A atividade turística em comunidades: o desenvolvimento do turismo de base comunitária

Luana Maria Baldissera; Poliana Fabíula Cardozo
publicado originalmente em 05/07/2011 como <www.partes.com.br/turismo/poliana/turismodebasecomunitaria.asp>

Poliana Fabiula Cardozo é bacharel e Mestre em Turismo (Unioeste/UCS), doutoranda em Geografia (UFPR). Docente da disciplina de Planejamento e Organização do Turismo para a Universidade Estadual do Centro-Oeste (Irati, Pr) e pesquisadora na modalidade continuada na mesma IES.

O turismo de base comunitária é um modelo novo de turismo, que vem propondo diferentes ideias sobre o modo de viajar, voltado a troca de informação entre o visitante, o visitado e o local. Contrapõem-se ao turismo de massa, que a cada dia vem gerando mais problemas nos destinos e consequentemente aos moradores.
Como o próprio nome diz, o turismo de base comunitária está sendo desenvolvido em comunidades com o propósito de mostrar aos turistas como vivem essas comunidades e sua cultura. Mas, qual é a diferença entre comunidade e sociedade?
Por comunidade pode-se entender um grupo de pessoas que convivem no mesmo espaço, entre amigos, família, vizinhos que se relacionam através dos sentimentos pessoais, compreendido entre eles. Tönies (1855-1936) clássico autor da sociologia, (apud MIRANDA, 1995, p.231) a define como

Tudo aquilo que é partilhado, íntimo, vivido exclusivamente no conjunto, será entendido como a comunidade […] Na comunidade há uma ligação entre os membros desde o nascimento, uma ligação entre os membros tanto no bem-estar quanto no infortúnio.

As mais antigas formas de comunidade, já demonstravam estas características. Vivendo em pequenos espaços territoriais, tinham as normas sociais medidas e colocadas em prática, por meio das tradições, hábitos, costumes e religião que cada um seguia fielmente, de acordo com Melo (2010, s/p.). Muitas delas seguem as tradições e os costumes até os dias de hoje, repassando de geração em geração como é conviver em conjunto e a importância que isto representa à comunidade.
Para Melo (2010, s/p.), a comunidade pode ser definida a partir de três bases: a base territorial, emocional e a comunalidade. A base territorial nada mais é, do que o lugar em que a comunidade está inserida geograficamente, indispensável para a aproximação e para a relação entre as pessoas. O emocional demonstra a intimidade, a confiança em que cada um tem pelo o outro, e a comunalidade representa a relação de semelhança entre os indivíduos que convivem juntos, ou seja, que compartilham coisas em comum.
De acordo com que foi exposto por Melo (2010, s/p.), nota-se a necessidade que todos temos de conviver em comunidade, sem deixar de viver na sociedade. Mas, mesmo tendo esta necessidade, não quer dizer que as pessoas deixem de viver em sociedade. Assim, segundo o mesmo autor, as pessoas passam por diferentes momentos no seu dia-a-dia, nos quais, hora vivem como comunidade e hora como sociedade.

Na nossa vida cotidiana, a todo momento nos encontramos em meio a estas vertentes: ora somos membros de uma família, cujos laços são afetivos; ora somos membros de um grupo social, para o qual temos uma relação comunitária; mas, ao mesmo tempo, somos membros de uma sociedade mais ampla, na qual somos cidadãos, trabalhadores, e, portanto, fazemos parte da divisão social do trabalho, competimos por vagas de emprego, vestibulares etc., nos colocando em relações de oposição com relação a outras pessoas.

Na sociedade é possível encontrar várias formas de viver em comunidade, porém mesmo que os laços afetivos falem mais alto, deve-se obedecer a leis, competir por vagas de empregos, como dito pelo autor, ou seja, as pessoas continuam vivendo em sociedade. Segundo Tönies (apud Miranda, 1995, p. 252): “Enquanto na comunidade, os homens permanecem essencialmente unidos, a despeito de tudo o que os separa, na sociedade eles estão essencialmente separados, apesar de tudo que os une”.
Conforme foi visto, a comunidade é toda a forma do convívio em um grupo, onde os valores, costumes, interesses comuns são seguidos, criando um elo entre os seus membros. Já na sociedade, nota-se características diferentes, destacam-se, a forma individualista e egoísta que as pessoas vivem.
Após estes conceitos, verifica-se as características que estão presentes em cada uma delas e o modo como elas exercem estas perante os indivíduos. Sendo a sociedade mais aberta para a construção e realização de algumas atividades como o turismo. Já a comunidade, unida e mais fechada, dificulta a entrada de novas atividades, porém algumas delas têm aberto seu espaço para receber a atividade turística.
Apresenta-se assim, o novo conceito de turismo que está surgindo, preocupado com os danos que podem ser causados na comunidade, utilizando-se de métodos eficientes como o planejamento turístico, o turismo de base comunitária.
Modo diferente de viajar, fugindo dos grandes centros e dos destinos badalados, o turismo de base comunitária traz algo diferente a ser apresentado, onde os valores culturais, ambientais, sociais são os pontos fundamentais para sua existência, buscando contrapor os valores supérfluos, como o consumo desnecessário de objetos, roupas, alimentos, etc. Esta questão vem sendo muito debatida nos dias de hoje, principalmente por este consumo, prejudicar o meio ambiente. Para uma melhor compreensão, Bursztyn, Bartholo e Delamaro (2009, p. 86, grifo dos autores) explicam o assunto “O turismo alternativo de base comunitária busca se contrapor ao turismo massificado, requerendo menor densidade de infraestrutura e serviços buscando valorizar uma vinculação situada nos ambientes naturais e na cultura de cada lugar […]”.
A partir da explicação, nota-se que é possível o desenvolvimento de locais sem grandes atrativos, hotéis, resorts, mas que mantém os valores simples da vida, que vem se perdendo com a modernização e a globalização das sociedades. Zaoual (2009, p. 55), confirma: “as observações empíricas mostram bem que a demanda vira as costas, cada vez mais, ao turismo de massa e de grande distância”.
Pode-se compreender que o turismo comunitário, desde o momento em que surgiu, tem a pretensão de trazer algo novo aos olhos dos turistas, mudando o modo como as comunidades são vistas e tratadas. Portanto, Bursztyn, Bartholo e Delamaro (2009, p. 86) o definem a partir de suas características:

Esse turismo respeita as heranças culturais e tradições locais, podendo servir de veículo para revigorá-las e mesmo resgatá-las. Tem centralidade em sua estruturação o estabelecimento de uma relação dialogal e interativa entre visitantes e visitados. Nesse modo relacional, nem os anfitriões são submissos aos turistas, nem os turistas fazem dos hospedeiros meros objetos de instrumentalização consumista.

Pensar desta forma, permite que a comunidade se desenvolva turisticamente sem gerar danos físicos, psicológicos e sociais. Trabalhar assim, não só para o turista, mas para a comunidade, expõe a preocupação que os moradores têm em resguardar a cultura, a tradição, o ambiente e a identidade do seu povo. Quanto mais unida e mais independente economicamente a comunidade for, é mais difícil de ela ser desestruturada, pois entre os moradores existe um laço que os une.
Para tanto, a comunidade necessita do desenvolvimento turístico que venha cooperar com a atividade, trazendo melhorias ao local e preparando os moradores a receber os turistas de forma a elevar os pontos positivos da comunidade.
Entende-se que para o bom desenvolvimento turístico, o local não pode prescindir do planejamento turístico. Ruschmann (1999, p. 100) acredita no planejamento turístico integrado que, segundo ela, tem por objetivo “[…] o desenvolvimento coerente dos elementos físicos, econômicos, sociais, culturais, técnicos e ambientais, para satisfação de turistas e empresários […]”.
Como atividade abrangente e interdisciplinar, o turismo necessita de novas formas de se planejar, sem que o foco seja apenas econômico e/ou físico. Por isso, o planejamento integrado através de outros elementos, se torna uma chave importante para que o local possa se desenvolver com qualidade, gerando mais satisfação ao turista e para a comunidade.
Tal benefício pode ser alcançado no momento em que se tem um planejamento interessado em desenvolver não somente a economia do local, que se preocupa com o desenvolvimento social, cultural e ambiental. Já Tavares e Araujo (2008, s/p) defendem a ideia de que a comunidade pode melhorar o padrão de vida (desenvolvimento econômico) seguindo um planejamento bem elaborado.
A partir da execução de um planejamento bem elaborado, espera-se um olhar por parte da comunidade, não só para o desenvolvimento econômico, mas para com a melhora na qualidade de vida e a vontade por parte dos moradores de participar e desenvolver o turismo. Encontra-se aí, a necessidade dos moradores utilizarem o planejamento, de forma a elevar os benefícios que a atividade pode trazer.
Se o contrário acontecer, a comunidade não se preparar para receber o turista, ela pode sofrer sérios danos, como o exposto por Butler (1980 apud Ruschmann, 1999, p. 103) no ciclo das destinações turísticas. Iniciada com a fase da exploração, objetivando o lucro, a população local demonstra algumas facilidades para os primeiros visitantes criando um mercado forte e fiel.
A próxima fase encontrada no ciclo é a do desenvolvimento, na qual a população deixa de participar e ter o controle dos empreendimentos. São criados pelas organizações externas mais empreendimentos que incentivam a entrada de mais visitantes. Na consolidação o domínio já é das empresas e serviços multinacionais, cuja participação permite controlar os custos e manter a competitividade com as outras destinações.
A saturação é a fase em que a demanda alcança seu apogeu, aí a destinação começa a decair na preferência dos turistas. Precisando de turistas, os preços baixam e passam a atrair a demanda de menor poder aquisitivo, dando margem ao turismo de massa. O local começa a perder sua atratividade, pois as atrações envelhecem e saem de moda. Começa aí a fase do declínio, porém, se o destino quiser recomeçar é possível, através da fase do rejuvenescimento. (BUTLER, 1980 apud RUSCHMANN, 1999, p. 103).
Este ciclo permite que se tenha um olhar mais crítico quanto ao desenvolvimento das destinações turísticas. Nota-se, que muitas vezes deseja-se o crescimento da atividade, porém  deixa-se de lado o planejamento para obter o lucro, os investidores de fora acabam possuindo grande parte dos empreendimentos e exploram de todas as formas possíveis o local e seus habitantes para atrair turistas.
Através do planejamento turístico bem elaborado é possível verificar o surgimento de novas formas de se desenvolver o local, pensando no local e nos moradores. Entretanto, para que o desenvolvimento aconteça de modo a resguardar a comunidade, é preciso que ele seja totalmente voltado, pensado e planejado para ela, do mesmo modo que para os turistas. Assim, para Antunes (2006) “[…] a possibilidade de um desenvolvimento bem-sucedido só é possível a partir da elaboração de um planejamento turístico que utilize as investigações no sentido de priorizar os interesses dos moradores fixos”.
O desenvolvimento no local trará maiores benefícios para os moradores a partir do momento que eles sejam incluídos ou se incluam no processo de planejar, ou seja, que eles tenham um espaço para demonstrar suas ideias, só assim eles poderão conhecer e aceitar as mudanças pretendidas.
Para um desenvolvimento planejado é preciso que se tenham os olhares voltados aos moradores, que se olhe como um deles, enxergando suas preocupações, suas deficiências, seus problemas. Desta forma o desenvolvimento trará consequências boas ao local e principalmente aos moradores.
Mello (2007, s/p) explica a importância do papel do turismo enquanto propulsor do desenvolvimento na localidade, segundo ele, o turismo como propulsor do desenvolvimento local deve pensar em atender o respeito aos valores culturais e sócio -ambientais, enriquecer o aprendizado dos moradores locais, assim como, eliminar preconceitos entre a demanda e a população anfitriã.
Como visto, o turismo de base comunitária, surgiu para desenvolver a atividade turística em comunidades que tem potencial para tal atividade, mas que muitas vezes deixam-se influenciar somente por fatores econômicos (lucro) e acabam esquecendo de seus moradores, sua cultura e do próprio destino. A partir de sua implantação, espera-se que a atividade seja pensada de forma a valorizar os moradores, sua identidade cultural e o próprio local, que estará pronto para receber os turistas, de forma minimizar os impactos negativos e elevar os positivos.

REFERÊNCIAS

ANTUNES, Rogéria. Desenvolvimento Turístico: Um olhar sobre as comunidades receptoras. In: Ruschmann, Doris. Solha, Karina Toledo (orgs). Planejamento turístico. Barueri, SP: Manole, 2006.

BRASIL, MINISTÉRIO DO TURISMO. Turismo de base comunitária: diversidade de olhares e experiências brasileiras. Roberto Bartholo, Davis Gruber Sansolo e Ivan Bursztyn (orgs). Letra e Imagem, 2009.

BURSTYN, Ivan. BARTHOLO, Roberto. DELAMARO, Maurício. Turismo para quem? Sobre caminhos de desenvolvimento e alternativas para o turismo no Brasil. In: Roberto Bartholo, Davis Gruber Sansolo e Ivan Bursztyn (orgs). Turismo de base comunitária: diversidade de olhares e experiências brasileiras. Brasília. Letra e Imagem, 2009.

MIRANDA, Orlando. Para ler Ferdinad Tonnies. ______ (org). São Paulo: Ed. Universidade de São Paulo, 1995.

MELO, Alessandro de. Relação escola e comunidade. Ed. Mimeo, 2010.

MELLO, Luis A. Análise reflexiva acerca da relação entre Turismo e desenvolvimento local: bases conceituais, 2007. Revista Espaço Acadêmico. Disponível em  http://www.espacoacademico.com.br/072/72mello.htm. Acesso em 02/06/2010.

RUSHMANN, D. Turismo e planejamento sustentável: a proteção do meio ambiente. 4 ed. Campinas: Papirus, 1999.

TAVARES, G. Cunha. ARAÚJO, José Luis Lopes.  Pequenas localidades: um estudo da utilização da lagoa do cajueiro,localizada nos municípios de Joaquim pires e luzilândia (pi), pelas suas comunidades do entorno, 2008. Disponível em http://www.cdvhs.org.br/sispub/imagedata/1893/sits/files/O%
20TURISMO%20COMO%20PROPULSOR.PDF. Acesso em 07/06/10.

ZAOUAL, Hassan. Do turismo de massa ao turismo situado. In: Roberto Bartholo, Davis Gruber Sansolo e Ivan Bursztyn (orgs). Turismo de base comunitária: diversidade de olhares e experiências brasileiras. Letra e Imagem, 2009.

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