Pós-graduação Stricto sensu em Geografia: construções para a formação do Bacharel em Turismo

 

Maycon Luiz Tchmolo* , Fernanda Kiyome Fatori Trevizan**

publicado em 06/06/2011 como www.partes.com.br/turismo/geografiaeturismo.asp

Resumo

Em virtude da pequena oferta de mestrados na área, muitos Bacharéis em Turismo, que ambicionam a profissionalização acadêmica, buscam em outras ciências por programas stricto sensu para dar continuidade as suas pesquisas e qualificação profissional. Logo, por meio deste trabalho, buscou-se analisar a formação do Bacharel em Turismo e porque a ciência geográfica é a escolhida por muitos bacharéis que dão continuidade a sua profissionalização acadêmica.

Palavras-chaves: Pós-Graduação, Bacharel em Turismo, Geografia e Turismo.

Abstract 

Due to the small supply of Masters in the field, many Tourism Bachelors, who aspire to academic professionalization, seek in other sciences for graduate studies program to continue his research and professional training. Therefore, through this work, we have analyzed the formation of the Bachelor of Tourism and because science is the geographical choice for many graduates who are continuing their academic professionalization.
Keywords: Graduate, Bachelor of Tourism, Geography and Tourism.


INTRODUÇÃO

Sobre o ensino do turismo no Brasil, no nível de graduação, o patamar de crescimento de Instituições de Ensino Superior (IES) foi elevado durante o final do século XX e início do século XXI. Contudo, esta política de aumento de cursos de graduação não auferiu somente o turismo, mas também outras áreas, pois, de acordo com Trigo (2002) na gestão de Paulo Renato de Souza (1995-2002), o Ministério da Educação teve como política a ampliação na oferta de cursos de graduação no Brasil e, notou-se, o crescimento quantitativo destes cursos, contudo muitos com baixos padrões de qualidade. E, é a esse desenvolvimento qualitativo que Trigo entende como um desafio. Logo, questiona-se: a pequena oferta dos cursos de pós-graduação stricto sensu ocorre por estas ações mal planejadas que foram implantadas?

O turismo, nas sociedades atuais, corresponde a uma atividade multifacetada, que envolve um grande número de setores sociais. Dentro da academia, a produção do conhecimento turístico acontece de forma semelhante, pois envolve diversas áreas do conhecimento, entre elas a Geografia, Administração, História, entre outras; formando profissionais multidisciplinares. Tal como outros profissionais, os bacharéis em turismo também buscam a complementação de sua formação, por meio de pós-graduações, no entanto, a pequena oferta de pós-graduações em nível de mestrado (stricto sensu) no Brasil leva muito desses profissionais a prosseguir suas pesquisas em mestrados em que o Turismo é considerado uma área afim ou uma linha de pesquisa, como é o caso dos mestrados em geografia. A ciência geográfica faz parte da base teórica de formação dos profissionais em turismo, visto que pode ser considerada como umas das ciências de base para os estudos que são realizados acerca da atividade turística.

Portanto, o objetivo principal deste trabalho é refletir, a partir de pressupostos teóricos e dados de órgãos de ensino, sobre a diminuta oferta dos cursos, ora citados, o que impõe um obstáculo na continuidade acadêmica de um bacharel em turismo. Além disso, apontar as áreas que os turismólogos migram após o término de sua graduação com intuito de aperfeiçoar-se profissionalmente (stricto sensu – mestrados), bem como discutir a preparação do estudante de turismo na academia.

A metodologia utilizada neste trabalho é as análises teóricas e referenciais acerca da temática, como os dados da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (CAPES) e do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). O levantamento das informações foi realizado a partir da quantidade de cursos de pós-graduação stricto sensu existentes no Brasil, segundo cadastro na CAPES, tendo em vista uma discussão teórica sobre estes termos, buscando compreender as dificuldades de implantação de cursos de pós-graduação à nível de mestrado, visando alcançar os objetivos traçados nesta pesquisa.

PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU EM TURISMO: A POUCA OFERTA

Existe uma grande dificuldade de encontrar formas de mensurar o conhecimento obtido por estudantes de turismo durante a graduação no Brasil, o que gera impactos na oferta de um curso superior em turismo pelas universidades. De acordo com Ansarah (2002, p. 16)

Não se tem conhecimento absoluto a respeito do desenvolvimento da educação do turismo e de dados confiáveis da oferta de cursos, já que são relativamente recém-chegados à academia em contexto global. No Brasil, uma estrutura acadêmica ou institucional aceitável para tais cursos eram inexistentes e, portanto, seu desenvolvimento deu-se de maneira geral e não planejada.

É possível perceber que a educação do turismo no Brasil possui um grande obstáculo, ou seja, os cursos expandiram, sem, no entanto, apresentarem um planejamento coerente para uma boa qualidade de ensino, apenas focados na formação de profissionais para o mercado de trabalho, visando às expectativas de crescimento que eram impostas para o setor, caracterizando assim, um crescimento desordenado e sem qualidade dos cursos superiores em Turismo no Brasil.

Ansarah e Rejowski (1996) apresentam dados referentes ao ano de 1994, quando existiam 41 cursos de graduação, sendo eles: 32 em turismo (outros cursos em áreas afins como hotelaria ou turismo e hotelaria); e 13 em pós-graduação, contudo apenas um a nível de mestrado. Durante o período entre os anos de 1994 e 1996, os cursos de graduação atingiram a quantidade de 52. Em um espaço de dez anos, compreendido entre os anos de 1996 a 2006, nota-se que os cursos de turismo tiveram um crescimento alarmante, pois com base nos dados do INEP, através do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (ENADE), em 2006, participaram da avaliação de ensino 397 cursos de graduação em turismo e afins.

Porém, muitos cursos ainda não possuem o registro do Ministério da Educação (MEC), ou então, estão funcionando na procura de reconhecimento dos seus cursos.

Mostra-se a quantidade de cursos de graduação, procurando estabelecer um elo e entender o porquê da tão pouca oferta dos cursos de pós-graduação stricto sensu, em conformidade com a grande quantidade de cursos de graduação. De acordo com a CAPES (2010), tendo como grande área as ciências sociais aplicadas, e como principal área o turismo, são apenas seis mestrados acadêmicos (sendo que um é mestrado profissional1) e nenhum programa de doutorado. Dentre os mestrados em turismo ofertados no Brasil têm-se: os programas em Turismo da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (Natal) e da Universidade de Caxias do Sul (RS); o programa em Turismo e Hotelaria da Universidade do Vale do Itajaí (SC); o programa em Turismo e Meio Ambiente do Centro Universitário Una (MG); o programa em Hospitalidade da Universidade Anhembi Morumbi (SP); e o programa em mestrado profissional em Turismo da Universidade de Brasília (DF).

Logo, quando os estudantes de turismo percebem esta realidade, veem a necessidade de migrar para outras áreas de conhecimento, e uma das áreas encontradas é a geografia, principalmente, por ser a ciência que está mais relacionada aos fenômenos que acontecem no espaço, sendo o turismo um destes.

Rejowski (1996, pp. 18-19) afirma que o turismo “por ser um fenômeno de múltiplas facetas, penetra em muitos aspectos da vida humana, quer de forma direta, quer indireta. Conseqüentemente, têm-se desenvolvido métodos e técnicas de diversas disciplinas […]”, seguinte a este pensamento, a autora salienta que a geografia é uma das poucas áreas que o estudo do turismo reconhece como área de interesse.

As relações que se são constituídas entre o turismo e a geografia tornam-se mais explicitas na academia, uma vez que diversos pesquisadores do turismo se apropriam de conceitos e terminologias da geografia para justificar e/ou explicar seus objetos de estudo; e também em virtude de o conhecimento turístico ser multidisciplinar. A geografia estuda as relações que ocorrem dentro de um espaço, que são características da atividade turística e, objetos de estudo das pesquisas acadêmicas. Assim, as pesquisas em turismo na área da geografia abrangem algumas tipologias que são mencionadas por Rejowski (1996, p. 47) citando o exposto por Meyer-Arendt: “a) estudo da paisagem: […]; b) estudos espaciais: […]; c) estudos de percepção: […]”

Contudo, estes tipos de estudos do turismo dentro da geografia são apenas um fragmento das pesquisas que podem existir durante o processo de pós-graduação, pois quando os bacharéis em turismo ingressam em um programa stricto sensu em geografia, notam que o universo é mais amplo, deste modo necessitam possuir uma visão holística dos fatos que rodeiam o fenômeno turístico.

A geografia, durante a formação do bacharel em turismo, contribui para a construção do profissional (tanto na graduação quanto nas pós-graduações) quando leva discussões e reflexões acerca do espaço, da formação de territórios (cultural, social, econômico) e das relações (de poder e sociais) que ocorrem entre os diversos agentes incluídos tanto no mercado quanto na academia. Dessa forma, para compreender as contribuições da ciência geográfica para os profissionais do turismo, é necessário abranger as definições e relações que cada uma dessas discussões traz para o desenvolvimento de pesquisas e estudos sobre o turismo, sendo elas desenvolvidas por bacharéis em turismo dentro de programas de pós-graduação (stricto sensu) em Geografia.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O Brasil conheceu uma época de grande crescimento desordenado dos cursos superiores em Turismo, sendo que tal crescimento foi acompanhado pela quantidade e não pela qualidade, o que acarretou na formação de profissionais com diversas deficiências acadêmicas, entre elas a falta de preparo para darem continuidade as suas pesquisas em níveis stricto sensu ou até mesmo em lato sensu. Este boom que ocorreu nos cursos de graduação não aconteceu com relação aos programas de pós-graduação em Turismo, obrigando muitos bacharéis a procurarem em outras ciências a possibilidade de profissionalização em mestrados.

Portanto, esta discussão sobre a pouca oferta de cursos de pós-graduação stricto sensu em turismo e as contribuições da ciência geográfica para a formação do bacharel em turismo, é apenas um princípio de pesquisa sobre este acontecimento presente. Deste modo, a continuidade deste trabalho faz-se necessária, e sua etapa posterior, investigará os benefícios que a geografia traz ao turismo, a partir de uma pesquisa prática com entrevistas com bacharéis em turismo e mestres em geografia, bem como com docentes da geografia que auxiliaram estes indivíduos no processo de sua formação. Entretanto, o que se pretende não é encerrar discussões sobre o tema, mas abrir um leque para novas discussões e altercações sobre o assunto.


REFERÊNCIAS

ANSARAH, M. G. R. Formação e capacitação do profissional em turismo e hotelaria: reflexões e cadastro das instituições educacionais no Brasil. São Paulo: Aleph, 2002.

ANSARAH, M. G. R.; REJOWSKI, M. Panorama do ensino em turismo no Brasil: graduação e pós-graduação. In: Turismo e Análise, v. 7, n. 1, pp. 37-38, maio 1996.

BRASIL. Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (CAPES). Relação de cursos recomendados e reconhecidos. Disponível em:<http://conteudoweb.capes.gov.br/conteudoweb/ProjetoRelacaoCursosServlet?acao=pesquisarGrande Area> Acesso em: 1º de setembro de 2010.

BRASIL. Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (CAPES). Disponível em: <http://www.capes.gov.br/servicos/sala-de-imprensa/36-noticias/3514-capes-lanca-edital-para-novos-cursos-de-mestrado-profissional> Acesso em: 1º de setembro de 2010.

BRASIL. INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO TEIXEIRA (INEP). Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes – ENADE, 2006. Brasília: INEP, 2007. Disponível em: <http://www.inep.gov.br/download/enade/2006/rela
torios/turismo_relatoriofinal.pdf/> Acesso em: 31 de agosto de 2010.

REJOWSKI, M. Turismo e pesquisa científica: pensamento internacional x situação brasileira. Campinas: Papirus, 1996.

TRIGO, L. G. G. Prefácio. In: ANSARAH, M. G. R. Formação e capacitação do profissional em turismo e hotelaria: reflexões e cadastro das instituições educacionais no Brasil. São Paulo: Aleph, 2002


* Bacharel em Turismo pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (campus de Irati). Mestrando em “Gestão de Território” pela Universidade de Ponta Grossa. E-mail: mayconlt@hotmail.com

** Bacharel em Turismo pela Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul. Mestranda em “Gestão do Território” pela Universidade de Ponta Grossa. E-mail: nandapotter_hp@hotmail.com

1 Mestrado profissional: “[…] visa a formação pós-graduada stricto sensu de recursos humanos para atuar nos setores não acadêmicos, fazendo assim que estes profissionais qualificados tenham o exercício da prática profissional avançada e transformadora de procedimentos para atender demandas sociais, organizacionais e do mercado de trabalho, bem como possam transferir conhecimento para a sociedade, atendendo demandas específicas e de arranjos produtivos com vistas ao desenvolvimento nacional, regional ou local.” (CAPES, 2010, s/p).

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