Crer ou não crer? Eis a questão

Crer ou não crer? Eis a questão
Margarete Hülsendeger

publicado em 04/03/2011 como <www.partes.com.br/cronicas/mhulsendeger/crer.asp>

 

Se Deus não existisse seria preciso inventá-lo.

Voltaire

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestra e doutoranda em Teoria Literária na PUC-RS

Outro dia me deparei com uma matéria de três páginas em um jornal, cujo assunto era a influência da espiritualidade sobre a saúde das pessoas. Como é de praxe, o texto trazia vários relatos dos benefícios físicos e mentais que o desenvolvimento da espiritualidade pode oferecer. Havia, inclusive, testemunhos de médicos e terapeutas afirmando categoricamente o quanto a força da fé pode auxiliar nos tratamentos de saúde.

Não é a primeira vez que esse assunto vem à baila. Na verdade, nos últimos anos, esse tema tem aparecido com frequência nos diferentes meios de comunicação. Contudo, até agora, ninguém conseguiu explicar como a fé e a espiritualidade atuam sobre o organismo, sabe-se apenas que funcionam.

Pesquisas comprovam, por exemplo, que quem procura desenvolver a sua espiritualidade corre menos riscos de morrer de problemas cardiovasculares, com redução de até 40% na taxa de pressão alta. Do mesmo modo, estudos já confirmaram a eficácia da oração. Quando uma pessoa reza – ou medita – há um aumento do fluxo sanguíneo nas regiões do cérebro conectadas às áreas do sistema imunológico, provocando uma liberação de substâncias que estimulam as células de defesa do organismo. E aqui não se está falando em repetir orações decoradas – como aquelas que fazíamos quando éramos crianças – mas, realmente, se predispor a abrir a mente e o coração para a energia que essas palavras podem despertar.

No entanto, é preciso entender que não há objetividade quando se fala dos efeitos da fé sobre o corpo ou a psique do ser humano. Geralmente, quando esse assunto é posto em discussão as pessoas costumam se dividir em dois grupos: os que não acreditam e os que acreditam.

O primeiro grupo crê que todas as respostas poderão ser encontradas na ciência. Para eles, esses fenômenos se resumem a reações químicas perfeitamente explicáveis. No entanto, quando são questionados sobre qual seria o agente responsável por essas reações a resposta mais ouvida é o silêncio. O segundo grupo, por outro lado, não precisa e nem busca explicações racionais. Para eles, é preciso apenas querer entrar nesse universo misterioso acreditando que as energias ali existentes trarão o alívio para os seus problemas. O reconhecimento dessa realidade torna-se matéria de fé e, portanto, tem muito pouco a ver com a razão.

As desconfianças, contudo, são também benéficas. Graças a elas o número de pesquisas nessa área tem aumentado consideravelmente. Como não há experimentos confiáveis que comprovem, por exemplo, a existência de Deus ou da alma, é preciso estudar e observar o homem. Nesse aspecto, pesquisadores como Harold Koenig, Harvey Cohen e David Larson têm um papel de destaque. Eles vêm desenvolvendo estudos no sentido de demonstrar a forte relação existente entre estados emocionais negativos – como raiva e inveja – e problemas de saúde e como a fé pode ser um fator decisivo na melhoria da qualidade de vida das pessoas.

Entretanto, ainda há muito a se fazer nesse campo. Foram anos – ou melhor, seria dizer séculos? – nos quais qualquer assunto relacionado com a espiritualidade era mal visto. Contudo, com o passar do tempo, logo se percebeu que, ao contrário do que se imaginava, a ciência, sendo o resultado de uma construção humana, também tinha os seus limites. Nesse momento, o homem voltou-se novamente para o desconhecido ou o imponderável, nele encontrando caminhos que, se não respondem a todas as dúvidas, pelo menos o ajudam a lidar com muitas das suas aflições.

Será essa uma volta a ignorância? Ou a uma idade média moderna? Sinceramente, não acredito. De qualquer maneira, esse assunto não se esgota aqui. Ainda muitas matérias serão elaboradas para os jornais, muitas pesquisas serão realizadas e, consequentemente, muito ainda será dito. O importante é que esse assunto está sendo discutido e estudado. E pensar que há alguns anos falar de fé ou de espiritualidade era considerado conversa de hippie!

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