Virginia Woolf e Bell Hooks: demarcadas pelo gênero

Virginia Woolf

 

Virginia Woolf e Bell Hooks: demarcadas pelo gênero[1]

 

Taysa Silva Santos *

 

 

 

A mulher deve ser a protagonista de sua história, cabe a ela requerer seu espaço na sociedade desconstruindo essa ideia que perpassa gerações de que o homem é o sujeito único da história. Para tanto, deve se apossar da escrita a qual lhe foi negada durante séculos e reescrever uma nova história. Uma história de mulheres, escrita por mulheres. Ou ao menos, que desde então mulheres adentrem mais a esse espaço que é o da escrita a fim de recontar sua própria história. Só assim ter-se-á a verdadeira libertação feminina – e também as mudanças em suas condições materiais.

No entanto, há impasses no que se refere à tomada de poder da mulher enquanto produtora do conhecimento tendo em vista que de modo geral e especificamente na realidade da Inglaterra no início do séc. XX as mulheres não possuíam [e na maioria das vezes na contemporaneidade, não possuem] condições materiais, que garantam sua subsistência, sendo esse fator condicionante para as decisões tomadas. Assim, a esfera das condições materiais está intrinsecamente ligada à esfera da produção do conhecimento/ ou intelectual. Quando se tem a negação de elementos que garantam a subsistência se tem a falta de produção do conhecimento.

Então fica posto que para se produzir é preciso condições necessárias, condições essas que as mulheres não partilhavam e não partilham das mesmas que os homens, tendo em vista que tal atora/agente social além de não possuir condições materiais como, por exemplo, autonomia financeira necessária, também está condicionada aos papeis de gênero o que as distancia de terem um espaço, um tempo, “um momento todo seu”.

A condição historicamente construída define que para o intelectual produzir é necessário a solidão. O processo de escrita requer certo isolamento, e esse processo na condição de mulher possui um maior peso devido às condições socialmente impostas para as mulheres. São estigmas que se perpetuam em nossa sociedade. E na condição de mulher e negra há maior perseguição, pois os ditames sociais designam que a mulher e especificamente a negra foi feita para servir. Logo, as mulheres [digo de modo geral] têm que cuidar dos filhos, do marido, da casa, etc. Desse modo, ficando excluída do saber. Ou das condições necessárias de produção de conhecimento

No entanto, a mulher deve protagonizar sua história a ponto de questionar o porquê ela não escreve sua própria história, deve-se ter indiferença ao olhar a para prateleira de uma biblioteca e não se ver como produtora de tal conhecimento. Devemos questionar as hierarquias de poder, até por que o saber se cria através do questionamento. A mulher tem que reconhecer sua subjugação; incomodar-se com as condições de existência imposta. Só assim, se terá a construção de um projeto de consciência coletiva que fasear a mulher ser protagonista frente ao seu tempo. A mulher deve renegar essa categoria idealizadora de mulher romântica. Essa categoria não comtempla a categoria MULHER que vai além da simples idealização romancista.

O trabalho intelectual é um instrumento de libertação tendo em vista que contrasta os papeis de gênero a nos impostos, a escrita é um instrumento de emancipação. Bell hooks assim como Woolf encontra na escrita e na vida intelectual respaldo para expor sua subjetividade, o mundo interior e exterior que as cercavam: as desigualdades impostas, os ideais sexistas […].

É através do trabalho intelectual que a mulher passa a entender sua condição na história, sua posição na história. Entretanto, para maior problematização de tudo ate aqui exposto Bell hooks evidenciará além de classe social, gênero […] o quesito cor/raça, como marcador social de extrema relevância para a produção intelectual tendo em vista todo o processo histórico imposto à população negra. Outro ponto de suma importância é o de se fazer entender que o trabalho intelectual é também um trabalho. Necessitamos desconstruir essa visão elitista de que trabalho consiste somente no que é comercializado. O trabalho intelectual deve ser encarado como a indústria cultural emancipatória.

Por fim, Bell hooks e Woolf dão ênfase em seus escritos a importância de se entender as condições materiais para se produzir, a opressão vivida pelas mulheres por serem condicionadas à papeis de gênero que as subjugam aos homens, não havendo portanto igualdade de gênero. E ainda mais, a condição de ser negra aliada à categoria classe social como dinamite para exclusão social. Você ainda se pergunta o porquê à mulher deve ser protagonista de sua história [?]. Bom, espero que não.

 

Como citar esta reflexão:

SANTOS, Taysa Silva. Virginia Woolf e Bell Hooks: demarcadas pelo gênero. Rev. P@rtes, Fev. 2012, vol., no. , p. .

*Graduanda do Curso de Serviço Social da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia – UFRB. Integrante do Núcleo de Estudos e Pesquisas Gênero, Raça e Etnia e também do Grupo de Pesquisa NATUSS, Natureza, Trabalho, Ser Social e Serviço Social da mesma universidade.

E-mail: taysa_123@hotmail.com.

Professor Indicadora Doutora Suzana Maia, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia; Campus Cachoeira; Curso de Ciências Sociais.

[1]  Algumas considerações a respeito da categoria Mulher.

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