A narrativa fílmica enquanto prática educativa

publicado em 05/08/2011 como www.partes.com.br/educacao/narrativafilmica.asp

Virgínia Lages

RESUMO

Este artigo tem a finalidade de identificar procedimentos metodológicos para a escolha de um filme como recurso didático, objetivando definir estratégias para a construção do conhecimento a partir da visualidade, diferenciando a relação cinema/educação enquanto instrumento de reprodutibilidade e suporte de apreensão de conhecimento. É entender a visualidade enquanto linguagem que promove uma percepção do mundo moderno, possibilitando ao educador utilizar o produto fílmico como suporte pedagógico, acesso a uma realidade dada e justificativa de fenômenos. O amparo metodológico pauta-se nas teorias do campo da Didática, principalmente no que se refere ao “Planejamento Didático”. O que se busca em sentido mais amplo é contribuir para uma Pedagogia cultural.

Palavras-chave: Narrativa fílmica, Planejamento, Didática.

ABSTRACT

This article aims to identify the methodological procedures for choosing a film as a teaching resource, aimed at developing strategies for the construction of knowledge from the visual, differentiating the relation cinema / education as reproducibility and support the seizure of knowledge. It is understood as the visual language that promotes a perception of the modern world, allowing the educator to use the product film as a pedagogical support, access to a given reality and justification of phenomena. The methodological support staff on the theories of the field of didactics, especially with regard to the “Didactic Planning”. What is sought in a broader sense is to contribute to a “Cultural Pedagogy”.

Keywords: Filmic narrative. Planning. Didatics.

  1. INTRODUÇÃO

O cinema entendido como uma expressão artística e capital – artístico porque utiliza uma linguagem estética e capital porque é um produto de consumo –, consegue transitar em meio a diversas teorias disciplinares, assimilando, imaginando, subvertendo e consolidando teorias, hipóteses, idealismos e discursos. Assistimos no cinema e na TV filmes de guerra, psicologia, eugenia, realidade virtual, ciência, história, matemática, literatura, política, cotidiano, etc., enfim, filmes com uma infinidade de propostas, problemáticas e temáticas.

É preciso urgentemente reconhecer que o mundo no qual vivemos hoje é pautado na virtualidade tornando-se necessário compreender e aprender a dialogar com essa virtualidade. O professor em sua prática pedagógica já não pode mais ignorar essa tendência, essa linguagem, esse novo modo de relação com o mundo. O renomado crítico de arte John Berger disse que Ver antecede as palavras. A criança olha e reconhece, antes mesmo de poder falar (BERGER, 1999). Para ele, o homem de hoje estabeleceu uma relação entre o visível e o inteligível, que de tão profunda atinge diretamente a consciência.

Como então negar então essa nova ordem social, essa nova tendência de sociabilidade? A virtualidade que integra nossas vidas hoje é produzida por estratégias midiáticas que dita padrões de comportamento e normas sociais. Quebra; inventa e reinventa conceitos, comprovando que nossa sociedade tem hoje uma leitura virtual formadora de um campo simbólico dotado de características do mundo moderno. Reafirma-se o princípio de que o homem é um animal simbólico e a máxima os homens criam as ferramentas e as ferramentas (re)criam os homens é levada ao extremo. A virtualização das práticas sociais tornou-se dispositivo que inventa e reinventa a sociedade que o criou, tornando-se imperativo pensá-lo e discuti-lo.

Em termos pedagógicos não poderia ser diferente, é preciso pensar nesse dispositivo, compreender a virtualidade que integra a sociedade. Por isso, é importante conceber uma formação pedagógica que respeite e leve em consideração o campo virtual enquanto “linguagem”, configurando numa forma de contribuir para a construção de cidadãos que tenham uma relação crítica e esclarecida com os meios midiáticos.

Este artigo não tem a pretensão de criar uma pedagogia universalista que conceba a leitura virtual como tábua de salvação. Mas, acredito que seja necessário ressaltar, que há em nosso país uma pluralidade cultural imensa no cotidiano, ou seja, dentro e fora da sala de aula. E, talvez, seja gratificante e vantajoso trabalharmos para compreender como a virtualidade consegue construir um debate que mascare as diferenças sociais, minimizando essas diferenças ao campo do consumo e do desejo. Por isso, é necessário pensar nesta relação enquanto prática educativa, uso este conceito a partir da perspectiva da professora Selma Garrido Pimenta, que coloca a “prática educativa” como uma forma de intervir na realidade social mediante a educação, portanto, como uma prática social.

A proposta é desenvolver um questionário-modelo para auxiliar o docente na escolha do filme como suporte para a apreensão do conhecimento. É pensar a narrativa fílmica enquanto prática educativa já no planejamento. Porque utilizar o produto cinematográfico como objeto e fonte de estudos exige do professor planejamento e reflexão sobre as condições pré-existentes e das possíveis dificuldades para se alcançar os objetivos desejados. Porque o filme é fruto de escolhas e ele age como um agenciador, não apenas de conceitos ou de objetos, mas como esquemas de pensamento. Perceber estes esquemas torna-se imprescindível quando se objetiva colocar o filme no âmbito do testemunho, faz-se, então, imperativo desvendar os porquês destes testemunhos visuais.

Por isso, o planejamento da problematização de uma narrativa fílmica exige do professor reconhecer os processos de escolha deste filme, seus procedimentos, aplicações e conceitos. Em contrapartida, a seleção de um filme precisa, também, levar em conta os códigos culturais que os alunos possivelmente reconhecerão, porque em uma aula há uma troca de saberes e é preciso descobrir e redescobrir juntamente com os alunos olhares e possibilidades que ele, o professor, não havia percebido.

  1. A NARRATIVA FÍLMICA E O PLANEJAMENTO

O ensino, fenômeno complexo, enquanto prática social realizada por seres humanos com seres humanos, é modificado pela ação e relação destes sujeitos – professores e alunos – historicamente situados, que são, por sua vez, modificados nesse processo. Então nos parece mais interessante compreender o fenômeno do ensino como uma situação em movimento e diversa conforme os sujeitos, os lugares e os contextos onde ocorre. Grifo da autora. (PIMENTA, 2010, 48)

As pesquisas recentes no campo de Didática compreendem o ensino como fenômeno complexo – a epistemologia da prática, o ensino como uma situação, necessitando assim, de compreender e explicar o ato didático. Atualmente a profissão professor exige do docente uma preocupação que extrapole um objetivo conteudista, ou seja, o professor em sua prática pedagógica reduzido ao objetivo de encontrar uma maneira eficaz de passar o conteúdo. A docência hoje exige que o professor extrapole as expectativas e una a práxis com teoria. Para tal, cabe ao docente traçar meios eficazes e eficientes que o conduzam a um ensino e a uma aprendizagem mais crítica.

São diversos os artigos que abordam a temática o cinema em sala de aula, mas a proposta aqui é refletir sobre o filme como acesso ao conhecimento e diferenciar a relação cinema/educação enquanto instrumento de reprodutibilidade e suporte de apreensão de conhecimento que compreenda uma nova relação do homem com a decodificação do signo. Selma Garrido Pimenta salienta a difícil tarefa que o docente precisa desenvolver hoje enquanto mediador da sociedade de informação e a construção de um conhecimento crítico.

[…] se entendemos que conhecer não se reduz a se informar, que não basta expor-se aos meios de informação para adquiri-las, senão que é preciso operar com as informações para, com base nelas, chegar ao conhecimento, então nos parece que a universidade (e os professores) têm um grande trabalho a realizar, que é proceder à mediação entre a sociedade da informação e os alunos, a fim de possibilitar que, pelo exercício da reflexão, adquiram a sabedoria necessária à permanente construção do humano. (PIMENTA, 2010, 102)

Nessa perspectiva, alcançar a construção de um conhecimento mais crítico em sala de aula só se fará a partir do planejamento da prática pedagógica. O professor que optar por utilizar uma narrativa fílmica como auxílio, um ponto de partida, para a apreensão do conhecimento, deverá traçar estratégias a partir da reflexão e do planejamento, é unir objetivos com conteúdo.

Um professor não se pode dar ao luxo de excluir os conteúdos de sua prática, a prática pedagógica é delimitada por um currículo que necessita ser cumprido e desenvolvido de acordo com as diretrizes educacionais estabelecidas pelo Estado. Por muito, o papel do professor foi reduzido a um transmissor de conteúdos, o que não podemos nos esquecer é que os conteúdos são determinados, isto não significa que o docente não possa intervir no processo de aprendizagem. É na estratégia da ensinagem que o docente intervém na construção do conhecimento. Por isso faz-se necessário pensar e repensar uma ação didática controlada para que o docente possa alcançar junto a seus alunos resultados surpreendentes. Isto determina a diferença principal entre passar um filme em sala de aula e construir o conhecimento a partir de um filme.

Visando construir uma estratégia na qual o docente poderá se apoiar para determinar os critérios de escolha de um filme, a reflexão procederá a partir de três questões: primeiro não abordarei todos os mecanismos midiáticos e virtuais, a análise se restringe a narrativa fílmica (filmes para TV e Cinema) enquanto elemento de significação, porque ele, o filme, consegue dialogar com diversos meios sociais, temáticas e temporalidades. Segundo procurarei diferenciar a relação cinema/educação enquanto instrumento de reprodutibilidade e suporte de apreensão de conhecimento. Terceiro definir estratégias para a construção do conhecimento a partir da visualidade, identificando, ao mesmo tempo, os procedimentos metodológicos para a escolha de um filme como recurso didático.

Utilizar as novas tecnologias, no caso as relações educação e cinema, fazendo delas uma forma de se pensar no conhecimento e não uma mera questão de utilizá-las como suportes de conteúdos é compreender esse processo como prática educativa, entender o cinema como um fenômeno que oferece reflexão quando se desmascaram seus procedimentos narrativos fazendo, dele, uma forma de se apreender conhecimento e não um instrumento para a veiculação de conteúdo.

É preciso entender que o filme, a narrativa fílmica não traz lições, é este e o principal detalhe que diferencia reprodutibilidade conteudista de uma aprendizagem crítica. É enxergar o filme como possibilidade e suporte para a construção do conhecimento, que começa com a capacidade do professor, em refletir e traçar estratégias, para atingir um conhecimento específico, mediado por imagens, com os alunos. A diferença primordial esta centrada no tipo de abordagem, na construção e preparação do diálogo entre objeto (a temática) e a imagem.

Assim o produto cinematográfico como objeto e fonte de estudos exige do professor planejamento e reflexão sobre as condições pré-existentes e das possíveis dificuldades para se alcançar os objetivos desejados. Porque o filme é fruto de escolhas e ele age como um agenciador, não apenas de conceitos ou de objetos, mas como esquemas de pensamento. Perceber estes esquemas torna-se imprescindível quando se objetiva colocar o filme no âmbito do testemunho, faz-se, então, imperativo desvendar os porquês.

Para alcançar esta difícil tarefa, é aconselhável que o docente norteie a discussão a partir de estratégias didáticas definidas. Utilizar-se de um questionário para orientar a problematização é unir práxis com teoria. Selma Garrido Pimenta falando sobre a importância do estágio na formação docente afirma que a teoria deverá ser formulada e utilizada a partir das necessidades concretas da realidade educacional, à qual busca responder através da orientação das linhas de ação. (PIMENTA, 2001, p. 67). Nesse sentido, é importante perceber que o docente ao lançar mão da teoria estará traçando estratégias controladas para a ação didática.

Essa ação didática controlada reverbera uma seriedade docente que é exigida implicitamente pelo mercado de trabalho. É transformar a sala de aula em um ambiente saudável e agradável para os alunos e o professor. Sem contar que ao utilizar estratégias fundamentadas na teoria o profissional permite que a construção do conhecimento seja uma ação que desenvolva olhares críticos, por parte dos alunos, a realidade. O que é concordante com a afirmação de Dermeval Saviani, na qual, ele fala da importância dessa união entre práxis e teoria:

A teoria exprime interesses, exprime objetivos, exprime finalidades; ela se posiciona a respeito de como deve ser – no caso a educação -, que rumo a educação deve tomar e, neste sentido, a teoria é não apenas retratadora da realidade, não apenas explicitadora, não apenas constatadora do existente, mas é também orientadora de uma ação que permite mudar o existente. (SAVIANI apud CANDAU, 2005, p. 68)

É nesse sentido que este trabalho foi pensado, na união da práxis com a teoria, olhar o filme como um suporte à aprendizagem. Por isso foi desenvolvido um questionário-exemplo que buscou aliar reflexão com metodologia. O questionário é divido em duas partes: a primeira parte permitiria ao professor pensar sobre as escolhas do filme mais a apropriado para sua temática. Este questionário lhe daria uma resposta diagnóstica sobre as escolhas, os porquês de se traçar e utilizar e explorar a relação filme/temática. A segunda parte lhe daria uma perspectiva metódica, ou seja, utilizar procedimentos metodológicos para alcançar uma ação racional. O que flui, novamente, a professora Selma Garrido Pimenta, ela ao falar sobre a Docência no Ensino Superior diz:

O papel das teorias é o de iluminar e oferecer instrumentos e esquemas para a análise e investigação, que permitam questionar as práticas e, ao mesmo tempo, pôr

as próprias teorias em questionamento, uma vez que são explicações sempre provisórias da realidade. (PIMENTA, 2010)

Utilizando-se de estratégias que aliem práxis a teoria, o professor estará se posicionado como um agente social que está em constante situação de aprendizagem cognitiva e que procura, sempre, novas formas de promover a aprendizagem com comprometimento social através de constante reflexão e planejamento de estratégias. É emergente hoje o pensamento de que o profissional em educação desenvolva métodos e técnicas de abordagem para a prática educativa, é preciso abandonar a ideia de que o professor tem em sua formação didática a intuição, o professor por natureza e o reprodutor de didáticas (achar sinônimo para algo que deu certo), a intuição e a capacidade de ser autodidata, como o chamado “dom” são fatores importantes, mas precisamos mudar certas formas de pensar a profissão. Hoje a profissão requer para além destes atributos um profissional que promova a mediação reflexiva e crítica orientada para a intencionalidade, ou seja, um profissional que planeje e pense em estratégias para a apreensão de saberes que poderão ser desenvolvidas com, e para, os alunos.

No tocante à abordagem, as pesquisas já não partem de esquemas prévios a serem aplicados nas escolas, mas tomam as situações concretas em que as práticas ocorrem como objeto de análise, buscando compreender o processo de produção das metodologias na relação professor-aluno-conteúdo de ensino, especialmente no ensino superior. (PIMENTA, 2010, P.56)

Por isso, desenvolver um questionário para uma temática visual em sala é um processo de infinita importância e um tanto quanto subjetivo. O questionário elaborado não tem a pretensão de ser um guia metodológico, ele é apenas uma exemplificação, um ponto de partida. Ele deve ser entendido como produto de uma metodologia didática, pois o esforço da Didática será o de dispor conhecimento pedagógico aos professores, não porque apresente diretrizes válidas para qualquer situação, mas porque permite realizar uma autentica análise crítica da cultura pedagógica. (PIMENTA, 2010, P.58). As perguntas a seguir, devem ser entendidas como uma abordagem construída a partir de parâmetros semelhantes que possibilita-nos realizar uma análise crítica da relação educação/cinema.

Questionário-exemplo

O questionário teve como referência metodológica o livro Didática do ensino superior, de Antonio Carlos Gil, (GIL, 2009).

A escolha do filme depende de variantes extensas e externas, como: tempo de aula, temática, conceitos identificados previamente no filme, análise da ficha técnica do filme, da complexidade do filme. O questionário-exemplo a seguir ajudará ao profissional em educação problematizar de maneira reflexiva e metodológica a temática escolhida a partir da narrativa fílmica. O Conjunto A apresentará as Questões Reflexivas que tem por objetivo um (auto) diagnóstico. É perceber se o procedimento didático ao trabalhar a relação educação/cinema é uma ação orientada. O Conjunto B ajudará, ao professor, a desenvolver uma Seleção Metódica, um ponto de partida para uma ação racional. As questões foram estruturadas da seguinte forma: O questionamento e logo a seguir a finalidade deste questionamento.

Conjunto A – Questões Reflexivas

1) Você usa filmes em suas aulas? Por quê? (Justifique, mesmo que sua resposta seja negativa)

Finalidade: determinar o sentido que a percepção visual oferece para o professor.

2) Como você seleciona?

Finalidade: Refletir se o ato de passar um filme é para preencher um horário ou se é uma estratégia para a construção do conhecimento.

3) Como o utiliza em aula?

Finalidade: Observar se a utilização da narrativa fílmica segue um pensamento didático e metódico.

4) Existe algum título (filme) que utilize com frequência? Qual? Por quê?

Finalidade: Refletir sobre os critérios de escolha que o professor em questão utiliza.

5) Você elabora algum tipo de roteiro para a discussão?

Finalidade: Determinar se a discussão é orientada sob um ponto de vista metódico ou do senso comum.

6) Existe algum conteúdo, ou temática, que você sempre recorre aos filmes? Por quê?

Finalidade: Estabelecer se há, para o professor, uma temática específica que exija o diálogo com a visualidade ou se a relação temática/filme é determinada por fatores externos a sala de aula.

7) O que você espera que seus alunos observem neste filme?

Finalidade: Compreender que para a escolha do filme será preciso observar o nível cognitivo dos alunos.

8) Você acha que esse filme “ensina” algo a seus alunos? O quê e por quê?

Finalidade: Verificar se a escolha do filme é pautada sob uma perspectiva da experiência anterior do professor ou se é a partir de critérios teóricos previamente estabelecidos.

9) Seus alunos realizam alguma atividade relacionada a esse filme? Qual?

Finalidade: Determinar como o professor avaliará uma aula pautada na visualidade enquanto instrumento de construção do conhecimento.

10) Você pensa previamente nas condições físicas para a exibição de um filme em sala de aula?

Finalidade: Determinar se a sala de aula tem o suporte adequado para a exibição do filme, pois o sucesso do projeto será determinado, também, por fatores físicos, como por exemplo: visualização e áudio adequados.

11) Você lê sobre cinema, imagens e a relação com sua disciplina?

Finalidade: Compreender que a visualidade tem uma teoria própria. Para tornar uma discussão mais eficiente o diálogo deverá levar em consideração essa mesma teoria.

Conjunto B – Seleção Metódica

1) Como que a narrativa fílmica poderá contribuir para o desenvolvimento dos objetivos propostos para a sua disciplina?

Finalidade: refletir sobre a concepção teórica elencada com o planejamento escolar.

2) Como você pretende elencar os objetivos da disciplina com a teoria, o filme e o conteúdo?

Finalidade: estabelecer critérios para o direcionamento da discussão do filme.

3) Qual o gênero de filme que seus alunos se identificarão? Por quê?

Finalidade: o gênero do filme adequado ao perfil da turma facilita a discussão

4) Defina a utilidade e a relevância deste diálogo para sua estratégia enquanto professor? E para seus alunos, ou seja, fará diferença e sentido para eles, por quê?

Finalidade: é preciso pensar em qual será a contribuição que a narrativa fílmica poderá oferecer para a disciplina, ou seja, utilizar um filme em sala de aula, para a sua disciplina, constitui sentido para seus alunos?

5) Você conhece os alunos? Se não, como você irá prever a diversidade da turma e o nível de cognitivo dos alunos?

Finalidade: como você determinará o perfil da turma e o universo cognitivo dos alunos?

6) Se tiver algum problema que o impeça de passar o filme qual será seu plano “B”?

Finalidade: pensar em outras alternativas e estratégias para expor a temática.

7) Quantas vezes você viu o filme escolhido?

Finalidade: alertar para a necessidade do aprofundamento teórico e reflexivo que a narrativa fílmica necessita.

8) Ele tem algum significado especial para você? Qual?

Finalidade: determinar se os critérios de escolha são pessoais ou teóricos.

9) Qual será o contraponto da discussão? Ela será baseada em qual texto ou assunto?

Finalidade: elencar conteúdo/teoria e temática.

10) Quanto tempo terá a aula? Como você dividirá este tempo, entre exibição e discussão?

Finalidade: estabelecer um cronograma didático.

11) Qual a relação entre filme/temática e contexto social vivido.

Finalidade: pensar na temática a partir do contexto social vivido.

12) Quais as teorias que contradizem a forma como o tema foi abordado no filme?

Finalidade: desconstruir a narrativa fílmica situando-a em seu contexto de criação, produção e recepção. Porque nenhuma narrativa é uma verdade absoluta

13) O roteiro foi construído a partir de alguma teoria ou expressão artística?

Finalidade: compreender que uma narrativa fílmica dialoga com o contexto social vivido, ora justificando, construindo e desconstruindo discursos. Determinar qual (ou quais) o diálogo estabelecido como forma de desconstruir o discurso inerente a narrativa.

14) Há coerência entre cartaz, sinopse e a narrativa do filme? E com as críticas? Lembre-se: tudo é fruto de escolhas.

Finalidade: observar que a narrativa fílmica está inserida dentro de uma narrativa visual que extrapola o tempo de exibição do filme. O cartaz, a repercussão, as estratégias de marketing e as teorias que o roteiro advém e os diálogos que o filme estabelece são constituintes de um processo de produção que deve ser analisado e discutido.

15) O que no filme é percebido de forma mais clara? O que é mais sutil?

Finalidade: determinar as ênfases e as omissões contidas no filme.

 16) O conjunto é coerente (diálogos, vestuário, gestos, enredo, músicas e cenários)?

 Finalidade: determinar os procedimentos operacionais da produção de um filme.

 17) O que mais se destacou? O que entrou em contradição?

Finalidade: estabelecer quais as “batalhas” discursivas presente na narrativa.

  1. CONSIDERAÇÕES

Este artigo foi proposto com a finalidade de identificar procedimentos metodológicos para a escolha de um filme como recurso didático, objetivando definir estratégias para a construção do conhecimento a partir da visualidade, diferenciar a relação cinema/educação enquanto instrumento de reprodutibilidade e suporte de apreensão de conhecimento. É entender a visualidade enquanto linguagem que promove uma percepção do mundo moderno, possibilitando ao educador utilizar o produto fílmico como suporte pedagógico, acesso a uma dada realidade e justificativa de fenômenos.

Implicitamente procurei ressaltar a importância do planejamento, situando este na perspectiva de Padilha (2001):

[…] planejar, em sentido amplo, é um processo que visa a dar respostas a um problema, através do estabelecimento de fins e meios que apontem para a sua superação, para atingir objetivos antes previstos, pensando e prevendo necessariamente o futuro, mas sem desconsiderar as condições do presente e as experiências do passado, levando-se em conta os contextos e os pressupostos filosófico, cultural, econômico e político de quem se planeja. (PADILHA, 2001, p.30)

A concepção educacional vigente não permite mais um professor que aja intuitivamente, é necessário planejar a ação didática, o ato educacional reflexivo e fundamentado teoricamente.

O cinema, segundo Aumont (2004, p. 77), é uma máquina simbólica de produzir ponto de vista que é acessível ao professor e aos alunos. É perceber que este diálogo entre a narrativa fílmica e educação ultrapassa os limites da escola e conduz, alunos e professores, a se relacionarem com o contexto vivido, produzindo uma pedagogia cultural. A professora Elí T. Henn Fabris é enfática quando fala da importância de se produzir uma pedagogia cultural:

É preciso entender a educação como um processo cultural amplo que ultrapassa os limites da escola. Esse é um esforço empreendido por uma parcela considerável de estudiosos que ampliam a concepção de pedagogia, tomando toda pedagogia como cultural e incluindo na expressão “pedagogia cultural” aquelas que são produzidas em locais sociais distintos da escola. (FABRIS, 2002, p. 121)

Essa pedagogia cultural nos leva a perceber que o planejamento da problematização de uma narrativa fílmica exige do professor reconhecer os processos de escolha deste filme, seus procedimentos, aplicações e conceitos. Em contrapartida, a seleção do um filme precisa, também, levar em conta os códigos culturais que os alunos possivelmente reconhecerão, porque em uma aula há uma troca de saberes e é preciso descobrir e redescobrir juntamente com os alunos olhares e possibilidades que ele, o professor, não havia percebido.

REFERÊNCIAS

AUMONT, Jacques. O Olho Interminável: cinema e pintura. Tradução de Eloísa Araújo Ribeiro. São Paulo: Cosac & Naify, 2004.

BERGER, John. Modos de ver. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

CANDAU, Vera Maria (org). Rumo a uma nova didática. Petrópolis: Vozes, 2005, 205 p. ISBN 85.326.0434-X

FABRIS, Elí T. Henn. Cinema e educação. IN: OLIVEIRA, Inês Barbosa; SGARB, Paulo (orgs.). Redes culturais, diversidade e educação. Rio de Janeiro: DP&A, 2002, p. 119-130)

GIL, Antonio Carlos. Como planejar o ensino. In: Didática do Ensino Superior. São Paulo: Atlas, 2009.

PADILHA, R. P. Planejamento dialógico: como construir o projeto político-pedagógico da escola. São Paulo: Cortez; Instituto Paulo Freire, 2001.

PIMENTA, Selma Garrido. O estágio na formação de professores: unidade entre teoria e prática? São Paulo: Cortez, 2001. 200 p. ISBN 85-249-0533-6

 

 

Virgínia Lages é Bacharel em História pela UFG/GO, Especialista em Didática e Metodologia do Ensino Superior FSLF/SE

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