Fanfiction: fenômeno da extimidade contemporanea

DANIEL RADCLIFFE as Harry Potter, BONNIE WRIGHT as Ginny Weasley and ARTHUR BOWEN as Albus Severus Potter (19 years later) in Warner Bros. Pictures’ fantasy adventure movie “HARRY POTTER AND THE DEATHLY HALLOWS – PART 2,” a Warner Bros. Pictures release. Photo courtesy of Warner Bros. Pictures

 

FANFICTION: FENÔMENO DA EXTIMIDADE CONTEMPORÂNEA

 

Andriza Machado Becker[*]

 

 

RESUMO 

Andriza Machado Becker é graduada em Letras/Português e Literaturas. Especialista em TICs Aplicadas à Educação e Mestranda em Educação – PPGE/UFSM. E-mail: andrizabecker@gmail.com

As fanfictions são recriações de textos originais de livros, filmes, séries, etc. inseridas em comunidades virtuais. Essa recriação retoma a essência dos diários íntimos anteriores a existência da internet, porém nesse caso temos uma escrita extimizada a qual torna-se espetacularizada uma vez que necessita da cibermídia e da exposição para confirmar sua existência. 

Palavras-Chave: Extimidade; Fanfiction; Comunidade; Diários Íntimos na Internet. 

 

ABSTRACT 

The fanfictions are recreations of the original texts of books, movies, series, etc. inserted in virtual communities. This recreation takes the essence of intimate diaries prior to the existence of the internet, but in this case we have a open written which becomes public since it needs cybermedia and exposure to confirm its existence.

Keywords: Open Written; Fanfiction; Community; Intimate Diaries on the Internet.

 

 

Introdução

Fanfictions são histórias recriadas por fãs de textos originais – não necessariamente impressos, pois que muitos deles são imagéticos – envolvendo os cenários, personagens e tramas previamente desenvolvidos pelo autor original, sem que exista nenhum intuito de quebra de direitos autorais e de lucro envolvidos na prática. Os ficwrites dedicam-se a escrevê-las em virtude da profundidade da experiência que vivenciam no contato com o texto original (RÖSING e VARGAS, 2005).

A origem expressiva dessas produções está relacionada à série Harry Potter, de J. K. Rowlling sendo, ainda hoje, as mais numerosas. A circulação se dá via comunidades nas quais os adeptos desse hobby literário são, em sua grande maioria, jovens na faixa etária dos 13 aos 20 anos que, por opção, transcenderam status de meros consumidores de histórias expandindo seu relacionamento com esse universo ao recriá-lo e/ou ampliá-lo em seus próprios contos (PADRÃO, 2007).

Dessa forma, emerge uma nova relação não apenas com a indústria cultural, mas com a forma de recepção de um texto, de um filme, de seriados de TV, entre outras manifestações, a medida em que extimizam para diversas outras pessoas propensas a essa relação.

Extimidade define-se no ato de se tornar visível, espetacularizando o próprio eu e criando uma intimidade que necessita do olhar alheio para confirmar a sua existência, trata-se de um conceito lacaniano explorado por Sibilia (2008).

Buscando conhecer o fenômeno da extimidade e tecer algumas considerações pertinentes as produções textuais da fanfictions, o presente artigo direciona-se para a noção de comunidade na era da virtualização, compreendido por Bauman (2001, 2005) e a alteração que os suportes virtuais estão provocando nas práticas de leitura e escrita na contemporaneidade.

 

As Fanfictions e noção de Comunidade

As comunidades virtuais destinadas à criação, circulação e manutenção das fanfictions parecem, em sua maioria, pautar pela segurança e pela circulação da produção de seus usuários uma vez que possuem regras de direitos autorais e algumas só permitem acesso às produções tornando-se um membro da comunidade via cadastro. Ao contrário, não se pode dizer que há um controle rígido acerca da idade dos participantes – o cadastro não exige nome verdadeiro, o que facilita o uso e acesso de crianças e adolescentes.

Essas comunidades são voltadas para escritores de todos os níveis – sejam relatos ou construções ficcionais, porém a grande predominância é das fanfictions – numerosas produções escritas por usuários apresentados por nicknames. A cada instante surgem novas postagem sinalizadas pela comunidade que convida os usuários a tecer comentários e a julgar a qualidade da produção.

Cabe aqui salientar a abordagem sociológica deste tipo de espaço contemporâneo, pois as comunidades passam por um processo de ‘virtualização’, onde o tempo não é mais definido em paralelo ao local:

as comunidades em questão tendem a ser voláteis, transitórias e voltadas ao “aspecto único” ou “propósito único”. Sua duração é curta, embora cheia de som e fúria. Extraem poder não de sua curta duração mas, paradoxalmente, de sua precariedade e de seu futuro incerto, da vigilância e investimento emocional que sua frágil existência demanda a gritos (BAUMAN, 2001, p. 228).

A noção de comunidade agrega também a noção de pertencimento e, para Bauman (2005) são as entidades que definem a identidade, como aponta:

É comum afirmar que as “comunidades” são de dois tipos. Existem comunidades de vida e de destino, cujos membros ‘vivem juntos numa ligação absoluta’, e outras que são fundidas unicamente por idéias ou por uma variedade de princípios’. Dois tipos, o primeiro me foi negado – tal como foi e será para um número cada vez maior de meus contemporâneos (…). A questão da identidade só surge com a exposição a ‘comunidades’ da segunda categoria – e apenas porque existem mais de uma idéia para evocar e manter unida a ‘comunidade fundida por idéias’ a que se é exposto em nosso mundo de diversidades e policultural (BAUMAN, 2005, p.17).

A fragmentação identitária também é advinda da fragmentação dos espaços de busca do conhecimento e de interação cultural, dessa forma os sujeitos pós-modernos, ou seja, àqueles conceptualizados como não tendo uma identidade fixa, essencial ou permanente. A identidade torna-se então uma “celebração móvel: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam” (HALL, 2001, p.12-3).

 

A manifestação do leitor/espectador como produtor/consumidor textual na internet

Os suportes virtuais vêm exercendo forte apelo à escrita – seja ela literária, informativa, pessoal, criativa ou não. Com isso práticas que antes eram apoiadas somente por suportes físicos como o livro, a revista e o jornal tornam-se mais abertas também quanto aos seus produtores que já não são necessariamente escritores, jornalistas, autores, ensaístas, críticos.

         Nesse cenário é evidente também que surjam questionamentos sobre a qualidade dos textos, fato que se torna mais potencializado em um espaço onde todos desejam serem lidos. Nesse sentido, Chartier (1999), analisa mais um fenômeno interessante devido à virtualização: a possibilidade de qualquer leitor-internauta assumir o papel de autor e de crítico:

as  redes  eletrônicas  ampliam  essa  possibilidade, tornando  mais  fáceis  as  intervenções  no  espaço  de  discussão constituído  graças  à  rede. Deste ponto  de  vista,  pode-se  dizer  que  a produção  dos  juízos  pessoais  e  a  atividade  crítica  se  colocam  ao alcance de todo mundo (CHARTIER, 1999, p.18).

O papel do leitor frente à experiência da leitura passou por muitas transformações até este início de século XXI – o simples ato de manusear uma obra adquiriu outro significado e isto implica também nos significados e procedimentos que assumiram a escrita.

Analisando a nova configuração do público leitor e escritor, nem sempre enfocada nos estudos sobre ensino de leitura e sobre a educação, voltamos nosso olhar para as fanfictions ou fanfics. Esses textos têm origem incerta – como muitos dos conteúdos expostos na rede – mas sabe-se que, antes de escolher a internet como suporte e meio de propagação, já existiam no papel. A ancestralidade da fanfiction remonta aos fanzines – revistas surgidas na década de 20 do século XX nos Estados Unidos, editadas por fãs, principalmente de histórias em quadrinhos, que reuniam não apenas comentários acerca de seus objetos de culto como também textos criativos neles baseados. A fanfiction é um texto criativo que tem como fundamento ser escrita por um fã de um texto original, cujos elementos ela dispõe como motes – seja personagens, enredo, ação, época, todos ou um deles –, desde que seja possível identificar nesses elementos o texto-base do qual se origina (PELISOLI, 2008).

Embora a existência da fanfiction seja anterior ao advento da internet, foi através da rede que ela se expandiu e adquiriu novos contornos. O número de comunidades e produções aumentam regularmente e são impulsionadas pelo surgimento de novas histórias de grande ênfase midiática. A extensão das publicações muitas vezes surpreende e desbanca qualquer trabalho escolar, por exemplo, alguns chegam a 40 capítulos e superam o número de páginas do original. O desejo de mostrar-se e de ser lido é o que está em jogo:

Em meio aos vertiginosos processos de globalização dos mercados em uma sociedade altamente midiatizada, fascinada pela incitação à visibilidade e pelo império das celebridades, percebe-se um deslocamento daquela subjetividade “interiorizada” em direção a novas formas de autoconstrução. No esforço de compreender estes fenômenos, alguns ensaístas aludem à sociabilidade líquida ou à cultura somática do nosso tempo, onde aparece um tipo de eu mais epidérmico e flexível, que se exibe na superfície da pele e das telas. Referem-se também às personalidades alterdirigidas e não mais introdirigidas, construções de si orientadas para o olhar alheio ou “exteriorizadas”, não mais introspectivas ou intimistas (SIBILIA, 2008, p. 23).

De certa forma, podemos pensar nas fanfictions também sob o caráter confessional que agregam os diários íntimos na internet, pois embora ficcional a recriação passa pelo imaginário e é uma leitura permeada pelos aspectos sociais e culturais do sujeito produtor/consumidor. Ao navegarmos pelas comunidades, podemos perceber que esses textos não são dotados de grandes estratégias de construções estéticas literárias, mas imprimem a marca da espetacularização do eu ao reportarem um ambiente de intimidade que necessita do olhar alheio para confirmar a sua existência.

Paula Sibilia (2003) evidencia que os ambientes íntimos e privados que começaram a proliferar três séculos atrás permitiram a escrita de si que tornou-se uma prática habitual, dando à luz todo tipo de textos introspectivos nos quais a autorreflexão se voltava não tanto para a busca de um certo “universal” do Homem, mas para a sondagem da natureza fragmentária e contingente da condição humana, plasmada na particularidade de cada experiência individual.

 

Considerações Finais

Inúmeras seriam as formas de exploração e análise desse tipo de produção que evidencia as construções dos jovens nesse início de século XXI, pois elas são muito extensas na rede. Obviamente que aqui se realizou um breve recorte e uma pequena análise pautada sob o olhar de algumas fanfictions e sua representação no contexto das comunidades as quais pertencem.

A extimidade parece se afirmar no processo de recriação de um texto original já que no século das virtualidades e borramento da noção de intimidade, essa escrita torna-se espetacularizada uma vez que necessita da cibermídia e da exposição.

Contudo, é interessante pensar nessas práticas contemporâneas seja enquanto novas práticas de leitura e escrita, seja como movimentos que alteram relações do sujeito com a sociedade e com a recepção de produções textuais, pensando nas possibilidades que as tecnologias digitais oferecem e pensando quem são esses sujeitos.

 

Referências Bibliográficas

 

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.

_____.Identidade: entrevista a Benedetto Vecchio. Tradução de Carlos Albert Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.

 

CHARTIER, Roger. A aventura do livro: do leitor ao navegador. São Paulo: UNESP, 1999.

Fanfic: Coisas de Lobo. Disponível em: <http://fanfiction.nyah.com.br/historia/50258/Coisas_De_Lobos>. Acesso em: 16 dez. 2010.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 6.ed. Rio de Janeiro: DP&A editora, 2001.

PADRÃO, Márcio. Ascensão de uma subcultura literária: ensaio sobre a fanfiction como objeto de comunicação e sociabilização. Revista Ciberlegenda, Rio de Janeiro – UFF, ano 9, n. 19. Out/2007. ISSN 1519-0617.

PELISOLI, A.C.M.D. Um objeto hipotético na internet. In.: XI CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC, 2008. São Paulo: USP, 2008. Disponível em <http://www.abralic.org.br/anais/cong2008/AnaisOnline/simposios/pdf/047/ANA_PELISOLI.pdf>. Acesso em 21 dez. 2010.

RÖSING, Tania M. K.; VARGAS, M. L. B. O distanciamento entre as práticas de leitura escolares e os interesses online dos jovens. In.: RETTENMAIER, Miguel; RÖSING, Tania M. K. (Org.). Questões de literatura para jovens. Passo Fundo: UPF, 2005, p. 73 -89.

SIBILIA, Paula. Show do eu: a intimidade como espetáculo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.

_____. Os diários íntimos na internet e a crise da interioridade psicológica. In: LEMOS, André; CUNHA, Paulo (org.). Olhares sobre a cibercultura. Porto Alegre: Sulina, 2003.

[*]é graduada em Letras/Português e Literaturas. Especialista em TICs Aplicadas à Educação e Mestranda em Educação – PPGE/UFSM. E-mail: andrizabecker@gmail.com

 

BECKER, A. M. . Fanfiction: Fenômeno da Extimidade Contemporênea. P@rtes (São Paulo) , v. fev/12, p. 1, 2012.

 

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