O guerreiro da vida moderna

O guerreiro da vida moderna

Gilda E. Kluppel

 

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Gilda E. Kluppel é professora de Matemática do ensino médio em Curitiba/PR, Mestre em Educação pela Universidade Federal do Paraná.

unto aos primeiros raios de sol acordamos para mais um dia de batalha. Logo, entramos nesse recital da vida moderna, demasiadamente recolhidos em nossas tocas, repletas de armaduras. São temores por assaltos, sequestros, arrombamentos e tantos verdadeiros e outros supostos males que nos afligem e muitas vezes sequer se concretizam. Entretanto, não podemos abrir a guarda para a possibilidade da ocorrência. Ao sair de nossas casas nos preocupamos se fechamos todas as portas e janelas e enfrentamos o trânsito em mais uma batalha, dentro de carros protegidos por alarmes e outros dispositivos de segurança; onde o perigo pode estar em qualquer esquina. Não esquecendo do aparelho celular, ferramenta que se tornou indispensável ao guerreiro da vida moderna, a cada momento com mais funções adicionadas para combater o bom combate. Será mesmo um bom combate?

O guerreiro da vida moderna segue sintonizado e antenado para as novas informações, entre tantas senhas, controles remotos, laptops e rápidas conexões. Porém, os dias parecem mais curtos quando são extrapolados os limites da vida profissional em detrimento da vida pessoal. Dominado por projetos de existência, resumidos ao interesse próprio, não consegue sair da restrita área oferecida pelo individualismo. Conduzido por prazos e prestações, feitos na medida da sua ânsia em possuir cada vez mais, num movimento incessante e desenfreado. Logo, considera uma perda do seu precioso tempo ao fazer coisas que fujam um pouco da rotina diária, baseada no binômio comprar e pagar. Que lacuna necessita ser impreterivelmente preenchida e induz muitos de nós para a acumulação de bens materiais como a finalidade primordial de uma vida?

O homem parece que possui mais facilidades e controle sobre o mundo que o cerca, mas em compensação está se afastando progressivamente do seu mundo interior. A ambição em possuir entoa num ritmo forte, uma sinfonia de mesmo tom, repetida por todos os cantos e que somos forçados a ouvir diariamente. São inúmeros os apelos indicando que um automóvel novo pode levá-lo para o caminho da felicidade, uma roupa da moda garante um bom desempenho pessoal ou um cargo considerado importante pode atestar a sua competência; entre tantas coisas e suposições que impedem viver de forma mais livre.

Diante desse ciclo de ambições que se forma, parece que a normalidade está na inserção e participação ativa. Fora desse ciclo não há vida? A propagada felicidade é indicada pela aquisição de alguns objetos a mais, um punhado de dinheiro e um carrinho de supermercado repleto. Penetrando nesse impiedoso ciclo estamos sujeitos a sobrepor a matéria aos sentimentos, no qual as pessoas tornam-se coisas para também para serem usadas e descartadas.

O guerreiro da vida moderna está condicionado ao comando: viver é possuir! Subjugado pelo desejo de posse percebe-se mais imaturo do que consegue suportar. No decorrer desta batalha surgem as doenças consideradas básicas da vida moderna, entre estresse, dificuldade para dormir, distúrbios alimentares e outras que ainda estão para surgir. A sociedade da competição não admite a tristeza ou a frustração e pela busca da felicidade, vale qualquer artifício até a felicidade da tarja preta, oferecida pelos antidepressivos, ansiolíticos, tranquilizantes e estabilizadores de humor.

Nessa batalha diária ao retornar para casa no final do trabalho e obter o merecido repouso do guerreiro, vencedor de mais uma batalha da guerra pela vida, resta apenas o cansaço; um inimigo nesta luta que o impede de tentar refletir sobre a sua fatídica rotina. Ao deitar em sua cama, ainda procura, em vão, não sonhar com seus competidores reais ou meros fantasmas da vida moderna.

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