A transcendência do olhar

 

A transcendência do olhar

 

Fernanda Leite Bião[1]

Hidemberg Alves da Frota[2]

A compreensão da linguagem de um olhar assemelha-se à capacidade de decifrar uma obra artística construída em meio ao sagrado da presença divina e ao profano de uma vida na terra.

O olhar de Jesus tinha a capacidade de mobilizar vidas, serenar almas e despertar consciências. Transmitia a confiança no potencial humano de cada ser que dele se aproximava.

Por meio das nossas vivências e da permissão que damos a nós mesmos para a elaboração de novas atitudes, concebemos lentes novas para ver situações e experiências pessoais e interpessoais até então inexistentes ou despercebidas. Tudo depende dos olhos que veem!

Ao aprendermos a olhar os nossos semelhantes para além das representações sociais e das imagens que nossos cérebros podem decodificar, vamos encontrar em nossos pares, não o reflexo de estereótipos sociais nem apenas os desenhos de seus corpos, mas almas em constante transcendência, em um incessante movimento entre o status em que se encontram e o vir-a-ser, à medida que insculpem na história de suas vidas a narrativa de uma caminhada até então desconhecida e, ao trilhar esse percurso de renovação, aos poucos trazem a lume uma nova realidade e a possibilidade de recriar sua existência.

Tomemos como exemplo o jovem que, aprovado no vestibular, ingressa em curso de nível superior e, passo a passo, sobe os degraus da sua vida acadêmica de graduando, até que, ao fim da sua graduação, transcende a condição de aluno, ao colar grau, tornar-se um profissional e adentrar o mercado de trabalho. Ao longo dessa trajetória, remodela a própria identidade como pessoa, influenciado pelos valores e ideais da profissão que abraça, dos saberes que assimila e da vivência do seu cotidiano profissional.

O contexto evolutivo da humanidade, como da natureza em geral, não é estanque nem estático.

É preciso a abertura consciencial para divisar as mudanças saudáveis que o outro floresce na própria existência e que, ao fazê-lo, em um efeito multiplicador, deflagra nas almas daqueles com quem coexiste. Assim como nós, o outro tem o direito de aprender, vivendo, e, baseado em suas vivências, melhorar a si mesmo e servir de exemplo ao desenvolvimento dos demais.

É preciso permitir a si mesmo atualizar a própria perspectiva sobre o outro e suas circunstâncias, transmutando o próprio olhar diante dos ventos da transformação.

Então, olhe! Aproprie-se das imagens, decodifique-as sem a pressa de julgar. Aprecie os horizontes divisados. Permita a outro crescer e cresça com ele. Embora nossas vivências sejam bússolas personalizadas que direcionam a nossa caminhada e o que tem em nós seja fruto daquilo que vivenciamos não podemos nos prender à experiência pretérita como expressão da verdade absoluta, congelada no tempo.

[1] Psicóloga. Professora de Psicologia e Formação Humana em Belo Horizonte. E-mail: fernandabiao9@hotmail.com.

[2] Agente Técnico-Jurídico do Ministério Público do Estado do Amazonas. E-mail: hidemberg_frota@yahoo.com.br.

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