As mudanças nos aspectos socioeconômicos e culturais da cidade de Pelotas/RS entre os séculos XVII – XXI

pelotas, hoje – http://www.pelotas.rs.gov.br/noticias/detalhe.php?codnoticia=34868

Ires de Oliveira Furtado*1

publicado em 01/02/2011

www.partes.com.br/cultura/culturaemudanca.asp

 

Ires de OLiveira Furtado é icenciada em Geografia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Aluna do Curso de Especialização em Educação do Instituto Federal Sul-Riograndende/ Campus Pelotas (IF-Sul).

RESUMO

A cidade de Pelotas, localizada na metade sul do estado do Rio Grande do Sul/Brasil, ao longo de sua história, passou por diversas transformações tanto em seus aspectos econômicos e estruturais, como em seus aspectos culturais. Desde a sua fundação, a cidade iniciou um processo cultural muito forte no sul do estado, sendo reconhecida em seus traços culturais marcantes. Com a mudança no setor da economia da cidade, esta passou por uma grande transformação quanto a sua cultura. Essa transformação será brevemente analisada por este artigo.

Palavras-Chave: Pelotas, Rio Grande do Sul, Mudanças, Cultura

RESUMEN

La ciudad de Pelotas, en la mitad sur del estado de Rio Grande do Sul en Brasil, a lo largo de su historia, ha sufrido muchos cambios tanto en sus aspectos económicos y estructurales, como en sus aspectos culturales. Desde su fundación, la ciudad comenzó un proceso cultural muy fuerte en el sur del estado, siendo reconocido en su punto de referencia cultural. Con el cambio en el sector económico de la ciudad, ha sufrido una importante transformación en su cultura. Esta transformación se revisan brevemente en este artículo.

Palabras clave: Pelotas, Rio Grande do Sul cambios, Cultura

INTRODUÇÃO: A CONSTRUÇÃO DA CIDADE NA HISTÓRIA E A ASCENÇÃO DO CHARQUE

Até o final do séc. XVII as fronteiras meridionais do Brasil eram indecisas e descuidadas. Portugueses e espanhóis não se interessaram em determinar com rigor a linha do Tratado de Tordesilhas (1946), que deveria passar aproximadamente na altura de Santa Catarina.

Após a separação das Coroas portuguesa e espanhola, os portugueses ocupavam até o sul da Capitania se São Vicente (depois de São Paulo), onde hoje está a costa do estado do Paraná; e a ocupação espanhola não passava do norte de Buenos Aires. Com isso, um grande vazio separava as duas nações: todo o território a leste do Rio Paraná (entre o Rio da Prata e o paralelo de 26°). Foi iniciativa dos portugueses ocuparem esse grande vazio territorial.

Depois da Restauração de Portugal, o Rei D. João IV começou a preocupar-se com a sua colônia americana, que era a última possessão ultramarina de valor que lhe sobrava. Tratou de fixar fronteiras nas porções meridionais onde os estabelecimentos portugueses e espanhóis eram mais próximos uns dos outros. Sendo que 1860 enviou uma expedição portuguesa partida do Rio de Janeiro para fixar-se em um forte próximo a Buenos Aires, foi então que se deu a fundação da Colônia do Sacramento, hoje cidade uruguaia de Colônia.

Muitas batalhas se deram entre portugueses e espanhóis pela posse do território da Colônia de Sacramento, mas localização afastada desses conflitos possibilitou que os portugueses ocupassem os territórios localizados mais ao norte, incorporando-os assim o Brasil. Nas margens do Rio Uruguai (a oeste) fixaram-se missões jesuíticas espanholas, mas que essa área também se torna definitivamente brasileira nos primeiros anos do século XIX,

A extremidade meridional do Brasil entra para a história política e administrativa da colônia no final do século XVII, mas só começa a participar economicamente na segunda metade do século XVIII.

A porção sul do Brasil não se mostrava favorável a produção de produtos tropicais de grande valor comercial, como o açúcar, mas Portugal viu-se obrigado a ocupar o território que era contestado pela Espanha. Por isso recorreu às camadas mais pobres da sociedade portuguesa, concedendo vantagens aos colonos que se estabelecessem no Sul (transporte fornecido pelo Estado, delimitação de terras, instrumentos agrários, sementes, animais, etc.). A preferência era para colonos que emigravam em família, isso resultou em propriedades fundiárias em divididas com trabalho escravo quase inexistente, tendo uma população etnicamente homogênea, formando uma “ilha” que foge dos padrões de ocupação do Brasil de grandes domínios escravocratas. Os primeiros povoadores vieram de São Paulo e estabeleceram-se no território que hoje constitui o estado do Rio Grande do Sul.

Até então, este setor meridional do Brasil não tinha grande importância para a Colônia, se destacando após pelas grandes fazendas de gado (estâncias). A pecuária foi a base da colonização do Extremo-Sul, o gado era criado em um estado semi-selvagem e se multiplicando rapidamente, devido as boas condições de revelo e vegetação. A agricultura também se fixou em algumas porções territoriais, mas não tinha grande expressão.

A organização econômica definitiva do RS foi adiada pelas guerras até 1777, mas as boas condições naturais garantiram a multiplicação do gado, que serviu de alimento para os exércitos em luta. A partir de 1777 começam a se estabelecer as primeiras estâncias regulares, sobretudo na fronteira. Mas apesar da concessão legal de terras, se estabeleceram os primeiros grandes latifúndios, pois muitas famílias tiravam sesmarias em nome de todos os membros da família, tendo casos de famílias proprietárias de quatro ou mais sesmarias.

Quanto ao comércio, primeiramente o principal negócio era a produção de couros, pois não havia ninguém que consumisse a carne. Esse negócio perdurou até fins do século XVIII. O verdadeiro caos em que o RS se encontrava foi se organizando na medida em que se estabeleceram as charqueadas, que coincidiu com a decadência da pecuária nos Sertões.

Em 1793 as charqueadas do RS já exportavam 195 toneladas de charque para as demais regiões do país, alcançando a margem de 9 mil toneladas no início do século seguinte. A indústria do charque se localizou em um ponto ideal: entre os rios Pelotas e São Gonçalo, próximos ao mesmo tempo dos grandes centros criatórios e do Porto de Rio Grande, por onde saía o charque para o comércio exterior.

Outros subprodutos do boi eram comercializados, tendo destaque o sebo usado na cordoaria para os navios e na fabricação de sabão. Esse sebo era garantido graças à qualidade do boi que não era musculoso como os animais nordestinos. No século XIX a pecuária sul rio-grandense não se mostrava em um nível técnico maior que a do interior nordestino. A pecuária rio-grandense não era tão cuidadosa, sendo que o que garantia seu sucesso eram as condições naturais favoráveis. A indústria de laticínios era pouco desenvolvida, tendo exportado queijo em alguns períodos. Graças ao clima de baixas temperaturas, só no estado do RS se produzia e consumia manteiga.

A localização e a grande circulação de capital gerado pelas charqueadas dará início ao primeiro centro urbano da província depois da capital, mas o primeiro absoluto em riqueza e prestígio social: a Freguesia de São Francisco de Paula, hoje cidade de Pelotas, que possuía uma igreja construída pelo dinheiro doado pelos charqueadores onde hoje está localizada a Catedral São Francisco de Paula. A nova freguesia foi se desenvolvendo rapidamente, e em 1830 Pelotas já tinha um parque industrial saladeril com mais de vinte charqueadas trabalhando ao longo do Arroio Pelotas e Canal São Gonçalo.

Os charqueadores começaram a fixar suas moradias ao redor da então Praça da Regeneração, hoje Praça Coronel Pedro Osório. E, em 1832, com dezoito ruas, foi elevada à categoria de vila, mas para que essa elevação se concretizasse, era necessária a construção de uma sede de governo e uma escola, que foram erguidas por dinheiro novamente doado por charqueadores. Após, passou a chamar-se de Pelotas, uma homenagem às rústicas embarcações utilizadas pelos nativos na travessia dos rios, confeccionadas com o couro animal e quatro varas corticeiras.

A CULTURA DA ELITE PELOTENSE NO SÉCULO XIX

Com a grande quantidade de capital circulando nas recentes ruas da cidade de Pelotas, a elite que aqui se instalou fortaleceu-se cada vez mais. A cidade passou por uma grande construção arquitetônica com a chegada de vários adereços vindos da Europa, como o Chafariz da Praça Coronel Pedro Osório. Os ricos charqueadores também mandavam seus filhos ao velho continente para estudar, e estes voltavam com costumes diferentes.

Esses costumes, provenientes de várias regiões da Europa, sobretudo da França, pois a maior colônia francesa do Brasil foi a que se fixou em Pelotas, repercutiram em diferentes formas de cultura e diversão na sociedade dos anos de 1800.

No ano de 1833 acontece a inauguração do Teatro Sete de Abril (FIGURA 3), recebendo esse nome por um motivo regional e outro nacional, o regional era que a data referenciava-se a instalação da cidade, e a nacional, à abdicação de D. Pedro I. Hoje o Sete de Abril é o mais antigo teatro em funcionamento no Brasil, que serviu de palco de apresentações teatrais, cinema e concertos musicais, recebendo a cantora lírica pelotense Zola Amaro, que fora a primeira sul-americana a cantar no Teatro Scala de Milão.

No ano de 1865, em uma viagem a Pelotas, o francês Conde d’Eu escreveu em seu livro “Viagem Militar ao Rio Grande do Sul” a seguinte nota sobre Pelotas:

[…] Pelotas aparece aos olhos encantados do viajante como uma bela e próspera cidade. As ruas largas e bem alinhadas, as carruagens que as percorrem (fenômeno único na província), sobretudo seus edifícios, quase todos com mais de um andar, com suas elegantes fachadas, dão idéia de uma população opulenta. De fato, é Pelotas a cidade predileta do que eu chamarei de a aristocracia riograndense, se é que se pode empregar a palavra aristocracia falando-se de um país do novo continente. Aqui é que o estancieiro, o gaúcho cansado de criar bois e matar cavalos no interior da campanha, vem gozar as onças e os patacões que ajuntou em tal mister. […] e, hoje ao fim de 50 anos, conta a cidade 10 mil habitantes. Igualando-se por consequência a Porto Alegre, capital da província. (MATTO [et al], 2000, p. 59)

Neste período, a elite pelotense dedicava-se a diferentes formas de lazer, pois haviam empecilhos como a falta de eletricidade. A Igreja Católica promovia festas e quermesses que possibilitavam a integração entre diferentes pessoas. Mas mulheres e escravos sofriam restrições para saírem às ruas, o que fez com que fossem instalando-se pela cidade diversos clubes recreativos específicos por sexo e etnia.

Os escravos participavam de grupos que promoviam festas religiosas, e também trabalhavam como assistentes em diversos espetáculos teatrais. E as mulheres participavam de grupos femininos e saraus familiares. Outros grupos étnicos promoviam reuniões para a preservação de suas culturas e idiomas. Esses grupos culturais se fortaleceram, sobretudo nos anos de 1850.

Os grupos carnavalescos também desempenharam grande papel na cultura pelotense. No carnaval da época, todas as ruas eram decoradas com bandeiras e as sacadas com toalhas de seda, garantindo espaço para ver disputa entre entidades carnavalescas, tendo reconhecimento a nível nacional.

Em 1920 é inaugurado o Theatro Guarany, idealizado por Rossauro Zambrano, após este ter perdido seu camarote cativo no Teatro Sete de Abril. O Guarany abriu suas portas às diversas classes da sociedade, porém ainda, como os demais teatros da época, proibia a entrada de negros:

O Guarany parece ter conseguido reunir um público bastante diverso quanto à classe social, visto que o mesmo aboliu o uso da casaca o que até então era obrigatório no Teatro Sete de Abril, promoveu espetáculos populares e manteve a sofisticação e elegância por meio da monumentalidade da construção e decoração. No entanto, inicialmente, o Guarany, assim como muitos cinemas contemporâneos a ele, proibia a entrada de pessoas negras (TAVARES, MICHELON & ROTMAN, 2008, p.2)

Outras casas de espetáculos foram surgindo em Pelotas, como o Teatro Avenida, na Avenida Bento Gonçalves, que hoje já encontra-se fechado e o Cinema Capitólio, que também já encerrou suas atividades e hoje abriga um estacionamento.

Também no início do século XX deu-se o fim do ciclo do charque por uma série de razões, uma delas foi a abolição dos escravos, quando deixa de existir o verdadeiro produtor do charque. Outra foi que outras cidades da fronteira fundaram charqueadas também, e com o estabelecimento das linhas férreas, o charque da fronteira poderia chegar ao porto de Rio Grande. O advento dos frigoríficos, na década de 1910 fez com restassem apenas cinco charqueadas em Pelotas. Os grandes charqueadores passaram a se dedicar a outras atividades, como a produção de arroz. Um desses charqueadores foi Coronel Pedro Osório, que passou a plantar arroz em 1905, construindo seu engenho de beneficiamento às margens do Canal São Gonçalo, transformando-se no maior industrial do setor no mundo e conhecido como Rei do Arroz.

Nos anos de 1920 inicia o processo de industrialização de doces artesanais, fortalecendo o plantio do pêssego que começou a ser vendido em grande escala. Funda-se a Cooperativa das Doceiras, que junto com demais entidades inauguram em 1986 a 1ª FENADOCE (Feira Nacional do Doce) que perdura até hoje, trazendo turistas de diversas regiões do Brasil, Uruguai, Argentina e outros. A tradição doceira de Pelotas faz com que esta seja reconhecida a nível nacional como a Cidade do Doce.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao longo de sua história, a Cidade de Pelotas sofreu por diversas modificações, mas a herança de seu passado cheio de riquezas ainda pode ser visto nos clássicos casarões do centro da cidade e nas antigas fábricas do Porto. A cidade hoje tem sua atividade econômica principal baseada no comércio varejista e não mais nas grandes indústrias. Dos treze cinemas existentes na cidade na década de 1970 não restou nenhum, sendo que hoje apenas um novo cinema está em funcionamento.

A Pelotas rica e promissora ainda continua nos sonhos dos mais antigos e nas aspirações dos mais novos, mesmo assim, a herança cultural de orgulho pela cidade passada de geração para geração é algo que nada irá das mãos do povo pelotense.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CALDAS, Pedro Henrique & SANTOS, Yolanda Lhullier dos. Guarany – o grande teatro de Pelotas. Pelotas: Semeador, 1994.

CUNHA, Paulo Cléber Barbosa. Pelotas: a decadência na economia e nos cinemas. 1997. Monografia (Escola de Comunicação Social) – Habilitação em Jornalismo, Universidade Católica de Pelotas, Pelotas.

FURTADO, Celso. Povoamento e articulação das regiões meridionais. In: Formação econômica do Brasil. 8 ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional. 1968.

PRADO JÚNIOR, Caio. Incorporação do Rio Grande do Sul. Estabelecimento da pecuária. In: História econômica do Brasil. 7 ed. São Paulo: Brasiliense, 1962.

PRADO JÚNIOR, Caio. Formação dos limites meridionais do Brasil. In: Evolução política do Brasil e outros estudos. 2 ed. São Paulo: Brasiliense, 1970.

TAVARES, Francine Silveira; MICHELON, Francisca Ferreira & ROTMAN, Mónica Beatriz. Cinema e Memória: Cine Teatro Guarany de Pelotas/RS. In: XVIII CIC. Pelotas, 2008.

LONER, Beatriz Ana. Pelotas se diverte: clubes recreativos e culturais do século XIX. UFPel: Pelotas.

MATTO, Mário Barboza [et al]. Pelotas… essência de um mundo em pequeno universo. Pelotas: UFPel, 2000.

 

 

1*Licenciada em Geografia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Aluna do Curso de Especialização em Educação do Instituto Federal Sul-Riograndende/ Campus Pelotas (IF-Sul).

COMO CITAR ESTE TEXTO:
FURTADO, Ires de Oliveira. AS MUDANÇAS NOS ASPECTOS SOCIOECONÔMICOS E CULTURAIS DA CIDADE DE PELOTAS/RS ENTRE OS SÉCULOS XVII – XXI. In: Revista P@rtes. 2011.

 

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