Uma história de arrepiar

Pedro Coimbra

            Valdomiro aproveitou que a mãe dormia e colocou de qualquer jeito algumas peças de roupa numa velha mala de papelão e amarrou com um cinto já gasto, sem fivela.

            Despediu-se de Dona Clô com um olhar e saiu do casebre.

            Andando rápido dirigiu-se para a Estação Ferroviária e tomou o noturno para Barra Mansa. De lá pegou carona numa carreta e logo avistou o Rio de Janeiro, a Cidade Maravilhosa dos seus sonhos.

            O dono de um botequim indicou-lhe um pardieiro para se hospedar.

            Começou a bater perna procurando um emprego, mas logo viu que não seria fácil.

            Meio desiludido passou a fazer uma coisa que estremeceria Dona Clô, tomando pinga pura ou com limão em diversos bares  ou botequins.

            Sentia-se sozinho no mundo, já que seus planos de ganhar bem e voltar realizado para casa não se realizavam.

            Sentia pavor só em pensar em retornar para a casinhola de Dona Clô e confessar que furtara o suado dinheirinho que ela ganhava lavando malas e malas de roupas para freguesas selecionadas.

            “Todo este sofrimento teria que ter fim um dia”, pensava.

            E foi o que lhe aconteceu. Em uma praça encontrou Epaminondas, um homem gorducho, de cabelos louros, calva avançada, óculos de armação arredondada e dentes bastantes estragados.

            Era mineiro também,havia publicado um livro com seus próprios recursos e viera para a cidade grande tentar a sorte em uma editora.

            Não conseguiu nada e acabou tornando-se vendedor de um sistema de loteria popular.

            – Não tem nada com o jogo de bicho –  ele advertiu para o recém amigo que já chamava de Miro.

            Levou-o a morar num pequeno apartamento na Galeria Alaska, em Copacabana.

            Agitado ensinou-lhe todos os macetes para passar os possíveis compradores para trás.

            – Os cariocas pensam que são muito espertos e aí está sua fraqueza – afirmava.

            Miro começou a trabalhar com afinco e logo passava o professor para trás.

            No apartamento observava Epaminondas, que muitas vezes trazia rapazinhos para seu quarto, demonstrando que não gostava de mulheres.

            Nestes momentos, por um acordo tácito, Miro saia para a galeria e suas tentadoras boates e inferninhos.

            Numa delas encontrou Iracema, uma morena de cabelos longos, lisos e negros, emoldurando um corpo escultural.

            Miro estava tão chapado, pois já bebera muito, que não notou nenhuma diferença na mulher, por quem se apaixonou perdidamente.

            Epaminondas não gostou nem um pouco quando ele lhe disse que iria sair do apartamento e morar com Iracema.

            Sua decepção maior ocorreu dias depois quando soube que ele abandonara o emprego na loteria popular.

            Em 13 de agosto de 1965, uma data que para Miro parecia meio azarada, ele e Iracema, partiram para Belo Horizonte, em um retorno que nem mesmo ele não conseguia explicar.

            De maneira muito rápida Iracema tornou-se o grande sucesso da zona boêmia da Capital das Alterosas, queridinha de políticos e até mesmo de coronéis do Norte de Minas que vinham conferir sua fama.

            Miro ficava todas as noites pelos botequins, se embriagando, e demonstrando uma certa tristeza com tudo que lhe acontecia.

            Escreve uma carta para Epaminondas com uma única e enigmática frase: “ O que tiver de ser, será”.

            Três meses depois da chegada triunfal a Belo Horizonte, Iracema e Miro desapareceram do hotel e da vida noturna.

            Por um destes casos raros, um repórter investigativo do jornal “Estado de Minas”, começou a procurá-los e publicar o que apurava em doses homeopáticas.

            Uma semana após o corpo de uma mulher, com as características de Iracema, mas esquartejado, foi encontrado em uma mala jogada no Arrudas.

            A necropsia indicou que Iracema não era mulher. Apesar de todos os atributos femininos era um homem.

            Delegado Dirceu, presidente do inquérito, recebeu uma carta de Miro em que ele confessava seu amor por Iracema e dizia que de repente ela se transformara em um vampiro.

            “E os vampiros não tem sexo. E nos sugam tudo o que temos de bom”, dizia.

            Miro foi preso no começo de 1966, no casebre de Dona Clô, sua mãe, transformado num farrapo de homem, como narrou de forma um tanto quanto poética o Delegado Dirceu.

            O Valdomiro cuja ambição era melhorar de vida morreu no Manicômio Judicial, onde diziam que tinha pesadelos horrorosos com Iracema e vampiros…

            O romance “Uma história de arrepiar” tornou-se o grande sucesso de Epaminondas que o dedicou a seu amigo Miro.
             

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