Avaliação do crescimento de mudas de pau-pombo (Tapirira guianensis Alb.) em diferentes condições, no viveiro do Instituto Floresta Viva, em Serra Grande – Uruçuca, Bahia

Marco Aurélio Souza Silva[1] Reinaldo Martins Lemos[2] Rones Flasgordes dos Santos Souza[3]

publicado em 04/01/2011 como www.partes.com.br/socioambiental/paupombo.asp

Artigo produzido pelos alunos do Curso de Mestrado em Conservação da Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável da Escola de Superior de Conservação Ambiental e Sustentabilidade – ESCAS, 2ª turma, Serra Grande – Uruçuca – Bahia, para a conclusão da disciplina Metodologia Científica e Conceitos em Ecologia.

 

RESUMO: Este trabalho teve como objetivo avaliar a influência de diferentes condições de ambientes e tratamentos no crescimento de mudas da espécie pau-pombo (Tapirira guianensis Alb.), visando obter informações para melhor desenvolvimento das mudas que deverão ser usadas em programas de recuperação de áreas degradadas no Parque Estadual Serra do Condurú – PESC e no seu entorno. Avaliou-se o efeito de dois ambientes (pleno sol e ambiente protegido com tela sombrite 50%-viveiro), três misturas de substratos (controle; biofertilizantes, e; biofertilizantes+NPK), em tubetes de polietileno. As mudas foram analisadas no viveiro do Instituto Floresta Vivas, após 53 dias depois dos transplantes das plântulas. Utilizou-se biofertilizante em uma concentração de 10% e fertilizante sintético NPK na quantidade de 5g/muda. Conclui-se nesse estudo, que o tratamento dado a 50% de luminosidade (viveiro) e com a utilização de biofertilizantes+NPK obteve melhores resultados para o desenvolvimento do diâmetro do coleto e na produção foliar das mudas e ao pleno sol com a utilização de biofertilizantes+NPK obteve o melhor resultado no crescimento das mudas para a espécie estudada.

Palavras-chave: luminosidade, substrato, recuperação de área degradada.

  1. INTRODUÇÃO

            A Mata Atlântica possui 7% da sua área original e dentro das espécies ameaçada e bastante cobiçada pelo mercado consumidor podemos destacar o pau-pombo (Tapirira guianensis Alb.), uma árvore comum em toda mata atlântica e bastante utilizada pela indústria moveleira e seu consumo e extração é clandestino e de forma bastante rústica e inadequada por causa do preço abaixo do mercado e a qualidade da madeira o pau-pombo, além disso, a árvore pode ser empregada nos reflorestamentos heterogêneos de áreas degradadas de preservação permanente, principalmente de locais úmidos, graças à tolerância a esse ambiente e à produção de frutos altamente procurados pela fauna em geral (LORENZI, 1992), também encontrada em todo o território brasileiro, principalmente em terrenos úmidos e em quase todas as formações vegetais. É utilizada na medicina popular no tratamento de dermatoses, contra o câncer humano de próstata, como anti-sifilítica e depurativa (DOUSSEAU, 2007).

            Inserida na Mata Atlântica, no entorno do Parque Estadual Serra do Conduru – PESC está localizado o viveiro de produção de mudas do Instituto Floresta Viva, onde o objetivo é produzir mudas de espécies nativas e com qualidade para serem utilizadas na recuperação de áreas degradadas. Onde as sementes e plântulas são recolhidas de forma sustentável para a produção de mudas, gerando renda para 42 agricultores familiares da região, parceiros do Instituto Floresta Viva, que possuem viveiros rústicos em suas propriedades, com isso, a valorização do pequeno agricultor familiar da região, onde toda a comunidade do entorno dessa unidade de conservação façam parte dessa reconstrução do meio ambiente natural e também, adquire o sentimento de pertencimento na causa de proteger e preservar a fauna e flora local.

O presente trabalho teve como objetivo avaliar a influência de diferentes condições de ambientes e tratamentos no crescimento de mudas da espécie pau-pombo (Tapirira guianensis Alb.), visando obter informações para melhor desenvolvimento das mudas que deverão ser usadas em programas de recuperação de áreas degradadas no Parque Estadual Serra do Condurú – PESC e no seu entorno.

  1. MATERIAL E MÉTODOS

O Parque Estadual da Serra do Conduru está inserido na Região Sul da Bahia, na chamada Costa do Cacau, e abrange área dos municípios de Uruçuca, Itacaré e Ilhéus, com uma área aproximada de 10.000 ha. (figura 1). O clima da região é do tipo Af, conforme o sistema de classificação de Köppen, caracteriza-se por ser um clima quente e úmido, sem estação seca definida. A temperatura média mensal está entre 20 e 26ºC, com média anual em torno de 24ºC. Os meses mais quentes vão de novembro até março, em fevereiro, as temperaturas chegam a 30,3ºC e os meses mais frios são julho e agosto, quando as temperaturas oscilam em torno de 17ºC. A umidade relativa do ar está freqüentemente acima de 80% e a precipitação pluviométrica é superior a 1.300 mm anuais bem distribuída; as máximas pluviométricas ocorrem de modo geral no período de fevereiro a julho, havendo reduções da precipitação no mês de maio

 Figura 1 – Mapa de localização do Parque Estadual Serra do Condurú – PESC.

Fonte: Plano de Manejo do PESC, 2005.

            O estudo foi realizado no viveiro do Instituto Floresta Viva, localizado no entorno do Parque Estadual Serra do Condurú – PESC, no Km 01, rodovia BA 653, Serra Grande – Uruçuca, Vila de Serra Grande, Uruçuca, Bahia. As plântulas foram adquiridas de pequenas propriedades de agricultores familiares no entorno do PESC, onde foram coletadas sob as copas das árvores nos fragmentos florestais e transplantadas em tubetes de polietileno em abril de 2010 no viveiro.

            Foram separadas 120 (cento e vinte) mudas no dia 25 de outubro de 2010 e organizadas da seguinte forma: a) 60 mudas foram colocadas a Pleno sol, divididas em três bandejas, recebendo dois tratamentos e um controle, e; b) 60 mudas colocadas no viveiro, sob tela sombrite de polietileno, com 50 % sombreamento, divididas em três bandejas, recebendo dois tratamentos e um controle (figura 2). As bandejas foram elaboradas nas seguintes ordens: 1- controle, 2 – biofertilizante e 3 – biofertilizante + fertilizante NPK, na fórmula 11:30:17.

            As mudas controle receberam 4 irrigações diárias. As mudas que receberam o tratamento com biofertilizantes, além das irrigações, regulares a todas as mudas nos diferentes tratamentos, foram pulverizadas uma vez por semana com o biofertilizantes, utilizando pulverizador costal manual, e as mudas com biofertilizantes + fertilizantes NPK, foram alternadas aplicações semanais, sendo uma semana com aplicação de biofertilizantes e na seguinte com aplicação de NPK.

            As coletas de dados foram realizadas no dia 07 de dezembro de 2010, após quarenta e três dias dos tratamentos citados, onde foram avaliada a comprimento da parte aérea (cm), o diâmetro do coleto (cm) e a produção foliar das mudas. A comprimento das mudas foi medidas utilizando uma régua graduada em centímetro, o diâmetro do coleto foi medido com o paquímetro e a produção foliar com a contagem das folhas.

Os dados foram anotados e digitados em uma planilha de Excel e logo em seguida analisados pelo programa estatístico R, versão 2.11.1, originando os gráficos. Os resultados obtidos foram submetidos à análise de variância e as médias comparadas pelo teste de Tukey, a 5% de probabilidade (GOMES, 1987).

    Figura 2 – Posição e localização das plântulas no viveiro, 2010.

  1. RESULTADOS

 

3.1. Comprimento

 

 Figura 3 – Comprimentos de mudas de Tapirira guianensis Alb nos diferentes combinações de substratos e luminosidades, Serra Grande, BA.

  

Verificamos que o comprimento das plântulas é influenciado pela luminosidade (F=19,45; p<0,01), pelo tipo de adubação (F=15.19; p<0,01), e interação entre esses dois fatores (F=7,70; p<0.01;Figura 3)).

Nos resultados observados, notou-se diferenças significativas em cinco tratamentos, onde podemos destacar as mudas encontradas colocadas em pleno sol/controle e pleno sol/Bio+NPK e entre pleno sol/Bio+NPK e em 50% de luminosidade-viveiro/Biofertilizante. Como pode ser observado, o melhor tratamento que influenciou no tratamento das mudas colocadas a pleno sol, foi com Biofertilizantes+NPK (F=7,6968-p=0,0007565>0,05).

 

  

3.2. Diâmetro do coleto 

Figura 4 – Diâmetro do coleto das mudas de Tapirira guianensis Alb nos diferentes combinações de substratos e luminosidades, Serra Grande, BA.

Verificamos que o diâmetro do coleto das mudas é influenciado pela luminosidade (F=1,2399; p<0,27), pelo tipo de adubação (F=6,0201; p<0,01), e interação entre esses dois fatores (F=7,70; p<0.01;Figura 4)).

Nos resultados observados, notou-se diferenças significativas em cinco tratamentos, onde podemos destacar as mudas encontradas em 50% de luminosidade-viveiro/Bio+NPK e entre 50% de luminosidade-viveiro/Bio. Como pode ser observado, o melhor tratamento para o diametro foram às mudas colocadas a 50% luminosidade-viveiro e com a utilização de Biofertilizantes+NPK (F=4,2249-p=0,01698>0,05). 

 

 

3.3. Número de folhas

 

Figura 5 – Número de folhas das mudas de Tapirira guianensis Alb nos diferentes combinações de substratos e luminosidades, Serra Grande, BA.

 

Verificamos que o número de folhas  encontradas nas mudas é influenciado pela luminosidade (F=0,1648; p<0,68), pelo tipo de adubação (F=26,7713; p<0,01), e interação entre esses dois fatores (F=0,73; p<0.48;Figura 5)).

Observou-se diferenças significativas em seis tratamentos, onde podemos destacar que não houve diferenças significativas entre as mudas colocadas em pleno sol e as mudas em 50% de luminosidade-viveiro. As diferenças significativas encontradas foram nos substratos, sendo Bio+NPK o melhor resultado encontrado. Como pode ser observada, a maior influência na produção foliar das mudas foi o tratamento com Biofertilizantes+NPK (F=0,7297-p=0,4845>0,05).

 

  1. DISCUSSÃO

            As mudas colocadas a pleno sol e com o tratamento Biofertilizando+NPK apresentaram a maior média de crescimento, este fato pode estar relacionado com a característica ecológica da espécie estudada, pois se trata de uma espécie pioneira e heliófita. Em Rizzini citado por Ortega a radiação solar que incide sobre as folhas, é considerada fator climático fundamental, pois a intensidade, qualidade e duração da luz atuam como fonte de energia e estímulo regulador do crescimento.  Segundo Ortega (2006), em termos silviculturais, as espécies heliófilas são indicadas para plantios a pleno sol, em recuperação de clareiras.

De acordo com Dousseau (2007), a maior ou menor plasticidade adaptativa das espécies às diferentes condições de radiação solar depende do ajuste do seu aparelho fotossintético de modo a garantir maior eficiência na conversão da energia radiante em carboidratos e conseqüentemente maior crescimento.

Com relação ao diâmetro e ao número de folhas, as mudas que apresentaram a melhor média estão relacionadas com a localidade de 50% luminosidade-viveiro e com a utilização de Biofertilizantes+NPK. Isso, provavelmente, deve-se ao maior suprimento de nutrientes.

            As mudas produzidas em ambiente pleno sol atingiram maior comprimento de planta quando usou-se o substrato, enquanto as cultivadas em ambiente protegido com tela sombrite 50% apresentaram maiores médias de comprimento de planta utilizando-se as composições de substratos (CARVALHO FILHO, 2003).

            Ainda de acordo com Carvalho Filho (2003), para a característica diâmetro do caule, a

interação ambiente x substrato x recipiente foi significativa. Observa-se que tanto no ambiente pleno sol quanto no protegido com tela sombrite 50%, houve diferenças significativas entre as diferentes composições de substratos utilizadas. Ao utilizar-se o saco de polietileno e o ambiente de pleno sol, as mudas apresentaram maiores diâmetros do caule quando cultivadas com as composições.

            Resultados encontrados na literatura indicam que a capacidade de acúmulo de biomassa nos diferentes órgãos da planta varia em função da espécie, sendo resultado da adaptação ao ambiente de origem. Trabalhando com C. aschersoniana, verificaram maior acúmulo de matéria seca total e de raízes a 30% de sombreamento, enquanto que o maior acúmulo de matéria seca de folhas ocorreu nas plantas cultivadas em 30 e 50% de sombreamento (DOUSSEAU, 2007). Lima Junior et al. (2005), verificaram que em mudas de C. vernalis, o sombreamento de 50% proporcionou maior acúmulo de massa seca de folha, caule e massa seca total em comparação com as cultivadas a pleno sol, não sendo observada diferença quanto à massa seca de raízes.

O posicionamento das bandejas pode influenciar nos resultados, uma vez que estando próximas umas das outras, podem receber influência do tratamento no total ou em partes, principalmente nas bordas das bandejas.

  1. CONCLUSÃO

Estes resultados indicam que em condições de 50% luminosidade-viveiro tem-se maior número de folhas e diâmetro, enquanto que a pleno sol tem-se maior comprimento das mudas menor diâmetro do coleto e número de folhas. Vários estudos com inúmeras espécies arbóreas submetidas a diferentes níveis de luminosidade sob condições de viveiro confirmam os resultados obtidos em espécie pau-pombo (Tapirira guianensis Alb.), destacando-se um aumento na produção foliar com a diminuição da luminosidade. Com os resultados obtidos neste trabalho, tem-se que a condição de 50% de luminosidade-viveiro e o tratamento com biofertilizante+NPK é o mais recomendado para a produção de mudas de pau-pombo, comprovado pelos melhores resultados de diâmetro do coleto e produção foliar.

A produção de mudas em 50% luminosidade-viveiro tem a maior produção de folhas e diâmetro no coleto, tornando a muda de melhor qualidade. Após o período de viveiro, as mudas poderão ser colocadas na condição a pleno sol, área de rustificação, onde terá o maior desenvolvimento de crescimento, tornando-se aptas a serem levadas a campo e utilizadas em programas de recuperação de áreas degradadas.

REFERÊNCIAS CONSULTADAS

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[1] Engenheiro Florestal, Secretaria de Meio Ambiente do Estado, e-mail: marcoaurelio.souza@sema.ba.gov.br.

[2] Licenciado em Geografia, Delegacia de Proteção Ambiental – DPA, e-mail: reilemos@bol.com.br.

[3] Gestão Ambiental, Instituto Floresta Viva, e-mail: ronesfsouza@gmail.com.

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