O monstro que assusta criancinhas

O MONSTRO QUE ASSUSTA CRIANCINHAS: fracasso escolar, pedagogia do opressor, conselho de classe, avaliação e os seus percalços ou dois-pra-lá-e-dois-pra-cá! 

 

Marcello Ricardo Almeida[1] 

 

Resumo  

Este paper sobre o monstro que assusta criancinhas procura identificar os ruídos nos espaços escolares do início do século XXI. Toda escola possui um processo natural de renovação, de autorrenovação, de encorajamento, de troca de saberes e provocações na construção do conhecimento. Os atores no cenário escolar se desafiam e querem qualidade na educação como esperança de inserção da juventude no mercado de trabalho, inserção nos espaços sociais de maneira ética e legal.

E se no meio do caminho houver uma pedra?

 

Introdução 

Pedagogia do Opressor – O que é opressão? Oprimir não é alguém que sufoca, que dificulta, que persegue, que molesta, que sobrecarrega, que incomoda, que violenta? Além destas, outras hipóteses: Quantos estudantes não reclamaram de seus professores por causa de perseguições gratuitas? Quantos estudantes não tiveram a sensação de sufoco em sala de aula? Acaso alguém nunca ouviu falar das dificuldades impostas, graciosamente, só pelo prazer de sobrecarregar, de incomodar? A isto se denomina pedagogia do opressor[2] (um contraponto com Freire, da Pedagogia do Oprimido). Alguém que exerce poder sobre alguma coisa considera mais cômodo controlar por meio da exasperação, da fúria, do grito. Ignora que todos nós temos ideias, sentimentos e determinações.

Psicologia Pedagógica – Educar é motivar, é desenvolver as aptidões de cada um. Cada um possui ideias, sentimentos e determinações ao seu modo. Faz parte da constituição humana. No lugar da pedagogia do opressor, a psicologia pedagógica, pois esta não oprime, não dificulta, não persegue, não sobrecarrega, não molesta, não incomoda, não violenta as ideias, os sentimentos e as determinações inerentes ao ser humano. Teorias educativas deterioram-se se alguns agentes pedagógicos optarem pela coercitividade, pelo autoritarismo.

  À espera dum milagre e de que a avaliação escolar não seja um paradigma burguês classificatório-sentencioso: Quais os métodos mais indicados para que a avaliação não continue sendo o monstro que assusta criancinhas que não querem comer as sopas de letras e números?

Têm-se a sensação de que os anos passam, os teóricos estudam, aumentam os entendimentos sobre a Educação, investem-se verbas a-s-t-r-o-n-ô-m-i-c-a-s ao fazer Pedagógico, contudo, o passo da dança continua o mesmo: dois-prá-lá-e-dois-prá-cá!

A academia acaso se deu conta de trancar O Monstro da Avaliação num calabouço sem chave? Estamos sempre discutindo que a avaliação deverá ser processual. Mas, que processo é esse que serve de base à Avaliação?

Fracasso na aprendizagem

Não é um processo unilateral a avaliação, onde o professor valora o aluno segundo o que o aluno se expressou em determinado momento para, em seguida, aplicar-lhe sentença terminativa. Avaliação existe para possibilitar o aperfeiçoamento do ensino-aprendizagem, ou seja, aperfeiçoar o processo primeiro de quem ensina e depois de quem aprende. E aferir o desempenho de ambos (professor e aluno). Do professor, quanto ao desempenho (seguindo a legislação, currículo, PPP e Plano de Aula) e a transmissão de competências e conhecimentos; do aluno, por sua via, quanto à apropriação dessas competências e conhecimentos. Avaliação não como valor de troca.

Portanto, avaliação, teórico-metodológica e legalmente, só terá validade se for diagnóstica, processual e inclusiva. Não raro, o aluno é apontado como único responsável por seu fracasso na aprendizagem, quando o professor atropela a etapa processual, e atropelando esta etapa, a avaliação resta prejudicada, porque a avaliação só terá validade jurídica, por exemplo, numa futura demanda judicial à procura de quem foi culpado (o aluno ou o professor) se for processual (além de inclusiva e diagnóstica, formativa, cumulativa e participativa). Avaliação não se dissocia de recuperação na apropriação dos conhecimentos e das aprendizagens. Aprender desde que significativamente.

Como alguns alunos veem a avaliação? Como bicho-de-sete-cabeças. Isto, infelizmente, por causa de professores que aplicam avaliação para amedrontarem os alunos (até mesmo como uma ameaça ou uma pressão) ou porque o professor autoritário, despótico, injusto deseja saciar o seu sentimento de vingança e, consequentemente, reprovar o aluno. Neste ínterim, o aluno reprovado candidata-se a evasão escolar (isto ocorre em todos os níveis de ensino, a saber: fundamental, médio, graduação, especialização, mestrado etc.) e as implicações serão as mais inusitadas. Fiquemos, por exemplo, com alunos do ensino fundamental; este aluno que o professor se descuidou dele ou o perseguia, gratuitamente, em regra, transformar-se-á numa incógnita no mercado de trabalho. Como será sua inserção no mercado de trabalho? E o pior de tudo, às vezes, por única e exclusiva colaboração do professor que tem o poder da caneta e da palavra, que tinha as ferramentas para ajudar o aluno e o prejudicou: Como será a inserção deste aluno, que desistira da escola no ensino fundamental, agora, nos espaços sociais? Permito-me a usar outro clichê: este assunto dá pano pra manga. Tem como remediar esta situação? Tem. Desde que a avaliação cumpra o seu papel ético, legal, teórico-metodológico e social.

Conselho de classe

O ensino só existe, concretamente, se houver do outro lado a resposta da aprendizagem, pois, lembrando Freire (1999) “se não aconteceu aprendizagem, não ocorreu ensino”. Como avaliar o aluno que não aprendeu, não teve feedback, nem recuperação paralela, muito menos oportunidade de reavaliação? O professor não pode lavar as mãos neste caso. Como avaliar? Avaliar com aspectos qualitativos sobre os quantitativos. Avaliar com um novo caminho, com ações pedagógicas ressignificadas. A proposta é o debate às práticas retrógradas e contraproducentes em muitas escolas, isto, para se chegar ao que a escola deverá vir a ser e, como fundamento epistemológico, o poema CONSELHO DE CLASSE, pois no espaço do conselho de classe mais se falam em problemas e menos em soluções aos problemas:

 

Dias das casmurrices

dos conselhos de classe.

Sofressores com o amuamento

de sempre, os macilentos.

Carregados mais de notas

vermelhas e menos de notas

azuis, como se dizia

no passado. Principia-se

 

a longa e lamurienta

leitura. O rol dos alunos

na grande mesa escolar:

Mário, irmão de Maria,

ao que se ouve dum canto:

“Leva a vida na flauta,

o folgazão”. Que tem feito

por ele a Pedagogia? “Nada”.

 

E Mônica, a grávida

e viciada, melhorou?

Continua queixosa;

a faltosa só aprendeu

a reclamar. E Reginaldus?

Não tem nota. Sheila?

é boa aluna. Muito boa.

Aluna de um. Um é exíguo

 

por demais de nota. Dê-lhe

dois, apesar dela ser fraca,

mais fraca que caldo de batata.

É tudo peso pena. Um bico

de gás bruxuleante, bem dizer.

Por ameaça de ausência de luz,

eis o ensurdecedor sinal.

Acabou-se nossa reunião bimestral.

 

            Toda criança chega à escola cheia de criatividade. Inclusive, a liberdade de criação é uma das vantagens legais da criança e do adolescente. Porém, com o tempo, nas áreas do ensino fundamental e médio, para não se estender as demais áreas, os métodos educativos se tornam áridos. Então, a criatividade é sufocada. Só alguns discentes, alguns estudantes questionadores, sem medo de enfrentarem problemas, conseguem atravessar o Saara do ensino-aprendizagem.

            Na escola autoritária é mais cômodo educar através da coerção e do autoritarismo. Nunca pela persuasão. Porque tudo é impositivo. Desde o “faça-se!” até o “cumpra-se!”. Em um ambiente, via de regra, sem diálogo; só monólogo. Em nome da disciplina, dos rigores das avaliações, do silêncio, do medo. Ignorando as atitudes orgânico-psicológicas das crianças e dos adolescentes.

No âmbito escolar, nenhuma forma de avaliação terá mão única. A avaliação será sempre de mão dupla, isto é, a avaliação de quem avalia e a avaliação de quem é avaliado. E nesta mão dupla se o cuidado não se redobrar, usando esta metáfora do trânsito: espaço social violento, os riscos e acidentes serão imprevisíveis.

Considerações finais

Cada sala de aula é um universo a ser contextualizado (professores e alunos). Cada escola tem consciência das metodologias adequadas? Os cyber espaços de audiovisuais são prolíferos em violência na escola (ou sala de aula) cuja origem se deu (casos noticiados, cotidianamente, nos veículos midiáticos) por causa de conflitos entre alunos e professores ou vice-versa, por causa de notas, por causa de provas, por causa de trabalhos escolares entregues fora do prazo, porque não se entenderam (professores/alunos, alunos/professores) nas avaliações. 

Acompanhando Freire (1999) “quanto mais criticamente se exerça a capacidade de aprender tanto mais se constrói e desenvolve o que venho chamando ‘curiosidade epistemológica’, sem a qual não alcançaremos o conhecimento cabal do objeto. É isto que nos leva, de um lado, à crítica e à recusa ao ensino bancário”.  Lamentável no cenário escolar os atores, ao invés de concretizarem as teorias pedagógicas, fazerem a opção em dourar a pílula.

 

 

Referências bibliográficas 

 

ALMEIDA, Marcello Ricardo. A Ignorância do Estudante: filosofia do direito estudantil com artigos referentes aos direitos e responsabilidades na área educacional da seguinte legislação: Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/90), Constituição Federal de 1988, LDBN (Lei 9.394/96) um ensaio jurídico à educadores, alunos do ensino básico (seus direitos e responsabilidades) e interessados em Ciências Humanas, 1996.

ALMEIDA, Marcello Ricardo. Uma Teoria do Paradoxo: teoria literária e crítica ao estudo da literatura e da arte como proposição analítica e autoanalítica aos novos leitores, escritores, poetas e dramaturgos. 1999.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

HOFMANN, Jussara Maria Lech. Avaliação Mediadora: uma relação dialógica na construção do conhecimento. Educação e Realidade: Porto Alegre, 2006.

 



[1] Autor de Enfrentamento a violência contra criança e adolescente: o que os país e profesores precisam saber”, 2008. Dente outros: “Ética na escola: teoría e prática no cotidiano escolar com peças de teatro sobre bullying, assédio moral, fibromialgia, síndrome de Burnout etc.“, 2000. “Enfrentamento a violência contra criança e adolescente: o que os país e profesores precisam saber”, 2008.

[2] Texto que escrevi em 1988 e publiquei em 1998 no livro “Ideias políticas de filosofia educacional: uma proposta crítica mudando a estrutura escolar autoritária da Escola Básica à Universidade, por uma escola diferente, uma escola do diálogo, uma escola sem o medo de errar”.

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