Representações sociais docentes sobre inteligência espiritual

Sandra Montenegro

publicado em 03/04/2011

www.partes.com.br/educacao/inteligenciaespiritual.asp

Resumo: Este artigo é o resultado de uma pesquisa realizada com docentes sobre suas representações sociais acerca do sentido atribuído à espiritualidade e se tais representações sociais têm impacto no cotidiano da escola, da sala de aula.

Palavras-chave: Representações sociais, espiritualidade, docência.

Abstract: This article result of research that finality was analyze the social representations to teachers about spirituality and if their conceptions impacting the practice in the school and classroom.

Key-words: Social Representations, spirituality, teachers.

Primeiras Palavras: 

A humanidade tem buscado ao longo deste novo século uma maior aproximação com meios ou caminhos para realizar-se de modo mais transcendental. Seja através de religiões, de seitas orientais, de práticas holísticas, por exemplo, Florais de Bach, meditação, terapias das cores, Reike, entre outros. Observamos o aumento de igrejas das mais variadas denominações, ouvimos depoimentos de diversas pessoas em reportagens ou outros meios de comunicação que há uma falta de Deus nas pessoas, pois as violências ou os desarranjos familiares, a ausência de autoridades têm sido atribuídas a fragilidade da espiritualidade das pessoas.

Daí nos interessamos para compreender as representações sociais docentes sobre espiritualidade e como suas representações sociais repercutem em sua prática na escola, especialmente em sala de aula. Utilizamos como marco teórico os estudos sobre representações sociais na perspectiva de Moscovici. Este autor realizou um rompimento com os paradigmas tradicionais das ciências sociais e valorizou as diferentes maneiras que as pessoas utilizam para explicar a realidade em que vivem. Estas representações sociais são importantes porque são conhecimentos que explicam a realidade e orientam seus comportamentos. Foi uma pesquisa qualitativa, uma vez que focalizamos os significados presentes nas falas dos docentes. Participaram 32 docentes (2 homens e 30 mulheres) dos últimos anos do Ensino Fundamental da rede estadual  do Recife. Utilizamos a entrevista e o questionário. No trato do tema espiritualidade, escolhemos uma bibliografia que nos deu suporte, conforme consta na bibliografia, mas destacamos Wolman (2001), Zohar (2008) e Gardner (2009).

Fundamentos teóricos sobre espiritualidade:

É raro alguém afirmar que não possui nenhum nível de espiritualidade, muitas vezes o tema é confundido com aspectos religiosos.

Conforme Wolman (2001, p.151)

A inteligência espiritual pode ser mais bem visualizada como uma capacidade de um tipo particular de experiência que nós humanos possuímos e para a qual também demonstramos certas habilidades relacionadas. Nossa tarefa agora é compreender como essa inteligência pode e realmente influencia nossas vidas, como sua energia pode ser controlada e como podemos nos conhecer melhor através da auto-reflexão espiritual.

Este autor enfatiza a inteligência espiritual como relevante para a condição da nossa vida pessoal e social, uma vez que nossas escolhas afetam e são também influenciadas pelo modo como vivemos, decidimos e agimos. Por esta razão, iniciamos nossa pesquisa pretendendo saber a relação entre representações sociais de espiritualidade, se proporciona um melhor autoconhecimento e se ajuda a melhorar a prática cotidiana em sala de aula.

Gardner (2009) e Zohar (2008) afirmam que o alto quociente espiritual implica ser capaz de ter uma vida mais cheia de sentido, adequando senso de finalidade e direção pessoal. Ter ou desenvolver inteligência espiritual aumenta horizontes, tornando o ser humano mais criativo. É uma inteligência que está ligada à necessidade humana de agir e de ter experiências num contexto mais amplo de sentido e valor.

Conforme Zohar (2008) O Quociente Espiritual não tem relação direta com religião, é uma inteligência que direciona ações em momentos de impasse, padrões comportamentais, problemas com trabalho, sofrimentos emocionais ou doenças físicas. São nesses momentos que o Quociente Espiritual mostra os  problemas existenciais e fornece  pistas de como solucioná-los.

A Inteligência Espiritual tem sido investigada por Gardner (2009), em diversos trabalhos seus sobre as inteligências múltiplas. Este autor sugere que.

                       Esse é o último critério da inteligência postulado por Gardner sugere que a pessoa espiritualmente inteligente tem adequado senso de auto-aceitação; compreende e aceita suas próprias limitações e imperfeições e está mais livre da arrogância e de seu inverso: a baixa auto-estima. A pessoa se mostra flexível na busca de um equilíbrio harmonioso entre auto-conceito, auto-integração e auto-regulação.

Do ponto de vista teórico, a espiritualidade pode vir a ser um construtor dinâmico. Passa espontaneamente à ação e dá às pessoas um contexto interpretativo que lhes possibilita negociar com vantagem as demandas da vida cotidiana. Mas o que dizer das representações sociais dos docentes pesquisados?

Resultados da pesquisa.

Dos trinta e dois (32) docentes pesquisados, 18 docentes afirmam que a espiritualidade está na crença em Deus, em ter uma religião que os ajude a viver em harmonia com os seres humanos e não praticar o pecado. Consideram que possuem mais uma prática religiosa e que esta prática ajuda-os a suportar as dificuldades do cotidiano do trabalho. Sempre fazem orações antes de ir para o trabalho, mas ao mesmo tempo afirmam que não conseguem realizar um trabalho de espiritualização dos seus alunos porque a sociedade está desorganizada e o professor perdeu o papel de referência diante dos alunos. A categoria principal deste grupo foi a palavra Paciência – como uma característica necessária ao ato de educar e que a paciência vem da religiosidade, da fé em Deus.

Três docentes têm como representações sociais de espiritualidade a arte de meditar e que a harmonia interior contribui para a harmonia com o que é externo e  buscam a espiritualidade através de meditação transcendental, afirmam que se consideram estáveis emocionalmente e conduzem a prática docente a partir da compreensão de que cada pessoa está em um estágio diferente de pensar, de aprender e de se comprometer. A categoria principal desse grupo foi a expressão Nível existencial. Explicaram que realizam a docência considerando o nível de maturidade existencial de seus alunos, elaboram aulas com reflexões sobre a vida espiritual sem abordar religiões. Todavia realçam que não é um caminho fácil trabalhar na perspectiva espiritualista porque o cotidiano escolar nem sempre é favorável.

Dez docentes construíram suas representações sociais sobre espiritualidade a partir da aceitação de um ser Criador, que todos nós somos originados de uma matriz mais ampla e mais profunda do que conhecemos; afirmaram que acreditam em um Ser supremo, mas não investem na espiritualidade como um dos caminhos para a aprendizagem. Insistiram que o tempo que possuem em sala de aula é para as atividades solicitadas pela Rede de Educação e não podem fazer muito diferente. Entretanto, afirmaram que ocasionalmente abordam questões espirituais. A categoria principal deste grupo foi a expressão Espiritualidade ocasional.

Um docente afirmou ser ateu e não acredita em nenhuma teoria psicológica, educacional ou religiosa que melhore o ser humano. Para este docente, o ser humano está em uma situação de decadência em todos os sentidos: racional, intelectual, social e religiosa. O docente informou que realiza o seu trabalho com responsabilidade sem pretender modificar ou melhorar as pessoas. A categoria central que o identifica é a palavra Responsabilidade.

Considerações finais:

Com exceção de um docente, os demais externaram suas representações sociais sobre espiritualidade. Apesar de cada grupo vivenciá-la de um modo específico, de acordo com suas representações, todos afirmaram que não é fácil trabalhar a docência em uma perspectiva espiritual. Os impedimentos apresentados foram: o sistema educacional não ajuda, as tarefas educativas são muitas, as pessoas não estão preparadas para uma vivência espiritual fora das igrejas, a sociedade está corrompida e o ser humano está em franca decadência.

Se a espiritualidade é uma forma de agir e viver em harmonia interior com o meio que se vive, mesmo com os desafios e adversidades que a sociedade impõe. Os docentes não apresentaram coerência com as percepções teóricas elaboradas pelos autores citados. Todos os docentes demonstraram valores pertinentes a uma espiritualidade que está em processo de formação, mas em nenhum momento perceberam que a espiritualidade deve conter aspectos como: ética, justiça, alteridade e amor. A espiritualidade não é algo a ser quantificado no sentido de medidas, por isto o cunho qualitativo da pesquisa, porém é relevante por acreditarmos que o desenvolvimento da espiritualidade pode contribuir para a dimensão da cidadania e do processo de humanização a que todos nós estamos submetidos.

Referências bibliográficas:

GARDNER, Howard. Estruturas da mente: a Teoria das Múltiplas Inteligências. Porto Alegre: Artes Médicas, 2009.

MOSCOVICI, Serge. Representações Sociais: Investigação em Psicologia Social. Petrópolis: Vozes, 2005.

TELES,M.L.SILVEIRA .Educação sem Fronteiras- Cuidando do Ser,Petrópolis RJ..Vozes 2003

WOLMAN, Richard N. Inteligência Espiritual. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001

ZOHAR, Danah. Inteligência Espiritual. São Paulo: Bloomsbury, 2008

 

 

Sandra Montenegro é docente da UFPE, Centro de Educação. Doutora em Educação. Email:   sandra.montenegro@yahoo.com.br

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