A Educação como vontade e socialização: uma possível aceitação da liberdade na perspectiva de Friedrich Nietzsche

SILVA, M. A da1; KAYSER, A. M2; CARDOSO, E3.

publicado em 03/04/2011 como www.partes.com.br/educacao/vontadeesocializacao.asp

RESUMO

Este trabalho faz uma análise da obra de Nietzsche “Além do Bem e do Mal” e busca refletir acerca das questões filosóficas encontradas em Nietzsche e em relação à crise e à decadência do homem contemporâneo. O trabalho divide-se em quatro capítulos nos quais são abordados a crise e decadência do homem contemporâneo, a transmutação dos valores, o ressentimento verso vontade de poder e o “niilismo”. O fundamento da teoria Nietzschiana permitirá que se compreenda o processo de crise e decadência que o homem se encontra, passando pela transvalorização de todos os valores morais e a recuperação de valores que estabelecem uma perspectiva para além da moral através das ‘vontades de potências’ do homem. Suas obras são todas escritas em estilo confessional, por isso, deve-se interpretar a obra de Nietzsche considerando sempre sua vida, da qual é, em parte, espelho.

Palavras-chave: Transmutação dos Valores, Ressentimento e Vontade de Poder e Niilismo


ABSTRACT


This paper provides an analysis of Nietzsche’s work Beyond Good and Evil and aims to reflect on the philosophical issues found in Nietzsche and for crisis and decadence of contemporary man. The work is divided into four chapters which are addressed in the crisis and decay of man contemporêneo, the transmutation of values, the resentment will power back and nihilism. The foundation of the doctrine of Nietzsche allow to understand the process of crisis and decline that man is, through transvaluation of all moral values and retrieval of values that provide a perspective, besides the moral of the will through the power of man. His works are all written in confessional style, therefore, must interpret the work of Nietzsche always considering his life, which in part mirror.

Keywords: Nietzsche; moral values; contemporary man.


INTRODUÇÃO

A pretensão deste trabalho é realizar um estudo, segundo o qual, o homem está em decadência e crise sendo esta problemática oriunda do cristianismo que é o ponto de partida para fundamentar ou teorizar a transmutação dos valores. A partir do momento que se opta por fazer juízos de valor antinaturais, abre-se espaço para a aceitação de uma moral de rebanho que é a sustentação do cristianismo e que se utiliza do medo, através do “pecado”, para julgar o homem, fazendo ou oportunizando o ressentimento contra a vida e assim, falseando-a. A pesquisa busca mostrar que a transmutação dos valores é o segundo aspecto na declinação, na decadência do homem, esta transmutação é fundamentada pelo o cristianismo através do ressentimento.

Nietzsche afirmava que o homem perdeu sua identidade tornando-se objeto no mundo, é um homem enfermo, estraçalhado, dividido, pois, além de perder sua identidade, muitas coisas já não o satisfazem. Busca-se, portanto, no decorrer deste trabalho, mostrar algumas origens desta crise e decadência do homem moderno, mas também algumas saídas, segundo o próprio autor, através do ressentimento e vontade de poder, da transmutação dos valores e, por fim, da superação do homem através do niilismo.

A decadência e a crise humana são consideradas como uma doença moderna que não seria uma doença do intelecto, mas, antes de tudo, um caso de moral, o resultado de uma moral pervertida.

Analisar a perversão moral significa, para Nietzsche, procurar sua origem tanto no indivíduo, quanto na história, ou seja, o homem sob o modo pervertido do não – homem imaginário, isto é, Deus. Segundo o autor, a existência do homem resume-se em viver num espaço e tempo de acordo com o que ele estabelece e projeta, sendo, assim, passivo de erros.

Para Nietzsche, o homem pode assumir atitudes variáveis, porém nada lhe tira o direito de adquirir maneiras naturais e próprias através de uma genialidade para obter sua felicidade. Nietzsche projeta a obra “Além do Bem e do Mal” de forma irônica e poética. Nela o autor combate duramente a vertente religiosa “cristã” e a vertente filosófica. Segundo o autor, a religião é a precursora de toda inversão de valores, fazendo do homem um ser passivo, fraco, cheio de ressentimento e incapaz de construir, ou seja, que não teria uma vontade própria, ou seja, vontade de poder.

Esta vontade de poder só é dada aos homens fortes, criativos, que sabem como usar sua natureza e como direcionar sua genialidade. Deparamo-nos então, com a transmutação de valores que Nietzsche expressa em vários dos seus escritos: um homem decadente, pessimista, que, na perspectiva de sentido, perde seu centro de gravidade, pois os valores “naturais” passam a ser questionados pelo metafísico, pela história, pela filosofia e pela religião.

Na perspectiva da “TRANSMUTAÇÃO DOS VALORES” o ponto de partida desta reflexão é a afirmação de que a estrutura do caráter do indivíduo mediano e a estrutura socioeconômica da sociedade a que ele pertence são interdependentes.

Designa-se caráter social o produto da mistura da esfera psíquica e da estrutura socioeconômica, pois esta modela o caráter social de seus membros de modo que eles desejem fazer o que têm de ser feito sem questionar, sem a possibilidade de criar valores ou ainda, sem a possibilidade de agir instintivamente.

Ao mesmo tempo, o caráter social influi na estrutura socioeconômica da sociedade atuando para dar maior estabilidade à estrutura social ou, em circunstâncias especiais, tendente a explodir a estrutura social. Para Nietzsche, o homem vive muito melhor sem esta estrutura socioeconômica, pois esta seria para homens medíocres e decadentes. Nietzsche expressa, em vários dos seus escritos, que o homem atual está decadente, é pessimista, que perde a sua natureza e, na perspectiva de sentido, seu centro de gravidade é deslocado. Até então o homem conserva a sua existência, mas os valores “naturais” passam a ser questionados pelo metafísico, pela história, pela filosofia e pela religião.

Porém, depois de ter contato com estas esferas o homem começa a agir de forma antinatural, ficando inserido em um mundo criado e organizado por “Deus”, pelo comportamento da sociedade e pela organização do estado.

Ao verificar o que são os valores naturais para o homem, Nietzsche afirma que, se privarmos o homem dos valores morais, da perda de sentido da existência humana em um aspecto religioso, enfim, ao privar o homem das medidas divinas, estaríamos decretando a morte de Deus.

Percorrendo as numerosas morais que predominam sobre a terra, Nietzsche encontrou nelas certos traços que retornam regularmente e permitem, assim, distinguir dois tipos fundamentais: a moral do senhor e a moral do escravo.

A primeira figura que Nietzsche aponta nas origens da moral é a do senhor ou aristocrata primitivo. Seu caráter principal seria o de ser um criador de valores: uma energia criativa que brota de uma orgulhosa consciência de si mesmo e vem acompanhada de um sentimento de plenitude que não pode deixar de transbordar. Não seria privilégio cultural ou social, mas “sim” uma decorrência natural da força de origem dos aristocratas: sadios de corpo e de espírito, eles seriam inteiramente potência encarnada, que os faria crescer e se estender, abarcando, conquistando a preponderância não por quaisquer morais ou imorais, mas porque eles vivem a vida e a vida é vontade de poder.

Neste sentido, a influência da religião, assim como da metafísica e da filosofia seria uma alienação que condiciona somente o homem fraco. Para Nietzsche, analisar a perversão moral significa procurar sua origem tanto no indivíduo quanto na história ou, para usar a expressão nietzschiana, significa fazer sua genealogia em busca do além do bem e do mal.

A vontade de potência é natural a todos os homens, mas como somos homens carentes, limitados, fracos, sem perspectiva de vida, sem uma identidade, temos a necessidade de criar máscaras para suportar a própria vida.

Porque a consideramos amarga, a mesma sempre nos convida a renovar nossa conduta através de um código ético, no qual deveríamos agir instintivamente, nos ajuda a encontrar a verdadeira identidade. Esta vontade de potência o situa muito além do bem e do mal e faz o homem desprender-se de todos os produtos de uma cultura decadente.

Para Nietzsche, quando falamos em prática caridosa, piedade, amor a Deus e ao próximo são valores que fragmentam o homem, fazem do mesmo um ser decaído e constituído de valores inferiores. Segundo o autor a “virtú” renascentista é uma demonstração de homens que agirão segundo a sua genialidade, segundo seus instintos. Temos através dos renascentistas uma moral de senhores, a moral além do homem que é oposta à moral do escravo.

A construção do niilismo é uma forma de dar sentido à humanidade e à sua existência. Nietzsche negou os valores cristãos, pois acreditava que eram crenças, valores e sentidos infundados e decadentes que fazem do homem um ser antinatural, um homem fraco, submisso à suprema valoração da razão e dos ideais cristãos. Para Nietzsche, as tradições filosóficas e cristãs construíram valores ilusórios como a busca do transcendente, não levando em consideração à vontade e a emoção.

Segundo Nietzsche, depois que o homem assimila valores abstratos de noção, progresso, compaixão, caridade e pecado, o homem se torna compassivo a esses valores que contrariam as possibilidades e as metas de um verdadeiro homem individual.

Hoje em pleno século XXI, é possível encontrar homens desorientados sem perspectivas para agir e sem ideais e valores.

O homem se vê muito confuso, desorientado e desfragmentado em meio a uma enorme inversão de valores, pois, até aqui, tudo era correto e agora tudo se tornou incorreto. Para entender a tese fundamental do niilismo, faz-se necessário analisar a religião, pois para Nietzsche, ela é a precursora da oposição aos instintos.

A religião faz do homem um ser ressentido, que faz uma inversão, uma “transmutação de valores”, tornando-se um homem doente, fraco, agonizante, decadente e fragmentado. O cristianismo prega um amor incondicional ao próximo e um Deus misericordioso.

Ao que parece, Nietzsche faz uma crítica ao cristianismo como sendo um sistema lógico, sistemático, metodológico, que é um antípoda a toda a natureza humana. No primeiro momento, a teoria nietzchiana parece ser compreensiva pelo fato que, através da religião o homem fica limitado e é passivo de uma teoria sem fundamento, pois, como conceber uma relação de amizade entre um homem com um Deus metafísico. Aos olhos de Nietzsche esta relação é algo platônico e, para que o homem possa sair deste mundo platônico, se faz necessário proclamar a “morte de Deus

Para alcançar os objetivos propostos neste trabalho, partiremos de algumas reflexões como: O homem atual é gerador de vida, proporciona vida? O homem atual é conservador de sua espécie? O homem busca mascarar o mundo, falseando-o, fantasiando-o com inverdades ou com verdades? O homem está jogado no mundo ou está inserido no mundo? Onde estaria a autonomia deste sujeito?

Em uma análise rápida às perguntas acima, parecem questões sem muita importância e irrelevantes, porém, a partir da obra de Nietzsche, esta pesquisa busca mostrar que as mesmas estão intimamente ligadas com a crise e a decadência do homem atual. A partir das perguntas é possível analisar se a crise atual do homem contemporâneo seria precursora da inversão e a transmutação dos valores, tendo como referência e causa as nossas vaidades, as quais seriam as origens das nossas morais. Para Nietzsche (1992, p.78), “nossa vaidade desejaria que justamente o que fazemos melhor fosse visto como o mais difícil para nós”.

Acredita-se que apesar da apresentação do necessário para dar inicio à reflexão sobre a dignidade humana e a forma que o homem é tratado pela sociedade, pela religião, pelo Estado, enfim, por tantas outras vertentes, para a temática abordada restam ainda múltiplas considerações para que possam ser suficientemente desenvolvidas, uma vez que, segundo a visão nietzschiana, nunca respeitaram a forma natural do agir humano, nunca acreditaram na capacidade de criar valores próprios, na genialidade do homem e sempre estiveram dispostas a corrompê-lo.

Falar de dignidade humana em chave filosófica comporta, necessariamente, um fundamento antropológico, no qual o ser humano é compreendido desde sua relação com outro. Supõe-se, portanto, um conceito de pessoa que se unifica e se integra unicamente ao outro, tendo como referência o divino, origem e fim da sua existência. A realidade humana é profundamente relacional e transcendente, isto por si só já fala da grandiosidade da sua realidade, mas ainda se supera quando Deus chama à missão de ser na terra quem administre e cuide da criação, pois é aqui sua sublime dignidade que Friedrich Nietzsche não conseguiu entender.

Portanto; acredito que na obra Além do Bem e do Mal há muita intenção poética e pouca intenção filosófica, pois para muitos comentadores, Nietzsche estava com os olhos empoeirados e, no decorrer do seu trabalho, perdeu o foco inicial de análise profunda da crise e da decadência humana, da transmutação dos valores, do ressentimento e, portanto, não soube dar uma solução plausível ao homem quando buscou e justificou o super–homem com o niilismo.

Se o homem é um ser relacional necessita do outro para tudo. Se fosse o contrário, seria um ser jogado no mundo e esse não foi o projeto de Deus e nem da religião cristã. Nietzsche apresentou um homem extremamente individualista, incapaz de se relacionar e de amar o seu próximo e sua própria vida. Tal fato é uma contradição, pois ele mesmo buscou incessantemente se relacionar com os outros.


BIBLIOGRAFIA:


ARALDI, Clademir. Luis. Niilismo, Criação, Aniquilação: Nietzsche e a filosofia dos extremos. São Paulo: Discurso/Unijúi, 2004.


AZEREDO, Vânia Dutra de. Nietzsche e a dissolução da Moral. 2º ed. São Paulo: Discurso/Unijúi, 2003.


BAUMAM. Ética Pós Moderna. Trad. João Resende Costa. São Paulo: Paulus, 1997.


BÚSSOLA, C. Filosofia para o Curso Básico Universitário. Espírito Santo: Ceciliano Abel de Almeida, 1992.


DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Memórias do subsolo. Trad. de Bóris Schnaidermann. São Paulo: Editora 34, 2000.


FOUCAULT, Michel. Nietzsche, a Genealogia e a História. In Microfísica do Poder;

trad. de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1992.


GIACÓIA JÚNIOR, Oswaldo. Nietzsche como psicólogo. São Leopoldo: Unisinos, 2001.


GIACÓIA JÚNIOR, Oswaldo. Labirintos da alma. Nietzsche e a auto-supressão da moral. Campinas: Editora da UNICAMP, 1997.


LIMA, Vaz. Escritos de Filosofia V: Introdução à Ética Filosófica II. São Paulo: Loyola, 2000.


MACHADO, Roberto. Nietzsche e a Verdade. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.


MÜLER-LAUTER, Wolfgang. A Doutrina da Vontade de Poder em Nietzsche. Tradução de Oswaldo Giacoia Júnior. São Paulo: Annablume, 1997.


NIETZSCHE, F. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. São Paulo: Escala (Edição de Bolso), sem referência ao ano.


________. Além do Bem e do Mal: Prelúdio a uma Filosofia do Futuro. Tradução Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras. 1992


________. A Gaia Ciência. Tradução Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.


________. Crepúsculo dos ídolos. São Paulo: Escala (Edição de Bolso), sem referência ao ano.


_______.Genealogía da Moral: uma polémica. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.


______. O Anticristo. São Paulo: Martin Claret, 2002.


ONATE, Alberto. Marcos. Entre eu e si: ou A questão do humano na filosofia de Nietzsche. São Paulo: Discurso Editorial e Ijuí, RS: UNIJUÍ.Coleção Sendas e Veredas, 2003.


PEARSON, K. A. Nietzsche como pensador Político: uma Introdução a Nietzsche. Rio de Janeiro: ZAHAR, 1997.


PENZO, G. et al. Nietzsche e o Cristianismo. São Paulo: Vozes, 1981.


KANT, Immanuel. A Religião no Limites da Simples Razão. Trad. Artur Morão. Lisboa Portugal: Edições 70, 1992.


KEHL, Maria Rita. Ressentimento. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004.


SIMÕES, Mauro Cardoso. Nietzsche: a escrita e a moral. Campinas: Alínea, 2003.


ZILLES, Urbano. Filosofia da Religião. São Paulo: Paulinas, 1991.

1 Marco Aurélio da Silva (UFSM/UFRGS/UNICID) Graduado em Filosofia, Especialização em Educação Ambiental/Gestão Municipal/Gestão Educacional

2 Aristéia Mariane Kayser (UFSM/FACISA/UNICID) Graduada em Enfermagem, Especialização em Educação Ambiental/Urgência Emergência e Trauma/Gestão Educacional

3 Evandra Cardoso (FASB) Mestre em Psicologia Clínica; Professora de Graduação do Curso de Psicologia

E-mail: ma22@zipmail.com.br;k0132@hotmail.com;evandracardoso@hotmail.com

Post Author: partes