O domingo do pé de cachimbo

O domingo do pé de cachimbo

Gilda E. Kluppel

 

Hoje é domingo, pé de cachimbo

o cachimbo é de barro, bate no jarro

o jarro é de ouro, bate no touro

o touro é valente, bate na gente

a gente é fraco, cai no buraco

o buraco é fundo, acabou-se o mundo.

 

Gilda E. Kluppel é professora de Matemática do ensino médio em Curitiba/PR, Mestre em Educação pela Universidade Federal do Paraná.

Essa é uma cantiga que embalou a infância de muitos, cantada desta maneira. Ora, no sábado tinha pé de quiabo, nada mais natural que no domingo existisse o pé de cachimbo. As crianças continuamente instigadas para conhecer a planta exótica que proporcionava encantamento. Talvez fosse possível encontrá-la em algum quintal inusitado, cultivada pelo Curupira e servida ao Saci-Pererê, feroz consumidor de cachimbos.

Infelizmente, mais tarde, quebra-se o encanto ao descobrir que o domingo não possibilitava o desenvolvimento de cachimbos em pencas, revela-se a forma correta: pede cachimbo. Mas, este domingo do pé de cachimbo, cada vez mais distante quando se tornou “pede cachimbo”, ao invés de alimentar a nossa imaginação, agora exigia algo.

Domingo para fazer tantas coisas ou fazer nada, mas sobretudo o dia de esquecer do despertador. E esquecer do despertador possibilita mirabolantes projetos para as diversões. Existe a necessidade de sonhar e planejar o precioso ócio na sua virtualidade. Afinal, necessitamos recarregar as energias para regressar à rotina. Muitas vezes, planejar o ócio leva a um prazer maior do que o próprio ócio; a nossa imaginação é pródiga na criação de supostos entretenimentos.

Depositamos tantas expectativas com a chegada do final de semana que não conseguimos, muitas vezes, realizar nossos desejos. Quando chega a tardinha sentimos falta de alguma coisa e apenas um domingo por semana se torna insuficiente; diante de tantas diversões engendradas. Neste momento de despedida do ócio, prelúdio de uma nova semana, colocamos numa balança as perspectivas criadas no afã da sexta-feira e a realidade de uma monótona noite domingueira. O saldo parece sempre desfavorável, ainda mais diante da proximidade da segunda-feira.

Este desânimo acentuado no final de domingo tem uma explicação física. Estudiosos alertam que a insatisfação é consequência do desaceleramento que ocorre durante o final de semana e acaba afetando o metabolismo. A produção de alguns neurotransmissores, substâncias que fazem a ligação entre as células nervosas, responsáveis pelas sensações de prazer, sofre alterações e os efeitos são notados depois de mais ou menos um dia e meio, ou seja, precisamente no domingo à noite.

Entre tantas síndromes da vida moderna, existe também a síndrome de domingo. Mas, sobrevivam, na memória, aqueles domingos do pé de cachimbo! O domingo que não pede nada e estimula a criatividade. Apesar de evocar que a gente é fraco, cai no buraco, o buraco é fundo e acabou o mundo

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