As técnicas de pintura nas cerâmicas gregas: aspectos introdutórios da história da arte

Marcel Alcleante Alexandre de Sousa*

publicado em 02/09/2011

www.partes.com.br/cultura/ceramicasgregas.asp

 

AS TÉCNICAS DE PINTURA NAS CERÂMICAS GREGAS: aspectos introdutórios da história da arte


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Marcel Alcleante Alexandre de Sousa

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Marcel Alcleante Alexandre de Sousa é Aluno do Curso de Licenciatura Plena em Filosofia pela Universidade Estadual da Paraíba. E-mail: marcelalcleante@yahoo.com.br

Os gregos no decorrer da história mostraram ter uma cultura muito vasta. Pode ser conferido um pouco disso nos estudos provindos das relíquias que, atualmente não passam despercebidas, pois artisticamente sabiam desempenhar muito bem a arte de pintar.  Assim, pretende-se com este texto resgatar um pouco da cultura dos gregos através das pinturas que revelam o modo de ser e pensar desses antigos. Nelas é possível encontrar conhecimentos específicos da cultura de um povo.

As cerâmicas estavam presentes no dia a dia dos gregos devido a sua imensa utilidade. Por esse motivo, passaram a retratar nos vasos seus costumes, seus mitos, seus sentimentos.

  Esse aspecto desperta no observador algo curioso e faz com que a contribuição da cultura presente nos vasos desperte estudos historiográficos com a finalidade de aprofundar os conhecimentos de tantas riquezas antigas. Uma dessas curiosidades é saber se pode uma cerâmica guardar a cultura de um povo. Uma cultura cheia de detalhes que mostram através de pequenas obras manuais a beleza expressa pelo ser humano que deixou como prova de sua existência a capacidade de produzir objetos relevantes para o saber histórico, filosófico e cultural.

Num primeiro contato é mostrada nos vasos uma vivacidade espetacular. Neles pode ser percebido o quanto que os antigos se empenharam em mostrar nos utensílios de barro sua genialidade. Fala-se assim por que não dispunham de técnicas modernas, mas mostraram assim como afirma Buzzi (2000, p. 210) que, “para chegarmos à arte, isto é, ao bem fazer é preciso o confronto com alguma coisa difícil desafiando nossa habilidade”. Buzzi fundamenta a ideia de que a arte não caminha distante da ideia de ser um bem fazer.

Mediante o fator histórico oculto nas cerâmicas gregas objetiva-se destacar alguns aspectos desses utilíssimos utensílios. Para isso, faz-se necessário ressaltar a herança cultural revivida a cada fitar. Pois, eles permitem vivenciar os cantos de Homero: Odisséia e a Ilíada. Assim, a Grécia passará a ser observada não tanto pela tradição bibliográfica, mas através daquilo que passa despercebida e aos nossos olhos é vulgar.

Acerca dos utensílios, pode-se dizer que eles estavam constantemente presentes na vida dos gregos. Eles faziam parte das atividades, do lazer e do uso pessoal do povo antigo. No entanto, os vasos se diferenciavam em tamanho, forma e utilidade. Alguns eram compridos e não muito largos, enquanto outros compridos e largos. Alguns pequenos e compridos outros largos e pequenos. Distinguiam-se não só pela forma e tamanho, mas pela utilidade.

Eram aproveitados para o armazenamento de mantimentos, da água, de comidas e de azeites. Usavam a ânfora e a hídria para armazenar grandes quantidades de mantimentos. O vaso dispunha de um tamanho médio com três alças, uma de dois lados e uma para levantá-lo. Nas festas elas usavam a cratera. Ela era muito usada para misturar água ao vinho e sua boca era muito larga. O jarro chamado enócoa era utilizado para armazenar uma única coisa. Armazenavam a água ou o vinho. A kúlixou ou shúphos ou cálice correspondia ao mesmo que caneca. Possuíam a mesma função. Eram taças com duas alças. O alabastro, o aríbalo e o lécito eram usados para armazenar perfumes e óleos usados pelos homens e pelas mulheres. Pelos homens, para os exercícios físicos. Já pelas mulheres para guardar os perfumes. Nos rituais sagrados utilizavam o vaso chamado lutróforo. Tinha a função de levar água para ser usada nos rituais. A espécie de vaso citado marcava o mútulo das moças que morriam solteiras.

Tendo conferido algumas utilidades dos vasos temos que entender que,


A cerâmica havia sido, por muito tempo, elevada ao status de arte destinada a monumentos, mas, desde o final do século VII a.C., placas de pedra ou estelas (do grego stêlai; singular stêlê) pintadas ou esculpidas em relevo – ou mesmo estátuas, como os koûroi – passaram a ser usadas como marcos funerários, e a cerâmica voltou a funcionar como a fornecedora de utensílios que sempre fora antes. (WOODFORD, 1983, p.40).


Os vasos sendo utilizados para o uso cotidiano perderam seu espaço por um período curto, mas quando foi retomada sua antiga função iniciou-se uma longa história gravada através de técnicas de pinturas. Isso surgiu devido o desejo de inovar a partir de um focar criativo, nas cerâmicas, o cotidiano, ou seja, as cenas que faziam parte dos sentimentos de um povo. Não serviam apenas para guardar mantimentos, mas com o conto dos mitos surge o desejo de representá-los, de torná-los presente não só na tradição oral, mas artisticamente, ou seja, representar aquilo que ouviam e que faziam parte de suas vidas. Assim, as cenas eram inspiradas nos contos dos poetas e dos aedos.

Estas ilustres cerâmicas eram bem apreciadas, estavam prontas a servir, como já foi mencionado. Mas, a partir desse serviço cotidiano abrem-se as portas para uma nova utilidade que surgem com o desenvolvimento de técnicas. Elas não permaneceram apenas com a função de servir aos caprichos do dia a dia dos gregos, mas tomaram outros rumos desafiando nações vindouras. Pois, as obras artísticas são plausíveis por terem sido desenvolvidas através de técnicas muito avançadas.

Através da arte nas cerâmicas os gregos conseguiram mostrar que sua arte vai além e se renovam a partir de novas conquistas. Nos poemas cantados pelos poetas, dentre eles Homero, encontra contos sobre a vida dos heróis e dos deuses os quais despertaram nos artistas gregos o interesse por representá-los. Eram pintados os homens que se destacavam como, por exemplo, Odisseu, Aquiles…

Os vasos mostravam que;


[…] os valores mais elevados ganham, em geral, por meio da expressão artística, significando permanente e força emocional capaz de mover os homens. A arte tem um sentido ilimitado de conversão espiritual. E os Gregos chamavam psicagogia. Só ela possui ao mesmo tempo a validade universal e a plenitude imediata e viva, que são as condições mais importantes da ação educativa. (JAEGER, 1989, p. 44).  


Embora Jaeger refira-se à poesia, tal ideia pode se refletida também na arte da pintura. Sendo assim, com esta citação interpreta-se que eles faziam esta arte como se estivessem vivenciando a cena pintada gravando-as com muita habilidade. Implica certo desafio e também um envolvimento de sua alma com a pintura. Faz, então, refletir que para os gregos a nova forma de usar os objetos estava muito mais próxima do que se pode pensar, porque a visualização demonstrada fazia com que eles se encantassem e procurassem desenvolver técnicas que fossem cada vez mais naturais. Neste aspecto, eles desenvolveram as cenas mitológicas e até mesmo cenas cotidianas dos heróis através de uma técnica que conhecemos por figuras negras da qual a figura era pintada em uma cerâmica de cor vermelha. Naturalmente seria a cor de origem, ou seja, o barro (argila). As figuras eram pintadas de preto detalhadas por um objeto pontiagudo, um exemplo deste material pode ser conferido a seguir no exemplo de uma cratera Ática (fig. 2.1).

Figura 2.1

Fonte: www.fflch.usp.br/…/odisseia/polifemo.html. Acessado em fev. 2010.


O tema central é a fuga de Odisseu. Percebe-se pela figura que está bem destacada a imagem do carneiro1 tendo por debaixo um homem que retrata Odisseu, despertando a atenção de todos quanto o observe. Esta cena está no canto quarto da odisseia, narrado a seguir:


Eu – um carneiro mais forte que todos ali se encontrava – esse agarrei pelo dorso, e na lã da barriga escondi-me, onde fiquei, tendo o velo abundante com as mãos aferrado, sempre na mesma postura, encurvado e com muita paciência. Entre suspiros, ansiosos, a Aurora divina aguardamos. (HOMERO, 2000, p. 166). 


Odisseu é o personagem principal e foi à causa da pintura. Esta cena acontece quando o mesmo foge do ciclope2 Polifemo. A forma que encontrou para fugir foi saindo embaixo de uma ovelha. O ciclope por certo criava estes animais, e não seria capaz de matá-las e sim os culpados de sua cegueira.

Por ser de uma técnica de pintura negra, alguns detalhes aparecem sem muito destaque.

Já em relação aos pintores, quem mais se destacou foi Exéquias e um de seus discípulos aprimorou sua técnica desenvolvendo-a em sentido contrário, ou seja, as figuras seriam da cor do barro. Dentre estes aperfeiçoadores quem mais se destacou por suas geniais pinturas, foram Eufrônio e Eutimidas. Podemos conferir ao destacar um vaso ático (fig. 2.2) do ano 490 a.C. tendo como personagens principais Odisseu e as sereias.


Figura 2.2

Fonte: minasdeouro.com. br/2009/07/01/a-odisseia/. Acessado em fev. 2010.


O que se pode perceber nesta figura é que o pintor quis representar o canto doze da Odisséia, que narra o momento em que Odisseu foge do ciclope e arrisca-se no mar. Na cena Odisseu pede aos tripulantes que o amarrem, pois se ouvisse o canto das sereias, e se fosse enfeitiçado por elas, morreria (Cf. PIERRE, 2002, p. 17). Os tripulantes estão pintados pequenos devido à ênfase dada a Odisseu o qual após pedir que seja amarrado pede a eles que fiquem no mastro e remem. Na figura, os tripulantes não são tão importantes como Odisseu e as sereias que artisticamente estão pintados de uma forma que chama atenção.  A narração mostra que foram atraídos3 sendo o barco levado até as sereias que logo começam a cantar:


Vem para perto, famoso Odisseu, dos Arquivos orgulhoso, traz para cá teu navio, que possas escutar-nos. Em nenhum tempo ninguém por aqui navegou em nau negra, sem nossa voz inefável ouvir, qual dos lábios nos soa. Bem mais instruído prossegue, depois de se haver deleitado. Todas as coisas sabemos, que em Tróia de vastas campinas, pela vontade dos deuses, Troianos e Argivos sofreram, como, também, quando passa no dorso da terra fecunda. (HOMERO, 2000, p. 214-215).


A cena pintada referenciando as sereias da qual são vistas metade peixes e metade pássaros eram consideradas “Demônios marinhos em parte mulheres em pássaros […]” (KURY, 2003, p. 374). O que está visível é que estão entrando em uma caverna ou aproximando-se de uma ilha. Odisseu advertiu os seus que o amarrassem e logo depois cada um tampasse seus ouvidos e assim foi feito.

O precioso artista tocado pelo gesto simbólico de tornar vivo algo que foi cantado faz despertar nesta figura a relação humana com os deuses gregos. Entrelaça-se, portanto, o destaque que é dado a um personagem muito importante de toda a Odisséia. Comparando com a figura negra, notamos que, a técnica de figuras vermelhas dá mais vida à figura, revesti-a da arte desafiadora deixada para nós por esses pintores.

Os Gregos, tendo sido uma das civilizações que desenvolveram técnicas em vasos deixaram para as civilizações futuras um tesouro muito vasto e riquíssimo em recursos de pesquisa. Estando próxima de quem a estuda despertam valores filosóficos e históricos, porque mostraram que esse desafio de gravar cenas do cotidiano e até mesmo de mitos podiam ser executados racionalmente.

Não se deseja menosprezar algumas culturas, mas o desenvolvimento da pintura grega guardou por milhões de anos o jeito original de um povo. E não só isso, mas um trabalho muito avançado para um período tão distante.


CanceReferências Bibliográficas


BUZZI, A. R. Introdução ao Pensar: o ser, o conhecimento, a linguagem. 27. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2000.


HOMERO. Odisséia. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Ediouro, 2000.


JAEGE, W. W. Paidéia: a formação para o homem grego. Tradução de Artur M. Parreira. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1989.


KURY, Mário da G. Dicionário de Mitologia grega e romana. 7. Ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 2003.


PIERRE, Vidal-Naquet. O mundo de Homero. Tradução de Jônatas Batista Neto. São Paulo: Companhia das letras, 2002.


RIBEIRO JR., W. A. O formato dos vasos gregos. Portal Grécia Antiqua.  São Carlos, 1988 atualizado em 2008.  Disponível em: www.greciantiga.org/img/index.asp?num=0023. Acesso em: 7 jun. 2009.


WOODFORD, Susan. Grécia e Roma. In: Introdução à história da arte da Universidade de Cambridge. Tradução de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar, 1983.

 


Aluno do Curso de Licenciatura Plena em Filosofia na Universidade Estadual da Paraíba – UEPB. E-mail: marcelalcleante@yahoo.com.br .

1. Cf. versos 430 da Odisséia.

2. A imagem do ciclope é a de um homem gigante que tinha apenas um único olho e que morava em uma caverna só. Ele criava muitas ovelhas.

3. Cf. versos 180-190 da Odisséia.

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