A importância da poesia na Infância

Catarina Xavier Gonçalves Martins e Anderson Pires da Silva

15/10/2011

www.partes.com.br/cultura/literatura/poesianainfancia.asp

A IMPORTÂNCIA DA POESIA NA INFÂNCIA”:

ANDERSON PIRES DA SILVA[1](CES)

CATARINA XAVIER GONÇALVES MARTINS[2](CES)

 

 

Resumo:

          O presente artigo apresenta reflexões de como a infância é vista na poesia de Manuel Bandeira e os recursos que o poeta utiliza para representar a produção poética e agradar. Analisamos a maneira como a infância é relacionada e mediada na poética modernista de Manuel Bandeira e como a palavra e a memória são matérias-primas que o poeta utiliza para a construção de seus poemas. Ainda destacamos a importância desse gênero literário ilustrado e da música no desenvolvimento da linguística e a contribuição na formação de leitores na escola contemporânea.

Palavra chave: Manuel Bandeira, infância, poesia, música.

This article presents reflections on how childhood is seen in the poety of Manuel Bandeira and resources that the poet uses to represent the poetic and please the children. We analyze how the child is related to and mediated the modernist poetry of Manuel Bandeira and as word and memory are raw materials that the poet uses to construct his poems. We also highlight the importance and illustrated literary genre of poetry and music in the development of linguistic and contribution in shaping contemporary readers in scho.

Keywords: Manuel Bandeira, childhood, poetry, music,

“A IMPORTÂNCIA DA POESIA NA INFÂNCIA”.

 

Introdução:

         Neste texto pretendemos refletir como a infância é vista na poesia de Manuel Bandeira, os recursos que o poeta utiliza para  representar à produção poética e a premente necessidade de valorizar a poesia feita para pequenos. Acreditamos que a criança, através da poesia, transforma a palavra em brinquedo e o sonho em realidade. Tudo isso  de maneira natural, estimulando o gosto e o prazer pelo ato de ler.

            Manuel Bandeira nasceu em Recife, em 1886, e faleceu no Rio de Janeiro, em 1968. Foi professor, poeta, cronista, crítico e historiador literário. Trata-se de um grande poeta modernista, escreveu seus poemas com qualidade  estética. Soube conduzir-se à criança com a palavra poética, concedendo-lhe tratamento mágico.

           O poeta, ao escrever seus poemas, lembra a sua infância, pois em diversos momentos fala de sua vida  para o público infantil. Bandeira tornou-se capaz de nos convencer de todos nossos devaneios e das crianças e merece ser lembrado  através dos seus poemas com as crianças.

            A infância revela ao poeta um mundo encantado, carregado de alegria,  inspirador que recupera um tempo perdido. Esse mundo infantil nos lembra a própria infância do poeta, que viveu sua meninice em Recife.

          A poesia infantil brasileira se iniciou no século XIX e expandiu-se nos primeiros anos do século XX. Entre os brasileiros que nessa época escreveram poesia para crianças, podemos exemplificar Olavo Bilac. Os versos instrutivos que compunha suas poesias, considerados “edificantes”, no sentido de contribuir para formar cidadãos de bons sentimentos, comprometidos com a tarefa educativa da escola. Para as crianças, porém, Bilac usava uma linguagem simples tirando a imaginação da criança. Como exemplo o poema “A Casa”, no qual o poeta valoriza a família e o lar como sagrados.

Vê como as aves tem, debaixo d’ asa,

O filho implume, no calor do ninho!…

Deves amar, criança, a tua casa!

Ama o calor do maternal carinho!

Dentro da casa em que nasceste és tudo…

Como tudo é feliz, no fim do dia,

Quando voltas das aulas e do estudo!

Volta,quando tu voltas, a alegria!

Aqui deves entrar como num templo, […]

             A poesia de Bilac mostra, através dos versos, a importância da família e o amor que os filhos devem sentir por seus familiares. Na época, quando o poeta escreveu essa poesia, tinha como função ensinar valores cívicos e morais às crianças. A criança era vista como “adulto em miniatura”, tirando sua capacidade de imaginar.

             Nos últimos anos, com  os estudos  do historiador francês Philippe Áries(1981), ficou evidenciado a natureza histórica e social da criança ao articular a infância, história e sociedade, fundamentando assim uma posição contrária à “miniaturização da criança”. Dessa forma, a valorização da infância  e  a difusão do conceito moderno, acentuam o caráter diferenciado dela, na sua dependência  e fragilidade, o que assegura a necessidade de proteção. A ideia de infância moderna foi universalizada.   Além disto, a escola  através da poesia, pode provar sua utilidade quando se tornar o espaço para a criança refletir sobre sua condição pessoal. E também, ao longo desse mesmo século, cresceu o esforço pelo conhecimento da infância em várias áreas do conhecimento. Outros poetas modernos e contemporâneos surgiram, a poesia infantil  conquistou espaço e seus leitores.

           A poesia destaca o papel que a imaginação desempenha na vida da criança, as diversas possibilidades de representação do real e os modos próprios de estar no mundo e de interagir com ele. Sem dúvida, o contexto histórico-social em que foram produzidas as poesias de Manuel Bandeira é influenciado tanto pelo conceito de infância vigente da época, quanto pelo olhar do poeta modernista.

            Manuel Bandeira já havia notado, desde muito cedo, que em suas memórias da infância estavam os elementos necessários para lançá-lo a uma criação mais ousada e renovadora em que a construção dos versos se dá a partir dos elementos mais simples e familiares. O poeta se utilizava com frequência das suas lembranças da infância para escrever seus poemas. Ele invocava as cenas e as personagens que estruturavam sua vida no passado a partir das lembranças da infância. É com auxílio desse tempo  que ele chega ao presente e até mesmo ao futuro de sua obra, uma vez que tal processo estabelece o devir da poética de Bandeira.

          Podemos notar a infância na poética bandeiriana, assim como a poesia encarna um poder transformador, como se possuísse um poder mágico de mudar o mundo. O mundo infantil, com sua magia, adquire esse poder de transformar a realidade em sonho, através do lúdico e do encanto que é transformado em poemas. O poeta vê a infância como um tempo bom em que à imaginação e as brincadeiras lúdicas sobrepõem-se ao mundo adulto rígido, racional e com várias nuanças de problemas existenciais, afetivos, amorosos, etc. Podemos exemplificar com o poema “Porquinho da Índia”:

           Quando eu tinha seis anos

           Ganhei um porquinho da índia.

           Que dor de coração me dava

         Porque o bichinho só queria estar debaixo do

            Fogão!

           Levava ele pra sala

           Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos

           Ele não gostava:

           Queria era estar debaixo do fogão.

           Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas…

            _ O meu porquinho da índia foi minha primeira

            namorada.

           O poeta nos traz de volta a infância, destaca a pureza, a inocência de uma criança que dedica todo o seu afeto a um animal de estimação. É escrito com jeito de criança, porém o poeta cria um ambiente mais emotivo, com palavras no diminutivo, para atingir a infância. O toque de humor fica por conta do verso final, espécie de conclusão em que introduz a fala do eu lírico. O passado é visível nos versos.

        A infância se contrapõe, aos poucos, às privações de uma vivência transitoriamente marcada pela fraqueza física e pela contradição de ampliar o presente além das rigorosas normas que a doença constituía. A confiança e a perfeição com que o poeta narra os acontecimentos da sua infância sugerem, conteúdo da memória, de maneira natural. O seu discurso é lançado ao leitor, mas ele mal consegue perceber  o caráter construtivo das lembranças. Desse modo, o relato da infância de Bandeira revela uma edição de acontecimentos bibliográficos que busca mostrar as implicações destes para o desenvolvimento de sua poesia.

           Segundo Nelly Novaes, Manuel Bandeira rompe com os esquemas tradicionais e sua linguagem torna-se lúdica, irreverente e fragmentada. Ele desperta no leitor um efeito novo, pois utiliza a repetição como recurso. Para que o poema fique significativo, explora a sonoridade o ritmo das palavras soltas. Por isso, os poemas modernos agradam os ouvidos das crianças. Podemos exemplificar com fragmentos do poema Trem de ferro:

Café com pão

Café com pão

Café com pão

Virge Maria que foi isso maquinista?

Agora assim

Café com pão

Agora assim

Voa,fumaça[…]

         O poema apresenta canto e ritmo jocoso, e se desenvolve em torno de uma necessidade básica da criança, combinada a uma situação de prazer que é a viagem. É também um diálogo entre o poeta e o leitor/ouvinte. (NOVAES, 2000, p.237).

         Procuramos entender a infância e as crianças na sociedade contemporânea, de modo a  compreender a delicada complexidade e a dimensão criadora das ações infantis. Encontramos interessantes contribuições na obra do filosofo alemão Walter Benjamin (2002).  Conhecer a infância e as crianças favorece ao homem ser sujeito crítico da história que ele produz. Para o autor, “a criança mistura-se com as personagens de maneira muito mais íntima do que o adulto. O desenrolar e as palavras trocadas atingem-na com força inefável, e quando se levanta está envolta pela nevasca que soprava da leitura”.Ainda segundo o autor, “é possível fazer da criança um ser natural, ele faz uma crítica a concepção equivocada que os adultos mantinham da criança, considerando-a incompleta e incapaz”. (BENJAMIN, 2002, p.57).

           Acreditamos que a criança vê seu universo projetado sendo capaz de tratar a palavra como um brinquedo, logo ela cria um universo de sonho e realidade, de maneira muito mais natural do que o adulto. Walter Benjamin sublinha a diferença entre a imaginação infantil e o conceito que o adulto faz do universo lúdico da criança.

         Como podemos observar em Benjamin a imaginação da criança por si só já é fantasiosa.  Bandeira ao escrever “Porquinho da Índia,” pensa a fantasia na criança. A poesia devido a sua estrutura formal, pode ser instrumento de comunicação rápida com a infância. Benjamin faz uma critica a infantilização da criança como:

  “Não devemos traduzir o mundo para as crianças, e lhe entregar tudo pronto,porque, segundo ele, as crianças, são capazes de sozinhas relaborarem e elaborarem significados para o que está em sua volta. Constroem seu mundo de coisas, a partir dos materiais e resíduos espalhados pelo mundo. Nesses detritos,elas reconhecem o rosto que o mundo das coisas assume para elas,e só para elas.A criança aceita perfeitamente coisas sérias,mesmos as mais abstratas e pesadas,desde que sejam honestas espontâneas”.(BENJAMIN, 2002,p.237)

             E é justamente com Benjamin que podemos exemplificar que a as crianças são seres capazes.Elas constroem a partir de resíduos ou sobras, pois é na poesia, que a infância  estabelece novas relações  e combinações.  Com as crianças, é possível mudar o rumo das coisas ou mesmo o conceito que se tinha (ou se tem) de infância.

        Em lugar de manipular conceitos (como antes), a poesia explorava as virtualidades da matéria verbal: a sonoridade e o ritmo das palavras soltas. Dessa maneira, em geral, os breves poemas agradam os ouvidos infantis.

          Os pressupostos de Benjamin nos levaram a realizar um trabalho com poesias, tendo como objetivo levantar, a partir da leitura das poesias de Manuel Bandeira, os recursos de que se valem o poeta para promover a  produção poética e a criança. Os poemas foram retirados do volume Meus primeiros versos: Berimbau e outros poemas.

          Segundo Nelly Novaes (2000), “um projeto que contempla a poesia, deve ter claro a concepção de infância e enxergar a literatura e a música como um fenômeno da linguagem”, estabelecer relações entre literatura, história e cultura entender a leitura como um diálogo entre leitor e o texto e ver a escola como espaço de cultura.

         Acreditamos no poder da poesia e da música de despertarem na criança o gosto pela leitura através da fantasia, da emoção do som e imagem que elas produzem.

A criança e a poesia:

            Na poesia de Bandeira, há o toque lúdico, o humor, o ritmo musical envolvente, o lirismo e clareza de linguagem. O poeta construiu poemas que evocam a infância, envolvendo brincadeiras de rua, associando a música às situações divertidas do cotidiano. Esta articulação da poesia com ritmo musical também é uma maneira que ele utilizou para recordar e valorizar  o folclore e a linguagem coloquial.

           Sabemos que as crianças da atualidade, com os avanços tecnológicos e a rapidez da informação, convivem com diferentes imagens no cotidiano através dos diversos gêneros textuais,que circulam na sociedade.  No entanto, elas necessitam da visualização de imagens para despertar sua atenção. A poesia, tão sensível e sutil que torna-se difícil penetrar nesse universo infantil, ditado pela mídia,  pela velocidade e pelo  barulho desse mundo contemporâneo. Torna-se uma competição injusta, se levarmos em consideração que para ler poesia, os alunos precisam estar tranquilos e concentrados em um ambiente adequado. Como conseguir atenção das crianças, onde a imagem e o barulho são tudo na atualidade?

           Uma alternativa para incentivar leitura de poemas, nas crianças, já há muito tempo usada pelo mercado editorial, é o apelo visual do livro, uma harmonia entre texto, ilustração e o projeto gráfico. Outra opção muito interessante que a criançada gosta é a musica; podemos exemplificar com o DVD da Adriana Partimpim. A imagem não rouba a cena da poesia, pelo contrário, enriquece o texto e desperta o interesse e gosto da criança pelo ato de ler e ouvir. E ainda, baseado nos pressupostos de Walter Benjamin:

“A criança redige dentro da imagem. Por isso, ela não se limita a descrever imagens: ela as escreve e rabisca […]. Essas imagens são mais eficazes que quaisquer outras na tarefa de iniciar a criança na linguagem e na escrita. No reino das imagens coloridas, ela sonha seus sonhos até o fim”. (BENJAMIN, 2008,p.242).

           Ao realizarmos trabalho com música da Adriana Partimpim, quanto o de poemas ilustrados de Bandeira, foram de grande valia para a turma, pois de acordo com Benjamin, “A ilustração faz a fantasia infantil mergulhar, sonhadoramente, em si mesma”. Essas imagens estimulam na criança a leitura, penetrando nas ilustrações, ela redige dentro da imagem e do som. (BENJAMIN, p.239).

          Manuel Bandeira constrói sua obra, tal como Benjamin (2008) identifica a forma com que as crianças fazem história, ou seja, a partir da história de cada um, elas constroem seu mundo de coisas, a partir dos materiais e resíduos espalhados pelo mundo. “Nesses detritos, as crianças identificam o rosto das coisas e assume para elas”. Bandeira elege para matéria de poesia a pobreza, os objetos, a sua doença e tudo que relembra sua infância com a família em Recife.

            Adriana Calcanhoto, conhecida pelas crianças como Adriana Partimpim, desde a infância adotou a música na sua trajetória existencial.  Suas canções agradam tanto as crianças quanto os adultos, trazendo um repertório diversificado da música popular brasileira. A cantora, sabendo que a música faz parte da vida infantil desde muito cedo, como as cantigas de ninar, os brinquedos sonoros, poesias e todo tipo de  jogo musical, compôs DVDs envolvendo poesia de poetas brasileiros, inclusive o  poema “Os sapos” de Manoel Bandeira. Esses momentos de troca e comunicação sonoro-musicais favorecem o desenvolvimento afetivo e social da criança.

         O trabalho com música e poesia na escola é essencial para que os alunos entrarem em contato com a própria música, de modo prazeroso e interessante. Serve para garantir os estudos linguísticos e o seu sucesso, não podendo deixar de lado a capacidade de aprimorar a expressão musical das crianças, além de colaborar com a humanização dos indivíduos, tornando-os mais sensíveis, criativos e reflexivos.  Alicia Maria Almeida Loureiro afirma que:

“Significa que é fundamental o papel da escola no estudo da cultura musical, pois nela, como terrenos de mediação, poderão ocorrer as trocas de experiências pessoais, intuitivas e diferenciadas. Daí a necessidade de não perdermos de vista as práticas musicais que respondem os movimentos sociais e culturais que vão além dos muros da escola mas que refletem, mais cedo ou mais tarde, no interior da sala de aula”. (LOUREIRO,2010,p121).

             Considerando as ideias de Loureiro, a música exerce papel importante na escola, pois é justificada pelo desenvolvimento do ser humano, por meio da conscientização da interdependência entre o corpo e a mente, entre a razão e a sensibilidade, entre a ciência e estética. (Loureiro, 2010, p.142) Com isso, percebe-se que a música não pode estar dissociada das práticas cotidianas dos alunos, uma vez que as atividades musicais que envolvem o canto, a poesia, o movimento e a improvisação, já fazem parte do ambiente das crianças, no meio familiar ou fora dele.

            A música e poesias rítmicas devem ter lugar em destaque na educação linguística, pois ajudam no desenvolvimento da leitura e também na parte afetiva e social. Podemos pensar na música como instrumento poderoso na educação, não só na linguística, pois através do seu uso estimulamos uma área do cérebro não desenvolvida entre outras linguagens oral e escrita. Além disso, a música melhora  a capacidade de concentração e potencializa a memória.

        O trabalho com músicas e poesias conhecidas das crianças traz um bom resultado no desenvolvimento da aprendizagem como um todo. Ao ler e ouvir, os aprendizes precisam chegar até a palavra, pois descobrir o que está escrito na música e na poesia, não implica simplesmente em trabalhar os sons, mas as palavras. Ainda de acordo com Nelly Novaes:

   “Poesia é também imagem e som. As palavras são signos que expressam emoções, sensações, idéias… através de imagens ( símbolos, metáforas, alegorias…) e de sonoridade(rimas,ritmos…). É esse jogo de palavras, o principal fator da atração que as crianças tem pela poesia, transformando em canto ( as cantigas de ninar, cantigas de roda…). Ou pela poesia ouvida ou lida em voz alta, que lhes provoque emoções, sensações, impressões, numa interação lúdica e gratificante.” (NOVAES, 2002, p.222)

            A palavra é a matéria-prima de que dispõe o poeta Manuel Bandeira para realizar seu trabalho e também Adriana Partimpim, para compor suas músicas se utiliza da palavra. Já as crianças utilizam as palavras para recriar e produzir cultura através de sua realidade.

           A poesia é apenas um dos usos entre todas as possibilidades da língua e talvez, o mais criativo. Ela pode ser pictórica, plástica, dramática, musical, afetiva, moral e lúdica etc… Deveria ser um dos argumentos para que a escola passasse a ver a poesia não como “perda de tempo”, mas como uma das maneiras de derrubar certos preconceitos em relação ao gênero literário, pois as primeiras brincadeiras são feitas de rimas e trocadilhos.

           Em meio a essa crise da vida contemporânea, como professora de projeto de literatura, fomos buscar na poesia de Manuel Bandeira, suporte para a realização de um trabalho com poemas, com as turmas de quarto e quinto anos do Ensino Fundamental de uma escola municipal em Juiz de Fora, Minas Gerais. O brincar com as palavras leva a descobertas incríveis, por isso realizamos um trabalho com algumas poesias de Manuel Bandeira e especialmente o poema: “Na rua do sabão”.

             Este poema se aproxima do cotidiano e da rotina das crianças de periferias,  suas brincadeiras de rua,  caracteriza o ambiente onde elas  crescem e também lembra  meninos soltando pipas, uma atividade muito comum na infância.  As cantigas folclóricas compõem uma característica tipicamente ligada às crianças e Manuel Bandeira retrata bem isso no poema: “Na rua do sabão”.

Cai cai balão

Cai  cai balão

Na Rua do Sabão!

O que custou arranjar aquele balãozinho de papel!

Quem fez foi o filho da lavadeira.

Um que trabalha na composição do jornal e tosse muito.

Comprou o papel de seda, cortou-o com amor, compôs os

                                                                  [gomos oblongos…

Depois ajustou o morrão de pez ao bocal de arame.

Ei-lo agora que – pequena coisa tocante na

                                                        escuridão do céu.

Levou tempo para cair fôlego.

Bambeava, tremia todo e mudava de cor.

A molecada da Rua do Sabão

Gritava com maldade:

Cai cai balão!

Subitamente, porém, entesou, enfunou-se

[e arrancou das mãos que o tenteavam.

E foi subindo…

                     para longe…

                                      serenamente….

Como se o enchesse o soprinho tísico do [ José.

Cai cai balão!

A molecada salteou-o com atiradeiras

                        assobios

                         apuros

                         pedradas.

Cai cai balão!

Um senhor advertiu que os balões são proibidos pelas

 [posturas municipais]

Ele foi subindo…

                           muito serenamente…

                                                              Para muito longe…

Não caiu na Rua do Sabão.

Caiu muito longe… Caiu no mar – nas águas puras

                                                                     [do mar alto.

          Este poema é muito importante por representar um progresso no estilo poético de Manuel Bandeira devido à linguagem coloquial e o uso do verso livre. O início deste poema dá-se pela conhecidíssima cantiga popular que incentiva o leitor a cantá-la imitando-lhe a uma criança.

          A utilização desse refrão popular na primeira estrofe, faz com que o leitor, conhecedor da canção, inicie a leitura do poema cantando alegremente como uma criança. Mas este sentimento de alegria da abertura não se prolonga nos versos seguintes. E o poeta mostra verdadeiramente o que vai tratar em seu poema: a triste situação de um menino pobre e doente. Desse modo, a alegria inicial não passa de uma falsa imagem.

        Esta colagem do refrão, feita por Bandeira, além de transportar a musicalidade da canção popular para seu poema recria o linguajar popular, recurso estético próprio do modernismo, trazendo para ele (o poema) uma linguagem próxima ao dia a dia.

         A segunda estrofe mostra a fase de construção do balão por um menino pobre (filho de uma lavadeira) e doente (que tosse muito), uma representação da criança que pode ser comparada à do próprio poeta, também doente. Após o esforço empreendido pela criança doente (“Levou tempo para criar fôlego. / Bambeava, tremia todo e mudava de cor.”), o balão sobe e alcança o céu escuro, representando uma espécie de vitória do menino que mesmo doente (“com seu soprinho tísico”) alcança o inacessível céu. De forma mágica e lúdica, superando toda maldade das crianças da “Rua do Sabão” que gritavam para que o balão caísse e que também o apedrejavam, juntamente com a lei de proibição municipal ao balonismo – neste momento representado pela figura de um homem e seu mundo puramente racional sem capacidade imaginativa – o balão alcança o céu.

 Conclusão:

             Concluímos que na poética bandeiriana, a infância é usada pelo poeta como uma forma de recordar o seu passado relembrando os bons tempos de infância com sua família, bem como as brincadeiras de rua, as cantigas do folclore brasileiro, o que representam  traço de brasilidade, algo comum aos poetas do Modernismo.

               Nas poesias de Bandeira, observamos um diálogo entre imagem e texto, garantindo a qualidade pictórica das obras, sem perder a riqueza do texto poético. Apesar da linguagem coloquial dos poemas de Bandeira, percebemos o envolvimento e entusiasmo dos alunos com o trabalho realizado.

               O trabalho com poesia e música na escola, ajuda os aprendizes aperfeiçoarem o vocabulário, a leitura, a linguagem oral, entrem em contato com a cultura e atinjam o universo da infância. Estimulando desde cedo a consciência crítica do leitor.

Referências :

ALVES, Licilange. A infância na poética Bandeiriana. (internet) Disponível em: 23/02/2010 ( http://).

ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. 2.ed.Rio de Janeiro: LTC,1981.

BANDEIRA, Manuel. Berimbau e outros poemas. 3. ed.Rio de Janeiro.Nova Fronteira,2006.

 BANDEIRA, Manuel. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro.Nova Aguiar,1996.BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política, obras escolhidas. 11° .ed.São Paulo.Brasiliense,2008.

CAVALCANTI, Dias. Dois poetas modernistas e o motivo da infância: Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade (Revista travessia) (internet) UNICAMP.

CALCANHOTO, Adriana, Partimpim, Volumes I,II

LOUREIRO, Alicia, Maria. O ensino de música na escola fundamental. 7.ed.São Paulo: Papirus. 2010.

NOVAES, Nelly, Coelho. Literatura Infantil: teoria, análise, didática d. São Paulo:  Moderna, 2000.

 [1]- Professor do mestrado (CES.JF) Pós-Doutor em Literatura Brasileira (UFRJ),Doutor em Estudos da Literatura(PUC R.J), Mestre em Literatura Brasileira (UERJ) Graduado em Letras (U.F.J.F).

2- Mestranda em Literatura Infanto-juvenil Brasileira pelo CES,Graduada em pedagogia pelo CES, Atualmente coordenadora pedagógica e professora da Rede Municipal de Juiz de Fora.

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