Plano B

Plano B

Aparecida Luzia de Mello*

Publicado originalmente em publicado em 02/08/2011 como www.partes.com.br/terceiraidade/planob.asp

Aparecida Luzia de Mello é Advogada, Mestre em Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor, Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o PEEM Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária da 3ª Idade e Recanto do Idoso Nosso Lar. cidamell@uol.com.br

Embora ela já tivesse pouco mais de 60 anos, ninguém acreditava. Por ser muito ativa, trabalhava o dia todo como representante comercial de cosméticos. Ia para lá e para cá sempre vendendo ilusão e esperança em potinhos de creme, pós-de-arroz, batons, rímel e sombras às mulheres sonhadoras.

Certo dia recebeu um convite personalizado para participar do evento Master da área em que atuava. Haveria palestras, premiações, almoço, coffee break e um espaço onde as novidades ficariam expostas permitindo um contato mais próximo entre o produtor, fornecedor e seus representantes – a chamada praça de relacionamento.

Enfim era um evento social de grande porte.

Ela era uma mulher elegante, alta, magra e momentaneamente tinha cabelos louros e cortados na altura dos ombros. Na verdade ninguém sabia ao certo qual era a cor original de seus cabelos, pois a cada encontro eles estavam com uma cor diferente.

Usava salto alto e em ocasiões como aquela caprichava na maquiagem e vestia-se de preto. Fazia o tipo fatal, sempre chamava atenção para si! E, quando estava sozinha não abria mão dos óculos escuros.

Como todos sabem os óculos escuros usados em ambientes fechados podem gerar varias interpretações – disfarçar a timidez; manter distância; querer demonstrar superioridade; arrogância; proteção à fotofobia que nada mais é do que sensibilidade à claridade e doenças diversas como conjuntivite, tersol, resguardo de cirurgia oftalmológica…

Foi exatamente assim que ela compareceu ao evento. Loura, de salto alto, vestido preto e óculos escuro para encobrir – talvez – a timidez, a fotofobia ou manter a distância… Não saberia dizer, para si mesma, exatamente o porquê daqueles óculos escuros, embora ele melhorasse sua visão já que as lentes tinham grau.

Ao ser cumprimentada, sempre ouvia elogios à sua performance. Onde passava percebia os comentários positivos sobre sua beleza madura e a segurança que transparecia.

Aquele dia não seria diferente, mas ficaria marcado para sempre em sua memória.

As palestras propostas eram técnicas, e para não cansar eram entremeadas por palestras motivacionais. A cada três palestras uma parada. As três primeiras foram seguidas por um laudo almoço.  Mais três e veio o coffee break. Faltavam as três últimas para o encerramento e a premiação.

Ela serviu-se de café, deu uma volta, viu os quitutes e entre eles empadinha. Ah, empadinhas eram exatamente sua paixão gastronômica. Comeu uma e adorou. Comeu a segunda, a terceira, a quarta, quanto pegou a quinta empadinha viu o molho de pimenta, sua boca salivou. Melhor que empadinha, só mesmo empadinha com pimenta.

Imaginou que fosse um molho suave e colocou algumas gotas do molho vermelho e denso na empadinha. Mas quando mordeu percebeu que havia se enganado e, portanto exagerado na pimenta.  Ao sentir os olhos lacrimejarem e o ardor sufocante na garganta, catou o primeiro copo cheio que viu a sua frente e jogou na boca. Mas não era água, nem suco, era um drink com alto teor alcoólico. E acabou por se engasgar.

Aflita começou a se debater, por não conseguir falar, agitava os braços dando sinais de seu sufocamento. As pessoas a sua volta não entendiam o que estava acontecendo. No seu desespero esbarrou e derrubou uma mulher que cruzava seu caminho. O rebu fez com todos olhassem para o local onde ela estava.

Até que um rapaz corpulento que já havia participado de um treinamento de primeiros socorros, deu alerta:

-: ela está engasgada!

E de pronto se posicionou. Colocou-se nas costas dela e cruzando as mãos em frente ao seu estômago começou a pressionar e soltar de forma que se houvesse qualquer coisa entalada em sua garganta seria expelido.

Em poucos segundos o alvoroço estava formado e um grande aglomerado de pessoas a volta assistia a tudo de olhos arregalados por verem a expressão de sofrimento dela e a habilidade do candidato a herói.

Foi no último solavanco que se ouviu PLEC! PLEC! PLEC! E junto com isto ela, já quase desfalecida, finalmente voltou a respirar.

Alguém já havia providenciado uma cadeira onde a acomodaram e ao sentir o ar fluir livremente em seus pulmões, pálida e trêmula ela aspirava e inspirava profundamente de olhos fechados tentando recompor-se. Enquanto isto o público aplaudia, cumprimentava e abraçava o mais novo herói!

A seguir uma gentil senhorita do comitê organizador trouxe os óculos escuros que havia caído e oferecendo-lhe o braço, convidou-a para ir até a toalete retocar a maquiagem borrada, pois sabia que assim em pouco tempo o episódio seria esquecido e tudo voltaria ao normal.

Todavia ao entrar no banheiro e olhar-se no espelho ela tomou um choque, levantou as mãos cobrindo o rosto e quase engasgou de novo! Ou melhor, quase desmaiou! Abriu um olho só entre os dedos e olhou novamente, olhou para se certificar se era verdade o que tinha visto, e não acreditou, sentiu um arrepio que percorreu sua espinha dorsal…

Perdeu a compostura, saiu correndo pelo salão, tropeçando nas pessoas, de cabeça baixa, olhando somente para o chão! Num cantinho lá estava o motivo de todo seu horror, da sua vergonha…

Lá estava ela… Parecia lhe sorrir, mas era um sorriso de vingança devido ao tombo… A bandida estava banguela, pois um dente da frente havia quebrado e continuava caída no chão!

Abaixou-se, catou a danada da dentadura, enfiou-a na boca e foi embora envergonhada jurando mudar de profissão.

Se antes vendia ilusão e esperança em potinhos de creme, pós, batons, rímel e sombra às mulheres sonhadoras, a partir daí passou a vender planos de saúde odontológicos com direito a implantes. Diz a todos, com um largo sorriso, que está vendendo segurança e autoestima, em forma de dentes!

Está se dando tão bem que não quis mais arriscar. Para se garantir, ela nunca mais comeu empadinha e pimenta então, nem pensar!

Quanto aos implantes, bem, por enquanto está usando COREGA!

* Advogada, Mestre em Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor, Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o PEEM Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária da 3ª Idade e Recanto do Idoso Nosso Lar.

Email: cidamell@uol.com.br

 

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