Bigode

Aparecida Luzia de Mello*

publicado em 04/03/2011 como wwww.partes.com.br/terceiraidade/bigode.asp

 

Ele tinha mais ou menos 17 anos, não se recorda exatamente. O pai, querendo dar-lhe uma força, aproveitou-se de seu cargo de diretor comercial de uma multinacional e pediu ao dono de uma empresa, fornecedora de produtos e serviços, que desse uma oportunidade para seu filho.

O empresário, querendo agradar seu cliente maior, não pensou duas vezes. De pronto pediu que o garoto fosse até sua empresa no outro dia e o procurasse pessoalmente.

O jovem, esperto, no outro dia estava lá, antes da hora marcada. Falou com a secretária, que o anunciou e foi recebido de imediato.

Sentado, numa conversa descontraída o empresário perguntou-lhe sobre a vida, família, futebol e no meio da conversa, o que ele sabia fazer.

O garoto que já atuava na área comercial fazendo alguns bicos em vendas de produtos diversos, comentou das suas habilidades em fazer negócios. Falante quis impressionar o futuro patrão e comentou sobre o curso que fizera até aquele momento – técnico em produtos químicos.

Na verdade o homem só queria ter uma ideia de onde o colocaria na empresa já que era filho de seu melhor cliente, cujo faturamento representava mais de 50% no ano.

Como o rapaz comentou sobre vendas, não teve dúvidas, chamou o gerente do setor, que era bigodudo, e o apresentou, dizendo:

-: este rapaz é filho de um amigo meu e eu resolvi emprega-lo, por favor, faça uma entrevista com ele, veja uma região onde ele possa atuar e a documentação necessária para começar conosco imediatamente.

Na cabeça do profissional, o diretor, em outras palavras, estava dizendo que o garoto trabalharia na empresa para atender os interesses de um amigo, sem levar em conta sua capacidade profissional e os interesses da própria empresa, até porque o pedido feito pelo fornecedor era confidencial, e, portanto, o bigodudo não tinha como saber que por trás daquela contratação havia sim, muitos interesses do patrão.

O gerente bigodudo, não gostou! Mas não disse nada. Pediu ao rapaz que o acompanhasse e despediu-se educadamente do chefe.

Ao chegar a sua sala, mandou o jovem sentar-se e ficou algum tempo olhando para ele, como se estivesse analisando-o, enquanto isto enrolava uma ponta do bigode, até que quebrou o silêncio para fazer comentários sobre a roupa do futuro funcionário.

Começou falando da calça que ele vestia – era um jeans – uma roupa não apropriada para atender clientes… O rapaz contra-atacou na hora – comentou sobre a praticidade do jeans, mas informou que se necessário fosse, ele usaria calça social para trabalhar.

Novo olhar e fixou os pés do jovem, mais uma enrolada desta vez na outra ponta do bigode, e comentou sobre o tênis. O jovem mais uma vez falou que estava disposto a cumprir as regras da empresa e se necessário usaria sapato social também.

Mais um olhar, desta vez enrolando as duas pontas do bigode, e, encarando o rapaz olho no olho, lhe disse:

-: puxa, mas você nem bigode tem ainda!?!

O garoto sabia que era realmente muito novo, mas não era bobo, e já tinha sacado que o bigodudo não tinha gostado nada da atitude do patrão querendo faze-lo engolir goela a baixo, um funcionário não recrutado por ele.

Sem titubear respondeu:

-: ter eu tenho, mas raspo, porque acho muito anti-higiênico!

Conversa encerrada. O gerente bigodudo levantou-se estendeu a mão e disse:

-: estamos conversados! Aguarde uma ligação minha informando o dia que você deverá começar.

Este diálogo aconteceu há 30 anos. Nesta semana saiu o pedido de falência da empresa e o jovem de outrora, hoje respeitável representante de produtos químicos do concorrente daquela empresa, nunca foi chamado para trabalhar.

Detalhe até hoje não usa bigode, por questão de higiene!

* Advogada, Mestre em Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor, Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o PEEM Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária da 3ª Idade e Recanto do Idoso Nosso Lar.

Email: cidamell@uol.com.br 

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