As renascidas

As renascidas
Margarete Hülsendeger

publicado em 01/10/2011como <www.partes.com.br/cronicas/mhulsendeger/asrenascidas.asp>

mentira deriva, em geral, do medo injustificado.

Textos Judaicos

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestra e doutoranda em Teoria Literária na PUC-RS
O títtulo nos faz pensar em filmes de ficção científica ou até mesmo de terror, bem ao gosto de Hollywood. No entanto, lamento informar, “Renascidas”, em inglês reborn, nada mais são do que bonecas feitas de vinil, com cabelo, rosto e tom de pele tão realistas que podem ser facilmente confundidas com bebês de verdade. E ao contrário do que possamos imaginar, esses “brinquedos” não estão sendo vendidos a meninas, mas a mulheres adultas e, portanto, bem crescidinhas.

As mulheres jovens alegam que estão comprando essas bonecas para satisfazer suas “necessidades maternais”, enquanto, as mais velhas as utilizam para vencer a chamada “síndrome do ninho vazio”. O Dr. Keith Ablow, psiquiatra e consultor do canal de TV norte-americano Fox News, ao ser questionado sobre esse novo “modismo”, mostrou-se apreensivo, pois, para ele, representa mais um sintoma de como a nossa espécie está perdendo o controle sobre a realidade.

De minha parte, confesso: quando li a noticia custei a acreditar. “Necessidades maternais”?! “Síndrome do ninho vazio”?! Essas são justificativas tão absurdas, tão inverossímeis que fiquei me perguntando se a matéria do jornal não seria alguma espécie de brincadeira ou uma piada de mau gosto. Depois, quando percebi que o assunto era sério, concluí que talvez esse fosse um tema que merecesse uma discussão.

Sentir-se solitário não é um estado que agrade a muitas pessoas. Ao contrário. A solidão é repudiada pela maioria e não se poupam esforços para evitá-la. No entanto, uma mulher que procura numa boneca, por mais realista que ela seja, uma forma de suprir as suas “necessidades maternais” ultrapassou, do meu ponto de vista, todos os limites razoáveis da fantasia. Minha intolerância se baseia no fato de que existem milhares de crianças espalhadas pelo mundo necessitando de um lar e, consequentemente, de uma mãe. Assim, o que não faltam são bebês reais, e desconhecer essa verdade significa estar passando um atestado de alienação difícil de admitir em pessoas minimamente inteligentes e bem informadas.

Igual raciocínio se aplica ao caso das mulheres mais velhas que, ao verem seus filhos saindo de casa, procuram formas de compensar a sua ausência. O mesmo psiquiatra, Dr. Keith Ablow, explica que ao substituir os filhos por uma boneca – há um caso de uma mulher que adquiriu duas bonecas, as quais deu os nomes dos filhos – apenas se estará adiando o enfrentamento dessa nova condição de vida, o que só torna o desconforto, a angústia e a dor da separação ainda maiores. Mas e se a necessidade de uma criança se tornar intolerável? Bem, nesse caso, ainda defendo que um bebê de verdade é a melhor solução para o problema.

Por que, então, essas mulheres não investem em uma criança de carne e osso?

Talvez porque cuidar de uma criança real signifique um trabalho que essas mulheres não estão dispostas a assumir. Seus bebês de mentira não sujam fraldas, não choram à noite, não ficam doentes, estão sempre à disposição para serem acarinhados e logo esquecidos. Assim, fica difícil de acreditar em “necessidades maternais”. Se elas realmente existissem a escolha mais racional e, portanto, menos fantasiosa, seria a gravidez ou a adoção.

Enfim, quem chegou até o final deste texto já deve ter percebido qual é a minha posição sobre esse assunto. Não considero, assim como o Dr. Ablow, esse comportamento uma nova moda ou uma brincadeira inocente de pessoas adultas. Para mim, lamento dizer, trata-se de uma doença mental séria. Investir US$ 12 mil em uma boneca que se parece com uma criança é uma loucura que eu não consigo entender e que apenas um psiquiatra será capaz de tratar.

Uma mulher que deseja realmente ser mãe não vai abrir mão dessa experiência única chamada maternidade. Ao contrário. Ela irá querer vivenciá-la na sua plenitude, mesmo que para isso tenha de dormir pouco e não possa por dias, semanas ou meses passear no shopping. Além disso, uma mentira é sempre uma mentira e se não tomamos cuidado, ela pode se tornar uma bola de neve. E quando, finalmente, nos dermos conta será muito difícil distinguir a realidade da ilusão, por mais elaborada que ela possa parecer.

 

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