Sentidos

Madalena Carvalho

viajante sentia-se solitário ao sair de uma missa. De repente, foi abordado por um amigo: – Preciso muito falar com você, ele disse. O viajante viu naquele encontro um sinal, e ficou tão entusiasmado que começou a conversar sobre tudo que considerava importante. Falou das bênçãos de Deus, do amor, disse que o amigo era um sinal de seu anjo, pois sentia-se solitário minutos atrás, e agora tinha companhia.

 

O outro escutou tudo em silêncio, agradeceu e foi embora.

Em vez de alegria, o viajante sentiu-se mais solitário que nunca. Mais tarde se deu conta … no seu entusiasmo, não tinha dado atenção ao pedido daquele amigo: falar.

O viajante olhou o chão, e viu suas palavras jogadas na calçada, porque o universo estava querendo outra coisa naquela hora.

Paulo Coelho

Sentidos …

Ao ler esse texto do Paulo Coelho fiquei pensando em como os nossos sentidos (tato, olfato, visão, paladar, audição) muitas vezes não possuem sentido (do verbo sentir) algum. Usamos nossa visão, por exemplo, para enxergar tão somente a nós mesmos e quase nada vemos do outro e pior ainda quando somos incapazes de nos ver.

É triste termos olhos que mal vêem a um palmo de distância. Continuamente falamos sem ouvir, caminhamos lado a lado sem enxergar o rosto do companheiro de jornada, não enxergamos suas feições, não reconhecemos seu nome, não sentimos a força do seu olhar.

Esbarramos como se fosse um objeto qualquer. Sei de pessoas que passam a noite com alguém, que trocam “carícias” e se despendem sem maiores compromissos, sem ao menos saber o nome daquele(a) fulano(a). Vivemos relações em que estamos perdendo a dimensão do amor, da capacidade de sermos empáticos, de prestarmos atenção no essencial.

Nossos sentidos não percebem a urgência da expressão do afeto, do carinho, do amparo, do ouvir, como a estória (ou seria história, já que tantas vezes se repete no dia a dia?) do viajante contada acima. E com tudo isso vamos vivendo relações em que somos cegos. Não percebemos os sentimentos alheios, não nos importamos com as dores e alegrias do outro, não valorizamos acertos, não conversamos sobre medos, incertezas, angústias, decepções, pois tudo isso exige disponibilidade, cuidados, tempo, comportamentos de amor que não mais nos habituamos a fazer.

Há quem diga que cada um que cuide de seus problemas e eu pergunto: Não seria por isso que as pessoas vão se distanciando, que as relações se enfraquecem e que a amizade e o amor parecem serem coisas do passado?

Usamos mil desculpas para justificar a apatia, a insensibilidade, o desinteresse, a desconfiança, a cegueira, a pouca disponibilidade ao outro como pessoa.

Isso acontece na família, nas relações com a pessoa amada, no ambiente de trabalho, no clube … e vamos perdendo, sem perceber, nossa capacidade de tratar o outro com respeito, dignidade e profundo amor. E vamos nos perdendo em ansiedades, angústias, agressões, desrespeitos, exigências e reclamações.

Esquecemos, também, que está em nossas mãos a capacidade de criar e mudar nosso próprio futuro, de fazer diferente, de não precisar repetir os erros. Esquecemos que só nós podemos tornar fascinante a vida e sermos uma pessoa melhor.

Podemos e devemos aproveitar melhor nossos cinco sentidos, ou seja, nossa capacidade humana, e para isso não é necessário mudanças extraordinárias de comportamento, basta que nossa missão de vida passe pelo caminho estreito da paciência, bondade, humildade, respeito, perdão e compromisso.

Que saibamos nos ver e ao outro como seres complexos, frágeis, singulares; que possamos entender que os sentimentos são conseqüências dos comportamentos, assim sendo, que saibamos transformar momentos de raiva e frustração em momentos de ternura, serviço e amor e isso enquanto ainda há tempo, porque somos finitos.

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