O processo de individuação humana em uma perspectiva histórico-social: notas para uma reflexão

Josélia Gomes Neves

publicado em 02/08/2011 como www.partes.com.br/educacao/joselianeves/individuacao.asp

 

Josélia Gomes Neves Possui graduação em Pedagogia pela Fundação Universidade Federal de Rondônia (1989) – UNIR, especialização em Psicopedagogia (UCAM) e Mestrado em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente pela UNIR (2004). Atualmente é professora assistente da Fundação Universidade Federal de Rondônia – UNIR. Leciona no Curso de Pedagogia. Estuda e pesquisa na área da Educação e Alfabetização Intercultural, Educação Escolar em contextos indígenas, Didática Etnoambiental, Relações Sociais de Gênero/Currículo. Desde janeiro de 2007 é aluna do Curso de Doutorado em Educação Escolar da UNESP – Campus de Araraquara.
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Resumo: O referido texto tem como finalidade apresentar uma elaboração a partir da compreensão do processo de individuação humana numa visão histórico-social tendo como referência a leitura do romance de Máximo Gorki, A mãe (1907) e o diálogo com as contribuições de Heller (1977) e Duarte (1999).

Palavras-chave: Formação Humana, Atividade cotidiana, Atividade não-cotidiana, Atividade Consciente.

O livro A Mãe do escritor russo Máximo Gorki foi escrito em 1907 na Itália, por ocasião do seu exílio. Trata da narrativa sobre o modo de vida de um grupo de pessoas de um bairro operário russo, com destaque para a história de uma das famílias, a da viúva Pelagueia Nilovna e seu filho, o jovem Pavel. O romance apresenta várias trajetórias de vida, os conflitos pelos quais passam e o rumo que alguns personagens dão em direção a uma nova forma de compreender o mundo através da militância política. Segundo Frei Beto, prefaciador da 3ª edição, o referido livro foi escrito tendo como base fatos da realidade manifestos no 1º de maio de 1902 em Sormovo. Esta obra é considerada uma obra de referência da literatura soviética.

Conforme o desenvolvimento da história, observamos que quem primeiro passa a participar da luta revolucionária, a partir da leitura, dos fóruns de discussão e das mobilizações populares é o filho Pavel. Analisamos que mesmo sem ter muita compreensão inicialmente do processo, a mãe, Pelagueia, aos poucos vai se envolvendo no contexto e do ponto de vista formativo – ao adquirir novos elementos de entendimento da sua realidade, aprende a interpretar e a intervir na mesma. Não é objetivo deste trabalho apresentar um resumo exaustivo do livro de Máximo Gorki, já que recomendamos sua leitura. Neste sentido passaremos a discorrer sobre os recortes que destacamos da obra no intuito de relacioná-las aos textos discutidos por ocasião da disciplina Concepções epistemológicas do trabalho educativo. Estes recortes referem-se as seguintes questões: trabalho, gênero, violência e cotidiano, a nosso ver, categorias importantes que são desenvolvidas no decorrer da obra.

I – O trabalho:

À noite, quando o sol se punha e os raios vermelhos brilhavam nas janelas das casas, a fábrica vomitava das suas entranhas de pedra aquelas escórias humanas e os operários, caras negras de fumaça dentes brilhantes de fome espalhavam-se de novo pelas ruas, deixando no ar exalações viscosas do óleo das máquinas. (p.12)

Na perspectiva marxista, dentre outros aspectos, o trabalho constitui um fator importante da vida cotidiana, pois possibilita a sustentação da existência do ser humano; assegura tanto a reprodução do indivíduo, que é o labour, como a reprodução da sociedade, o work, o que compõe a sua dupla referência. Trata-se, pois da relação concreta entre a vida cotidiana e as atividades genéricas, conscientes (HELLER, 1977 apud DUARTE, 1999).

Assim, nesta visão o trabalho é a atividade vital do ser humano (MARX, 1989), “é aquela que reproduz a vida […]”, (DUARTE, 1999, p. 28) a base que alicerça a realização do seu gênero, a vida produtiva. Em suma, refere-se a atividade livre, consciente, constitui o caráter genérico do ser humano, característica esta que diferencia a espécie humana dos demais animais.

Entretanto, para Marx na sociedade capitalista, o trabalho torna-se algo estranho e alienado ao trabalhador, na medida em que as relações sociais de produção colocam em lugares e interesses diferentes, o capital e o trabalho. Assim no contexto histórico, o desenvolvimento das chamadas forças produtivas e das relações de produção acabaram por criar uma contradição dialética no que se refere a apropriação do trabalho pelo capital.

Essas relações de produção estabelecidas impossibilitam o caráter genérico do ser humano à realização da sua atividade vital. Desta forma, ao invés do trabalho ser algo livre e consciente para o trabalhador, ele acaba perdendo sua principal característica: limita-se a ser apenas um meio de vida, uma mera forma de assegurar a sua sobrevivência como indivíduo.

Neste sentido, a personagem Pelagueia, a mãe, figura central no romance de Máximo Gorki, ao se referir à difícil relação que tinha com o marido, que morre logo no início do romance, evidencia que o trabalho pode se limitar à exclusiva necessidade de reprodução do indivíduo, traduzido no fragmento: “Todas as minhas preocupações, todos os meus pensamentos se orientavam para uma só coisa: dar de comer á minha fera, para que ficasse satisfeito e farto, servi-lo a tempo, para que não se encolarizasse, para que não me moesse de pancada, para que me poupasse ao menos dessa vez”. (p. 115). Nesta perspectiva, as contribuições de Duarte, informam que os ganhos advindos da produção do trabalho não são compartilhados na mesma dimensão por todos e todas:

O trabalho de milhões de seres humanos tem possibilitado que objetivações humanas como a ciência e a produção material gerassem, neste século, possibilidades de existência livre e universal sem precedentes na história humana, mas isso tem se realizado de forma contraditória, pois estas possibilidades têm sido geradas às custas da miséria, da fome, da ignorância, da dominação e mesmo da morte de milhões de seres humanos”. (DUARTE,1983, p. 16)

Desta forma, o trabalho e sua relação com a alienação são recorrentes em toda a obra de Gorki. Sobre a alienação, adotamos o entendimento de Marx (1989, p 161-162), cuja explicação é: “[…] Em que consiste a alienação do trabalho? Em primeiro lugar, o trabalho é exterior ao trabalhador, quer dizer, não pertence a sua natureza; portanto, ele não se afirma no trabalho, mas nega-se a si mesmo, não se sente bem, mas infeliz, não desenvolve livremente as energias físicas e mentais, mas esgota-se fisicamente e arruína o espírito. […]” Esse mal estar apontado pelo autor se manifesta na vida cotidiana que se apresenta sem perspectiva para os trabalhadores fabris, descritos na bela e triste narrativa abaixo: “A fábrica tinha devorado a jornada, as máquinas tinham sugado dos músculos dos homens todas as forças de que tiveram necessidade. Um dia mais tinha sido riscado da vida deles; os homens tinham dado mais um passo para o túmulo […]” (p. 12).

Para Heller (1982) citada por Duarte não existe vida humana sem vida cotidiana, no entanto o desenvolvimento de uma pessoa não acontece efetivamente se sua vida ficar limitado o tempo inteiro à esfera do cotidiano, pois haverá redução dos processos de apropriação e objetivação. Daí que “[…] quanto menos alienada for a vida cotidiana, mais ela fornecerá as condições para os momento nos quais ocorra o processo de homogeneização, o processo de ‘saída’ da vida cotidiana” (1999, p. 65).

Um aspecto que se evidencia ao estudarmos o conceito de trabalho na concepção marxista, é que o trabalho como labour ou labuta não contribui para o desenvolvimento do ser humano, já que ‘[…] produz deformidade para o trabalhador’ (MARX, 1989 apud DUARTE, 1999, p. 47). Assim o trabalho barbarizado apresenta como consequência a violência produzida pelas condições de vida extremamente precária dos personagens do romance A Mãe, que não só se perpetuam em toda a vida dos trabalhadores, mas também se reproduzem nas relações com outras pessoas, em especial às mulheres, pois:

Nas suas relações dominava uma animosidade escondida, incurável como a fadiga de seus músculos. Nasciam com esta doença da alma que herdavam dos pais e que os acompanhava como uma sombra negra até o túmulo e os fazia cometer atos odiosos de inútil crueldade. […] Quando chegavam em casa, os homens zangavam-se com as mulheres e muitas vezes batiam-lhes sem pouparem os punhos” (p. 13)

Estes comportamentos dão pistas do processo de alienação a qual muitas vezes as pessoas estão submetidas, na condição de indivíduos em-si, não se dão conta, por exemplo, de que suas vidas estão sendo arrastadas pelo cotidiano, que sua capacidade de construir escolhas está sendo limitada e as explicações disponíveis se apoiam quase que exclusivamente na naturalização dos fatos, conforme aponta Duarte:

O indivíduo em-si alienado não conduz a vida cotidiana, mas é por ela conduzido. Assume como ‘natural’ a hierarquia espontânea das atividades cotidianas que encontra pronta em seu meio social imediato, hierarquia essa determinada pelas relações sociais, desde as relações de produção, até as relações mais imediatamente relacionadas à sua posição no quadro das relações alienadas. (DUARTE, 1993, p. 196)

Um modelo de formação de indivíduo em uma visão de mundo liberal eterniza o processo de alienação na medida em que leva em conta apenas a necessidade de adaptação do indivíduo, impedindo-o, neste sentido de superar a individualidade em-si e consequentemente de garantir a apropriação do gênero humano, conforme ilustra a transcrição que segue: “Que proveito se tira deste trabalho? Seja como for, nunca comemos à vontade. Os filhos vêm ao mundo, não temos tempo de vê-los crescer, por causa do trabalho que nem sequer dá pão (p. 350).

Entretanto a formação do ser humano, enquanto ser genérico passa pela formação do indivíduo como um ser social. Duarte (1993) explica que este processo se dá mediante a constituição da socialidade, aspecto este que se desenvolve no interior das relações de dominação, relacionada também no fenômeno da alienação.  Daí que para este autor, é fundamental combater a alienação, no intuito de propiciar as condições básicas para que todas as pessoas possam viabilizar a individualidade e o gênero humano.

2 – Gênero, violência e cotidiano:

Parecia que milhares de vidas falavam pela boca da mãe; tudo era banal e simples na sua existência, mas essa simplicidade e banalidade eram apenas uma parte de uma multidão de gente sobre a terra e a história da mãe assumia o valor de um símbolo. (p. 243)

No decorrer da leitura do romance “A Mãe”, foi possível observar as várias ocorrências relacionadas à questão de gênero e, mais especificamente a violência doméstica sofrida por Pelagueia e por outras mulheres no que diz respeito à relação com os maridos. Violência naturalizada, apenas descrita e muito pouco questionada daí se apresentar quase que invisibilizada, algo à parte sem protagonismo. No caso de Pelagueia, observamos que mesmo após a morte do marido – as cicatrizes da violência se manifestam por meio das lembranças de uma vida marcada pelo sofrimento: “Quem lhe deu este golpe na cabeça mãezinha? […] Foi o meu marido que me deixou esta recordação […]” (p. 33).

O marido era Mikhail Vlassov, trabalhava como serralheiro na fábrica, descrito como um homem agressivo e temperamental, reproduzia em casa, com sua mulher a violência sofrida na fábrica: “Falava pouco e a sua expressão favorita era ‘canalha’. Qualificava assim os chefes da fábrica e a polícia; empregava esta palavra dirigindo-se à mulher: – Não vês canalha, que minhas calças estão velhas? (p. 16)”. Os traços da violência a acompanham no decorrer da história, ora de forma explícita, ora de forma mais discreta como atestamos no ato da apresentação da personagem a partir do olhar do filho:

Era alta, ligeiramente curvada; o seu corpo, quebrado pela labuta incessante e os murros do homem, movia-se sem ruído, um pouco de lado, como se temesse sempre chocar em alguma coisa. O seu largo rosto oval, burilado de rugas, ligeiramente inchado era iluminado por olhos escuros, tristes e inquietos, como os da maior parte das mulheres do bairro. Uma cicatriz profunda na sobrancelha direita fazia esta se elevar um pouco e parecia que a orelha do mesmo lado também estava mais alta que a outra; tinha o ar de estar sempre a espera, temerosa. Mechas cinzentas cruzavam-se no seu cabelo preto. Toda ela era doçura, tristeza, resignação… (p. 20)

Mais tarde, após a morte do pai e na condição de participante do movimento revolucionário, é que Pavel vai compreender que a situação vivenciada pela mãe é entendida como uma conseqüência direta das relações de exploração no trabalho alienado a qual Mikhail, seu pai estava submetido. Ao procurar explicar a mãe o rumo que sua vida estava tomando – o da militância política, ele encaminha uma reflexão neste sentido que relaciona à violência sofrida pelo pai relacionada à violência sentida pela mãe: “Pensa um pouco na vida que levávamos! Tens quarenta anos, mas poderás dizer que realmente viveste? O pai batia-te… Compreendo agora que ele se vingava nas tuas costas do seu desgosto que o sufocou durante toda a sua vida, sem que ele soubesse a razão”. (p. 25-26)

O que pode atestar que talvez durante toda sua vida Mikhail Vlassov não tenha conseguido ultrapassar o plano da individualidade em-si, a individualidade identificada como espontânea, sem reflexão, de uma relação consciente daí que pode ser considerada alienada (DUARTE, 1999). Neste sentido, ‘[…] o desenvolvimento do indivíduo não se efetiva plenamente uma vez que sua vida acaba por ser reduzida a esfera do cotidiano. Há então uma inversão na relação: a vida deste indivíduo passa a ser dirigida pela vida cotidiana”. (HELLER, 1982, p.11 apud DUARTE, 1999, p.39)

Assim na vida cotidiana, a violência se mostra como um fenômeno, que de forma particular atinge as mulheres, mas que ou parece ser invisibilizada, naturalizada ou mesmo se dilui nas análises comumente feitas sobre a questão. Inegavelmente a violência está diretamente relacionada a um contexto maior, expresso em um modelo de sociedade assentada nas relações de dominação, na reprodução permanente da desigualdade social.

Entendemos que a violência de gênero certamente representa um dos desdobramentos da barbárie capitalista, o que atesta seu caráter ainda mais perverso, mas não pode ser considerada um mal menor: “[…] minha mãe adotiva também tinha uma cicatriz na cabeça, como a sua. Foi o companheiro dela, um sapateiro que lhe fez aquilo com uma forma. A mãe era lavadeira, ele sapateiro. Ela já tinha me adotado quando o encontrou não sei onde, esse bêbado, para mal dos seus pecados! Batia-lhe e nem lhe digo de que maneira. Eu tinha um temor dos diabos…” (p. 33).

A violência é multifacetada, perpassa a relação mãe e filho, traduzida, por exemplo, no sentimento de impotência materna provocada pela prisão de Pavel em função de sua participação em uma manifestação política com os operários da fábrica, a mãe muito pouco pode fazer:

Com as costas apoiadas na parede, como outrora o seu marido, contraída pela aflição e a consciência humilhante da sua impotência, cabeça baixa, soluçou durante muito tempo, vertendo nessas lamentações monocórdicas toda a dor do seu coração ferido. Diante dos olhos, como uma mancha imóvel, tinha o rosto amarelo de bigode ralo, olhos luzindo de prazer. No peito dela, como um novelo negro, enrolava-se a exasperação e a cólera contra aqueles que tiram o filho a mãe porque ele procura a verdade.

(p. 92)

Observamos que a violência sofrida por Pelagueia, aos poucos parece ser naturalizada, acomodada a sua atividade cotidiana, talvez até como um recurso para que possa suportá-la. Na perspectiva de Heller (ano) apud Duarte (1999) esta atividade cotidiana pode ser caracterizada como aquela atividade voltada exclusivamente para a reprodução do indivíduo, ou seja, que assegura a sua reprodução e sobrevivência, indiretamente ajuda na reprodução da sociedade. Este episódio também nos permite inferir que o processo de naturalização decorre da concepção de que:

Os homens assumem as relações sociais como condições naturais, dadas, com as quais eles se identificam, isto é, a elas se submetem não porque elas resultem de uma vontade coletiva, mas sim pelo simples fato delas existirem. A forma pela qual a atividade social se divide é aceita naturalmente, como sendo a forma humana e não como uma forma histórica, passível de superação. (DUARTE, 1999, p. 76-77)

Um outro fragmento que ilustra o contexto de naturalização da realidade aparece mais ou menos na metade do livro. Alessandra uma das jovens revolucionárias, relata uma situação que houve na prisão, quando ficou oito dias sem se alimentar como forma de pressionar um guarda a lhe pedir desculpas por uma ofensa cometida a ela. Diante da narrativa, a Mãe, em tom de censura, afirma: “[…] Nós as outras mulheres somos ofendidas durante toda a vida […]” (p. 105). É como se ela estivesse pensando alto, expressando com isso uma adaptação diante dos sofrimentos da vida, ao mesmo tempo constatando algo do qual aparentemente já se acostumou. No entanto, mais adiante, ao refletir sobre sua condição de opressão, aos poucos, a partir talvez dos novos fatos que passam a fazer parte de seu cotidiano – a aprendizagem da leitura e da escrita e sua participação como colaboradora do grupo, no que diz respeito à distribuição de panfletos na fábrica para os operários de forma clandestina na cadeia, a mãe de certa forma ressignifica sua vida, compreende melhor o contexto e, sobretudo, tem condições de analisar sua própria realidade:

A mãe não conseguia apaziguar o seu desejo e falou-lhes ainda do que era novo para ela e lhe parecia de um valor inapreciável. Pôs-se a narrar-lhes a sua vida de ofensas e sofrimentos resignados. Falava-lhes sem cólera, com um sorriso de compaixão nos lábios, desenrolava a meada cinzenta dos seus tristes dias, enumerava os golpes recebidos do marido, espantada ela própria com a futilidade dos pretextos que os desencadeavam e com a sua incapacidade de os evitar […] (p. 242-243)

Assim, o processo reflexivo desencadeado no fragmento acima, pode explicitar a manifestação das atividades não-cotidianas – são aquelas atividades voltadas para a reprodução da sociedade – possibilitam a reprodução social, indiretamente contribuem para a reprodução o indivíduo (DUARTE, 1999, p. 32). E do jeito dela, Pelagueia aos poucos vai se aproximando do significado concreto da luta de classes, vai compreendendo que o mundo em que vive, está dividido em dois grupos: dominados e dominantes, conforme expressam suas palavras:

E vós consagrastes a uma vida penosa, pelo povo, sim, a uma vida dura, pela verdade. A vossa verdade, essa também a compreendi: enquanto houver ricos, o povo não terá nada, nem justiça, nem alegria, nada! Repare vivo no meio de vós, por vezes de noite lembro-me da minha vida de outrora, a minha força esmagada pelos pés, o meu jovem coração martirizado… Tenho pena de mim, é tão duro! Mesmo assim, vivo melhor agora. Sinto-me até cada vez melhor…

(p. 117)

Em nosso entendimento, tendo em vista o referencial marxista, essa compreensão da realidade expressada por Pelagueia, foi possibilitada em função das práticas formativas desenvolvidas no âmbito do movimento revolucionário uma vez que favoreceu o processo de apropriação política como objetivação historicamente produzida, isto é, enquanto objetivação genérica contribuindo para a formação do indivíduo para-si, desta forma: “[…] o indivíduo se forma apropriando-se dos resultados da história social e objetivando-se no interior dessa história, ou seja, sua formação se realiza através da relação entre objetivação e apropriação” (DUARTE, 1993, p. 47).

As leituras desenvolvidas possibilitaram o entendimento de que a individualidade para-si significa a superação da espontaneidade, ou seja, a superação da individualidade em-si. Nesta perspectiva, Duarte (1999, p. 29), explicita que “[…] a formação do indivíduo para-si é a formação do indivíduo como alguém que faz de sua vida uma relação consciente com o gênero humano”; situação que ilustramos na citação que segue: “A mãe ouvia-o como num sonho; a sua memória desfilava diante dela a longa série de acontecimentos dos últimos anos e, ao recordá-los, via-se a se própria. Outrora, a vida havia-lhe parecido externa, longínqua, feita não se sabe por quem, nem por quê; e eis que agora muita coisa nasce perante os seus olhos, com a sua contribuição”. (p. 325). O mundo agora fazia sentido para Pelagueia, ela consegue se distanciar e avaliar a própria existência e mais ainda, fazer o que entende que tem que ser feito, em suma se relacionar conscientemente com a sua vida.

Considerações Finais

A interpretação dos textos de Newton Duarte (1993; 1999) permitem inferir que a formação da individualidade numa perspectiva histórica e social resulta de um aspecto fundamental: a relação entre a objetivação e a apropriação, responsável por gerar o processo histórico de formação do gênero humano. Nesta perspectiva, procuramos elaborar uma reflexão a partir dos recortes: trabalho – gênero, violência e cotidiano e, atividade consciente, a nosso ver, termos significativos que articulados contribuem na explicação desta construção teórica.

Foi possível entender que o trabalho é a condição para que o ser humano reproduza a sua existência enquanto indivíduo e sociedade. No entanto, a feição que comumente se apresenta na obra de Gorki, fundamenta-se em relações de produção que impossibilitam o caráter genérico do ser humano à realização da sua atividade vital. Desta forma, ao invés do trabalho ser algo livre e consciente para o trabalhador, ele acaba perdendo sua principal característica: limita-se a ser apenas um meio de vida, uma mera forma de assegurar a sua sobrevivência como indivíduo em-si, se aproximando, portanto, das interessantes reflexões de Heller (1977, p. 65) apud Duarte (1993 p. 191) que: “[…] milhões de homens têm cumprido seu trabalho, tem feito o que havia de ser feito, sem dar-se conta de seu posto no mundo, sem ter consciência de que suas faculdades eram faculdades genéricas, sem imprimir no mundo o selo de sua individualidade”.

Em relação à violência de gênero evidenciada amplamente no romance, cuja vítima central é a própria Pelagueia, analisamos que sem uma problematização a respeito, não há como falar de relação consciente com o gênero humano, nem tampouco de humanização mesmo com a compreensão de que esta violência esteja vinculada às relações de opressão produzidas pelo contexto capitalista.

Assim, inspirada na afirmação feita por Marx e Engels (1979, p. 56) citada por Duarte (1993, p. 110), cujo enfoque a meu ver, refere-se às determinações, mas ao mesmo tempo às possibilidades, expressando que: “as circunstâncias fazem os homens assim como os homens fazem as circunstâncias”. Apropriando-me desta frase, tomo a liberdade de acrescentar sob a perspectiva de gênero que: “as circunstâncias fazem as mulheres assim como as mulheres fazem as circunstâncias”. A postura apresentada por Pelagueia no término da obra confirma que ela não só podia, mas que estava fazendo as circunstâncias: “Parecia à mãe que todos estavam dispostos a compreendê-la, a acreditar nela; e queria dizer-lhes sem perda de tempo tudo o que sabia, dar-lhes a conhecer todos os seus pensamentos, cuja força ela sentia. Emergiam livremente do mais fundo do seu coração e chegavam-lhe aos lábios como um canto” (p. 452).

Portanto, a obra de Maximo Gorki, com sensibilidade e densidade, consegue apresentar temas que à luz das contribuições marxistas, possibilita a elaboração de uma compreensão: desde a problematização de uma sociedade onde o trabalho não possibilita a humanização distanciando-o das objetivações que o trabalhador ou trabalhadora consegue produzir, limitando a individualidade a uma perspectiva em-si, mas que ao mesmo tempo sugere a necessidade de superação desta realidade a favor da formação da individualidade para-si.

Referências

DUARTE, N. A individualidade para-si: contribuição a uma teoria histórico-social da formação do indivíduo. Campinas: Autores Associados, 1993.

_________ . Educação escolar, teoria do cotidiano e a escola de Vigotski. Campinas: Autores Associados, 1996.

GORKI, Máximo. A Mãe. 3. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2005.

HELLER, Agnes. Sociologia de la vida cotidiana. Barcelona: Ediciones Penísula, 1977.

____________ . Revolución de la vida cotidiana. Barcelona: Peníssula, 1982.

MARX, Karl. Manuscritos Econômicos Filosóficos. Lisboa: Edições 70, 1989.

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