O Paraná por D. Pedro II

 

José Alexandre da Silva1

 

publicado em 06/06/2011 como www.partes.com.br/educacao/resenhas/parana.asp

 

D. PEDRO II. Diário da visita à Província do Paraná. Francisco Marques dos Santos (org.). Ponta Grossa, Editora da UEPG, 2008.


Ah! Se lhe contasse tudo o que imaginei nas lindas noites dos campos do Paraná” (DEL PRIORE, 2008, p. 215), escreveu D. Pedro II em carta à Condessa de Barral. O imperador se referia à viagem que realizou à província do Paraná no ano de 1880. “Em um momento crítico de seu governo – a década de 1880 assistirá ao recrudescimento das forças contrárias ao regime até seu esgotamento final em 1889 (…)” (PIRES, p.1). Os diários de D. Pedro II constituem um documento de grande importância:

O imperador escreveu 5500 páginas de diário, registradas a lápis em 43 cadernos. As anotações começam em 2 de dezembro de 1840, primeiro aniversário após a maioridade, e terminam no primeiro aniversário antes da morte. Há algumas interrupções, cujas causas são ignoradas (…) Mesmo com as falhas, seu diário só encontra paralelo, entre os governantes brasileiros, no de Getúlio Vargas (CARVALHO, 2007, p. 76).

O imperador manteve durante toda a vida o hábito de registrar suas atividades, afora em alguns momentos esparsos. O texto de orelha assinado por Miguel Sanches Neto afirma que o registro da visita de Pedro II ao Paraná se trata de um importante documento de identidade do Estado. O pequeno relato escrito pelo monarca constitui oportunidade de um recorte diferente para a história paranaense, o Paraná visto por D. Pedro II.

Entre as cidades visitadas pelo imperador estavam Paranaguá, Curitiba, Campo Largo, Palmeira, Castro e Ponta Grossa. O estilo de escrita do imperador é telegráfico. Apenas esporadicamente brota uma anotação menos técnica, uma observação aguda, um comentário interessante, uma expressão de sentimento (…) (CARVALHO, 2007, p. 77). Um relato das atividades diárias que envolvia recepções, visitas à escolas, onde por vezes costumava sabatinar os alunos, repartições públicas e padrões métricos dos prédios, observações sobre as potencialidades econômicas da província e impressões sobre alguns anfitriões. O prefácio de Francisco Marques dos Santos, realizado para a edição de 1959, enfatiza o aspecto abnegado do imperador que suportou as agruras da viagem muito melhor que os jornalistas bem mais jovens que acompanhavam a comitiva.

Vejamos algumas impressões do imperador e por onde passou. Em seus diários chama a atenção em especial o interesse de D. Pedro II pela educação. O imperador fazia questão de vistoriar as escolas e assistir aulas. Em Paranaguá: “(…) 19 de maio – As casas das escolas que vi não são más. Os professores bons. Das três professoras só regia uma substituta. Os alunos que interroguei por serem os melhores dos presentes responderam muito bem sobretudo um fulano Maravalha”(p. 12).

[Em Curitiba no dia 22 de maio] (…) Instituto Paranaense que ensina os preparatórios. Os estudantes – são poucos – responderam sofrivelmente. Casa pequena, e é ainda externato. As aulas de primeiras letras depõem contra o estado da instrução primária em Curitiba. Casas acanhadas para 120 alunos numa a duas – atraso no ensino e falta quase absoluta de doutrina religiosa (p. 17).

Em Campo Largo 24 de maio, “Aulas, uma de meninas e outra de meninos, não me agradaram” (p. 22).

[Em Palmeira 26 de maio:] A de meninos num corredor da matriz, onde se acham os padrões métricos mal conservados até por ser o lugar úmido. (…) A aula de meninas em casa pequena da professora, irmã do professor. Interroguei um aluno e uma aluna, ambos bastante inteligentes, que mostraram saber doutrina religiosa como nenhum outro da província (p. 25).

Em Ponta Grossa 27 de maio: “Aulas – não gostei. Nada de meninos até o decurião não soube fazer uma operação de dividir” (p. 28).

[Em Castro 29 de maio:] Às 7 horas estava na aula noturna de adultos. O mais velho tem 60 anos e o mais moço tem 13 anos. Notei que o professor que também o é da diurna de meninos não tinha já ensinado o indispensável da doutrina religiosa. O que interroguei somente sabia ler mal e somar assim como recitar muito mal o Credo e o Padre-Nosso. Não tinha escrita na aula. Animei o inspetor juiz de Direito Vasconcelos agenciar a subscrição para a casa de aulas. Ouvi-lhe que são duas bandas de música da cidade. [Em 30 de maio:] Dona Emilia Ericsen pareceu-me muito boa professora, contudo não ensinara ainda a doutrina ás meninas. O netinho dela leu bem, para o que estava preparado aliás, apesar de muito vivo. Os meninos mostraram pouco adiantamento; um, contudo, resolveu um problema de juros simples (p.33).

Lapa 31 de maio: “Aulas acanhadas. Na de meninas uma delas respondeu bem. O mesmo não sucedeu na de meninos – há duas – que visitei, regida pelo filho do secretário da câmara, aliás, bom professor” (p 38). E por fim, Antonina em 7 de junho: “Os professores e professora das aulas que o inspetor designou-me como melhores pareceram-me bons. Os chamados como melhores, embora recitem orações, não sabem explicá-las” (p. 46-47).

É de se notar o rigor com que o imperador cumpria suas obrigações e a atenção especial que dedicava à instrução. Considerando a formação rigorosa que teve em sua infância e a afeição que desenvolveu aos estudos é fácil compreender o interesse pela educação. “Mais do que hábito, a leitura, e estudo transformaram-se numa de suas paixões. Enfurnado no Palácio, longe dos pais, educado por estranhos (…) fez dos livros um mundo à parte em que podia isolar-se e proteger-se” (CARVALHO, 2007, p. 29). Ainda conforme José Murilo de Carvalho:

Pedro devia levantar-se todos os dias às 7 horas da manhã. O almoço seria as oito (…). Das nove às onze e meia devia estudar e então divertia-se até a uma e meia. O jantar era às duas da tarde (…). A conversa só poderia versar sobre assuntos científicos e de beneficência (…). O tutor preparou ainda (…) instruções a ser observadas pelos mestres (…). Era uma mistura de iluminismo, humanismo e moralismo (…) (CARVALHO, 2007, p. 26-27).

Dos três elementos elencados por Carvalho, podemos observar a saliência do moralismo. Ao que parece, como podemos depreender das citações, o imperador acreditava que a instrução religiosa, nesse caso cristã católica, era parte importante na formação do caráter dos jovens. Se o amor ao conhecimento e aos livros fazia parte da personalidade de D. Pedro II devido à sua formação, a importância acentuada à doutrina religiosa também tinha lugar cativo nas prioridades do monarca. Diante desse elemento, poderíamos nos sentir tentados a acreditar que o fato de que, nos dias atuais, a disciplina de ensino religioso grassar em escolas laicas é um fenômeno com longas raízes, mas a defesa de um argumento nesse sentido demanda tempo que não temos.

Alguns episódios políticos também ajudam a entender o fato de o imperador dar bastante importância à instrução. No seu retorno da Europa em 1877 o imperador conviveu com o dilema de como se daria a representação política do país. Uma série de alterações das regras eleitorais, seguidas de trocas de ministérios acabou, por final, a solapar o voto da maioria da população analfabeta. Ciente de que as eleições não refletiam a vontade do povo, a opinião do imperador era que o problema só se resolveria com a educação. Na sua visão o ensino primário devia ser obrigatório e generalizado.

Num período em que outros países já se preocupavam com a universalização da educação, no Brasil nenhuma iniciativa consistente nessa direção era tomada. O testemunho do imperador, então chefe de estado, em seu diário serve para corroborar essa afirmativa. Nove anos depois da vinda de Pedro II ao Paraná o Brasil se tornou ma república e políticas de universalização do da educação só foram tomadas no Brasil após a década de 1930 com Getúlio Vargas.

Destacamos apenas esse aspecto em prejuízo de tantos outros que bem podem ser explorados no diário de visita ao Paraná. Um texto que suscita várias questões dignas de serem respondidas. Qual tipo de narrativa que o imperador utiliza? A quem faz menção nos seus relatos e quais são implicações dessas pessoas figurarem no seu diário? Qual o sentido para a então província e para o Império da visita do imperador? E, talvez principalmente, como era o Paraná visto por D. Pedro II?

REFERÊNCIAS

CARVALHO, José Murilo. D. Pedro II, ser ou não ser. São Paulo: Cia das Letras, 2007.

DEL PRIORE, Mary. Condessa de Barral: a paixão do imperador. Rio de. Janeiro: Objetiva, 2008.

PIRES, João Ricardo Ferreira. Entre o viajar e o narrar: O olhar do viajante D. Pedro II em Minas Gerais (1881). Disponível em: <http://www.ilb.ufop.br/IIIsimposio/51.pdf> parágrafo 1. Acessado em: 01/12/2010.

1 Licenciado em história pela UEPR (Paranavaí) e mestrando em educação pela UEPG.

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