muitos parcelados do Assentamento: irmãos, primos, tios, pais etc… Em certo sentido, a existência de tal proximidade familiar colabora na edificação das chamadas “panelinhas”, dividindo a comunidade do Assentamento em pequenos grupos isolados entre si. A ausência de uma liderança, reconhecida por todos da comunidade, é outro fator que atrapalha em muito a caminhada desses trabalhadores. Existe aqui muita rivalidade o que desperta o espírito de individualismo no âmago de muitas pessoas. A falta de uma estruturada formação religiosa é o que proporciona a comum transição entre igrejas, ou o que se denominaria por “ecletismo religioso”; tal realidade se apresenta como desafiadora e requer da atividade pastoral a instituição das bases elementares sobre as quais deve se apoiar a fé cristã. Não obstante, é notável o interesse em aprender o novo e a alegria por se sentirem parte de uma comunidade eclesial, mesmo que ainda em muito marcada pela chaga da divisão.

Com muitas semelhanças e também diferenças das características acima citadas, a comunidade do Assentamento El Dourado dos Carajás é constituída por um grupo de 26 famílias, também oriundas daquela mesma região. No que se refere ao desenvolvimento estrutural do Assentamento, por se tratar de um grupo recém assentado em suas parcelas, ainda há muito a ser feito. Questões como a construção das estradas e a distribuição de energia e água para todos ainda são tratadas como prioridades elementares. Ao contrário do Assentamento anteriormente mencionado, a comunidade do El Dourado é formada por famílias com um maior acompanhamento religioso, o que, todavia, não assegura, também aqui, a comum existência de transição religiosa 3 entre membros de diferentes credos. Enquanto a Igreja permanece com um atendimento pastoral a cada quinze dias é crescente o número de pastores residentes nos próprios assentamentos – qualquer indivíduo pode se tornar pastor, basta que tenha uma boa capacidade oratória.

Ao contrário do que foi apontado como características dos assentamentos, a vida em um acampamento é bastante diferente. Constituído por um conjunto de, aproximadamente, 153 famílias, o Acampamento Padre Ilgo Schneider se difere em muito daquilo que experimentamos na convivência com os demais assentados. Em primeiro lugar, tratam-se de famílias provenientes das mais diversas regiões do estado de Goiás e mesmo do país. Por consequência, estão vinculados a sindicatos com forte expressão no cenário nacional, como a Central Unida dos Trabalhadores – CUT – e o Movimento Terra Trabalho e Liberdade – MTTL, o que garante em seus membros toda uma constituição ideológica própria. Aqui a precariedade nas instalações é ainda mais evidente e a necessidade de resolução imediata de problemas é parte da vida cotidiana. Ao contrário de um assentamento, no acampamento a união entre as famílias é dado notadamente visto, o que colabora na condução e resolução de seus problemas oriundos da vida cotidiana.

Hierarquização de Dados

Uma vez constituído um olhar panorâmico sobre a realidade que encontramos nos Assentamentos Conquista e El Dourado dos Carajás, bem como no Acampamento Padre Ilgo Schneider, cabe estabelecer o que se denominará por hierarquização dos dados. Trata-se do elenco dos pontos positivos e negativos percebidos ao longo das visitas às famílias e das conversas informais com os membros da comunidade. Em primeiro lugar, podemos listar o que encontramos de positivo na vida daquele povo:

  • Esperança por dias melhores;

  • Vontade de se desenvolver e colaborar na construção de uma sociedade mais digna e fraterna.

  • Uma vez listados os pontos positivos podemos fazer o elenco daqueles que dificultam a vida dos moradores daquelas comunidades Coragem de quem luta em prol do que acredita; busca o sonho e constrói a realidade para muitos desacreditada.

  • Constância na fé apesar das dificuldades – o que não significa perseverança num mesmo credo religioso;

. Longe de constituir-se como pessimismo, a abordagem das dificuldades encontradas na vida daquele povo é o que nos possibilita uma profícua ação pastoral e evangelizadora. Como se verá, muitos são os obstáculos que precisam ser transpostos, o que envolverá tanto o auxílio de instituições sociais quanto eclesiais. São esses os pontos preocupantes com os quais nos deparamos:

  • Instabilidade religiosa – é comum a transição entre os diferentes credos;

  • Notável falta de mínimo senso administrativo por parte dos que se tornam os proprietários das parcelas;

  • Dependência em relação a Instituições, dentre elas a própria Igreja;

  • Alto consumo de drogas lícitas e ilícitas – o que é a maior causa da desestruturação familiar;

  • Forte índice de prostituição e cada vez mais precoce ingresso na vida sexual ativa;

  • Degradação do meio ambiente, que é tido, unicamente, como fonte de matéria prima inextinguível;

  • Descaso em relação à educação – não há professores e as escolas se encontram em um alto nível de precariedade;

  • Falta de unidade entre os membros de um mesmo assentamento e, por decorrência, crescente onda de individualismo;

  • Falta de entrosamento comunitário – dons que não se manifestam por falta de abertura ou incentivo;

  • Imperante pensamento capitalista e pragmático;

  • Alto índice de violência – casos de fugas ou presença de foragidos da lei escondidos nos assentamentos;

  • Concorrência entre os próprios parcelados – perseguições e juras de morte;

  • Vandalismo;

  • Chantagens emocionais e legais – usam crianças e mulheres para chantagear; promessas de ataque armado;

  • Notável esquecimento por parte dos municípios.

Observando o elenco acima citado, torna-se forte a intuição diante da qual tais características se apresentam como a origem para questões com conseqüências gravemente problemáticas para a sociedade de um modo geral – tanto interior quanto exterior ao assentamento. Não se trata de negativismo ou depreciação. Os problemas e as dificuldades são o que mais notavelmente saltam à nossa vista. Não obstante, podemos notar que mesmo que inferiores no que se refere à sua quantidade os pontos positivos ultrapassam em muito as limitações e problemas, quando observados sob o prisma qualitativo. Do mesmo modo, torna-se digno de lembrança que os problemas mais graves acima citados somente foram percebidos no Acampamento Padre Ilgo Schneider, oriundo do Movimento dos Sem Terra – MST – e Central Unida dos Trabalhadores – CUT. Ao que parece, os manifestantes e acampados provenientes de movimentos desse gênero apontam maior tendência a expressões de violência, sejam elas das mais variadas formas. De modo distinto, os membros dos Assentamentos Conquista e El Dourado dos Carajás, advindos de movimentos sindicais da própria região, apresentam-se com maior docilidade em suas relações, consigo mesmos e com as instituições governamentais.

Um olhar crítico sobre a realidade

Mesmo sendo a única instituição religiosa que entra no âmbito das discussões acerca da Reforma Agrária, não são incomuns as reclamações, por parte dos assentados e acampados, em relação à Igreja Católica. Segundo eles, uma vez estabelecidos em suas parcelas tornam-se esquecidos também pelo atendimento pastoral católico. Comumente, a única relação entre eles e a Igreja é estabelecida pela celebração mensal dos sacramentos, o que exclui a possibilidade de um real sistema de evangelização que acompanhe sua vida cotidiana. Não obstante, também existem questionamentos por parte da Igreja, que alega a falta de compromisso e comprometimento por parte da grande maioria dos assentados, que somente se utilizam da Igreja como trampolim para alcançarem seus objetivos, ou mesmo como modo de tornar ouvida a sua voz. “Uma coisa é quando estão no acampamento, onde se consideram todos irmãos; outra é quando já se encontram assentados: aí se excluem com paus e pedras”, afirmam agentes de pastoral ativos na comunidade.

Segundo membros da comunidade local, como a artesã Lucia, de 45 anos, a presença da Igreja é tida como um “passa tempo”, muito útil para ocupar o tempo livre dos assentados. Isso pode ser nitidamente constatado no seguinte exemplo, narrado pela própria artesã: “antes de surgir o boteco a igreja era cheia”, afirma. Mesmo sendo proibidos pelas leis que regem o assentamento não é incomum a presença dos conhecidos “botecos”, nos quais frequentemente se reúne a comunidade local, seja para jogar cartas, beber, dançar e até mesmo fazer negócios. Quanto a isso, divididas são as opiniões; existe o grupo dos prós e dos contra. Segundo os que aprovam tal iniciativa, o boteco é um lugar de descontração e encontro das famílias, em outras palavras, um modo lúdico de descarregar as energias absorvidas no cotidiano de labutas. Por outro lado, segundo aqueles que são contrários a tal presença, trata-se de um antro de perversão dos adolescentes, os quais aprendem o vício da bebida, bem como um local propício à degradação da família em sua estrutura fundamental. Discrepâncias a parte, deve ser considerado o fato de que a presença do boteco afeta diretamente o andamento da comunidade eclesial desse meio, senão qualitativa, com certeza quantitativamente – ao que dão testemunho os vários bancos vazios da igreja.

Outro problema que usualmente aparece nesse cenário é a falta de senso de administração por parte dos assentados. Uma vez que as parcelas são distribuídas entre todos do acampamento e, por assim dizer, os indivíduos se assentam em sua própria terra, é dispensada, por parte do governo federal, uma ajuda de vinte mil reais, para que construam suas casas e façam as melhorias necessárias para que comecem a produzir em favor de sua própria subsistência. Entretanto, tal investimento não é gratuito. Após o intervalo de alguns anos, tempo necessário para o equilíbrio econômico do trabalhador, o mesmo deve devolver o dinheiro que noutrora recebeu como incentivo para sua produção. Aí se instaura um grande problema. Freqüentemente, ao receber o benefício do governo, muitos trabalhadores dispensam sua verba na compra de bens dos mais diversos – carros usados, motos, moveis para a casa -, bem como os que gastam tudo o que receberam em vícios, como a bebida e os jogos. O que deveria ser empregado na melhoria de sua terra, na aquisição de gado, na implantação de meios que garantam seu equilíbrio econômico, se esvai nas futilidades da vida, desequilibrando, do mesmo modo, a estabilidade do trabalhador, que se vê atolado até o pescoço em dívidas. Como afirmaram alguns dos trabalhadores consultados, “ao contrário de comprar uma vaca que garanta um bom retorno financeiro, muitos preferem comprar, com o mesmo dinheiro, duas vacas de nível inferior, com as quais gastará até mesmo o que não possui”. Nesse sentido, pode-se dizer que a eficiência pastoral nesse meio também é garantida pela orientação no modo de condução dos bens temporais.

Intimamente relacionado ao que foi mencionado está a crescente dependência por parte dos trabalhadores em relação às instituições eclesiásticas. Em muitos dos casos, os próprios indivíduos não assumem a sua responsabilidade, em especial no que tange ao governo de seus bens. Surgem gastos excessivos e descabidos. Torna-se quase extinto o temor por gastos desnecessários, pois confiam no auxílio sempre pronto por parte da Igreja. Também isso reflete em sua falta de organização como igreja peregrina do Senhor. Apresentando sua queixa em relação à falta de compromisso de grande parte da comunidade, essa é a expressão de uma das trabalhadoras, parte ativa da comunidade de seu assentamento: “esse povo só quer saber de ‘venha a nós’; não do ‘vosso reino’”. O compromisso com o Reino é, tão simplesmente, confinado às mãos dos ministros instituídos.

Com a forte concorrência entre os diversos grupos sindicais, que tomam a frente na briga pelos direitos dos assentados, os que saem mais prejudicados são os próprios trabalhadores. Interesses pessoais são postos acima da comunidade. Os verdadeiros pobres do assentamento são os mais esquecidos e, por conseguinte, os que mais sofrem. Prevalece a força dos grandes. Os que noutrora eram os oprimidos, num novo ensejo tornam-se os opressores. Dividem-se as opiniões sobre a venda das parcelas, proibida por lei, mas única alternativa para muitos trabalhadores. Uma vez que, por motivos diversos – brigas políticas, partidárias, perseguição – os sindicatos não liberam a verba destinada para o trabalhador, torna-se insustentável a permanência em sua parcela. Nesses casos, deixar a parcela, conquistada como fruto de tanta luta e suor, torna-se o único modo de assegurar a vida e a dignidade para muitas pessoas: “antes voltar para a cidade que morrer à mingua”, afirmam.

Pelo que se percebe, falta a implantação de uma consciência reta, que reconheça o papel da natureza e das pessoas. É comum o desrespeito ao meio ambiente e às leis ambientais. A reserva natural é tida como uma fonte a mais de matéria prima, disposta ao bel sabor do homem, para que dela retire até mesmo as “entranhas”. Não deveria ser essa a consciência daquele que será o homem do campo, de cuja natureza retirará o sustento para toda sua vida. O respeito pelo meio ambiente deveria ser, ao contrário do que se vê, o distintivo que alto reluz em seu peito, mostrando, assim, o verdadeiro valor da luta que por ele é exercida, o que o distingue como homem da terra. Talvez, todos esses problemas que se insurgem não mais querem senão apontar para aquela que é a raiz de todos os males: a falta de união. O individualismo, que é o grande mal da sociedade atual, também encontra no meio dos assentamentos o terreno propício ao seu crescimento. Segundo Vitorino, existe um exemplo que nitidamente pode ilustrar o contexto ao qual nos referimos: “Antes, no acampamento, apenas um carro ia à cidade, uma vez ao mês, e buscava as compras de toda a comunidade; Depois, no assentamento, vê-se um enorme fluxo de carros fretados, até dez por dia, trazendo as compras individuais de cada um; as coisas dos outros não encontram mais espaço junto às minhas.” Pior ainda seria pensar que na situação em que se encontram, nada seria mais valioso que a união. Dificilmente uma voz isolada será ouvida pela multidão, pelos grandes poderes. Talvez, em nenhuma outra situação seria tão propícia a conhecida frase segundo a qual: “a união faz a força”.

Finalmente

Para concluir, voltamos às afirmações primeiras, diante das quais fomos alertados de que não se refere, o presente texto, a uma estrutura científico-formal, mas, ao contrário, ao fruto de uma experiência missionária. Ora, uma das exigências da ciência moderna é a isenção do pesquisador, em outras palavras denominada por “neutralidade científica”. Em nosso caso não seria possível nos usurpar da realidade a qual descrevemos. Como fora dito, trata-se do fruto de um viver com eles, ou seja, de um “conviver”. As suas alegrias foram também as nossas alegrias, bem como as suas dores deixaram em nós a marca da chaga que os corrói. Nesse sentido, qualquer conclusão que objetive conter em si o fechamento de todas as possibilidades e a isenção de pertença à realidade que evocamos é nula.

Em todo o período de convivência que empreendemos, algo não poderia passar despercebido: o comum sentimento de esquecimento por parte dos assentados e acampados. Apesar das alegrias e tristezas; venturas e desventuras; fadigas e labutas e todo mais que a vida diária possa oferecer, nada se apresenta como fardo mais doloroso a ser carregado senão a consciência de se estar esquecido. Esquecidos por aqueles que, em tempos de eleição os cobriram de promessas. Esquecidos pelas autoridades políticas e civis que regem seus municípios. Esquecidos por seus próprios sindicatos, que os abandonam à mercê do tempo e do destino. São escolas que não funcionam; estradas pelas quais não se pode circular; pontes que desabam; dentre inúmeras outras evidências que nada mais apontam senão o descaso e o esquecimento. Uma coisa é certa: pela defesa da dignidade da pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus, a situação não pode permanecer como se encontra. Em suma, a isso nos propomos: ser ferramenta que desperte a consciência de tantos e tantas que parecem estar adormecidos em face ao sofrimento alheio. Não trazemos conclusão de dados ou propostas concretas de ação; tão somente almejamos colaborar como voz profética que anuncia, denunciando as injustiças e proporcionando a construção de um povo novo, rico em dignidade e vida. Oxalá que nos despertemos, saiamos de nossos casulos e partamos ao encontro da realidade que constantemente nos desafia. Talvez seja esse o primeiro passo: olhar para nossa realidade. Partindo da consciência do que nos circunda será plena e eficaz a nossa ação pastoral junto daqueles que sofrem.

1 Graduado em filosofia pelo Instituto de Filosofia e Teologia Santa Cruz – Associação Sedes Sapientiae. Membro do Grupo de estudos VIVA VOX: Grupo de pesquisas em filosofia clássica e contemporânea – Universidade Federal do Sergipe. Membro adjunto da SBF – Sociedade Brasileira de Fenomenologia. Atua com pesquisas em filosofia, com ênfase em filosofia contemporânea: filosofia da existência, alteridade e intersubjetividade, ética, ontologia e metafísica. É músico e pesquisador sobre a relação entre mùsica e religião e música e filosofia. Possui competências em línguas clássicas – grego e latim – e contemporâneas. Também escreve reflexões no âmbito interdiciplinar, pondo em confronto e relação ciências como a política, a educação, a religião e a psicologia. Possui especial dedicação à fenomenologia, sobretudo nos seus expoentes Edmund Husserl, Martin Heidegger, Emmanuel Lévinas e Jean Luc Marion.

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