Ginástica para o cérebro

 

GINÁSTICA PARA O CÉREBRO

Margarete Hülsendeger
publicado em 01/02/2011 como <www.partes.com.br/cronicas/mhulsendeger/ginastica.asp>

 

 

O cérebro é como um músculo. Quando pensamos bem nos sentimos bem.

Carl Sagan

 

 

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestra e doutoranda em Teoria Literária na PUC-RS

O cérebro é um dos órgãos do corpo humano sobre o qual ainda pouco se sabe. É claro que a maioria de seus diferentes componentes e subdivisões já foram mapeados e nomeados: no entanto, ainda existem muitas dúvidas sobre suas funções e capacidades. Por esse motivo são sempre festejadas as pesquisas que têm como meta desvendar os mistérios desse órgão, que é considerado por muitos a sede da inteligência humana.

Recentemente, foi divulgado na revista Nature um estudo que identificou as regiões do cérebro relacionadas com a alfabetização e, consequentemente, com a leitura. A pesquisa analisou apenas adultos, pois na infância o aprendizado da leitura concorre com a aquisição de outras habilidades, como, por exemplo, jogar futebol.

Os resultados deixaram claro que os alfabetizados tinham um aumento da densidade da substância cinzenta em várias áreas do lado esquerdo do cérebro, local responsável pelo reconhecimento das letras e sua tradução em sons significativos. Segundo os pesquisadores, esse estudo questiona a crença que as deficiências de aprendizagem – dislexia, por exemplo – seriam causadas pela atrofia de alguma região do cérebro. Na verdade, a pesquisa indica que a atrofia seria causada pela falta de instrução.

Quando soube dessa pesquisa fiquei particularmente satisfeita, pois há muito tempo sou uma defensora feroz da leitura como uma forma de libertação e crescimento pessoal. Agora, ao descobrir que ela também ajuda a melhorar as condições de vida de pessoas com dificuldades de aprendizagem, tive minhas convicções reforçadas.

Ler amplia horizontes, possibilitando à mente viajar por lugares e tempos desconhecidos. Ler permite que sejamos mais críticos e, portanto, menos suscetíveis a influências perniciosas. Ler nada mais é que a academia que o nosso cérebro necessita para se tornar mais ágil e dinâmico.

E já que estou usando a analogia com uma academia de ginástica, lembre-se que nesses locais existem aparelhos para todos os gostos e necessidades. Vamos encontrar desde aquele que, aparentemente, pouco nos exige até o que nos extrai a última gota de suor. Contudo, todos têm um objetivo. Todos são importantes, pois de alguma maneira irão contribuir para moldar o nosso corpo, dando-nos força, flexibilidade e destreza.

Do mesmo modo a leitura em relação ao cérebro. Aqui também vamos encontrar textos para todos os gostos e necessidades. Iremos nos deparar com obras que, aparentemente, pouco nos exigem; enquanto outras, com certeza, vão precisar de horas de estudo e grande capacidade de concentração. No entanto, como no caso dos aparelhos de ginástica, toda e qualquer leitura é importante. Cada livro, revista ou jornal irá, de alguma maneira, nos ensinar algo, permitindo-nos compreender melhor o mundo a nossa volta. Até mesmo para aqueles que têm extrema dificuldade na leitura e interpretação é imprescindível que se crie o hábito de ler, pois, como foi comprovado, esse exercício, ao aumentar a densidade da substância cinzenta, poderá reverter o processo de atrofia mesmo em cérebros adultos.

Portanto, se antes não tinha preconceitos, agora com esse estudo – desenvolvido por pesquisadores espanhóis, colombianos e ingleses – só tive, como já mencionei, minha ideia reforçada de que o importante – o essencial – é ler. Pense sobre isso e leve, sem tardar, seu cérebro à “academia” mais próxima. Como dizia o poeta e ensaísta inglês Joseph Addison (1672-1719): “A leitura é para o intelecto o que o exercício é para o corpo”.

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