Os absurdos da vida

cena de Un Cuento Chino” – em português, “Um Conto Chinês

OS ABSURDOS DA VIDA

Margarete Hülsendeger

 

O homem absurdo é aquele que nunca muda.

Georges Clemenceau

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestra e doutoranda em Teoria Literária na PUC-RS. margacenteno@gmail.com

Imaginem a cena. Em um recanto desconhecido da China, uma pequena embarcação navega placidamente em um lindo e grande lago. Dentro dela um jovem casal – de chineses, é claro! – troca juras de amor. Quando o rapaz vira-se para buscar as alianças de noivado algo estranho acontece: uma vaca despenca do céu, atingindo o barco e a jovem namorada.

Corta. Nova cena.

Uma rua em um bairro suburbano da cidade de Buenos Aires, Argentina. Estamos, agora, diante de uma loja de ferragens. Seu proprietário chama-se Roberto.  Um homem sozinho, preso a rotinas – como só dormir quando o relógio marca 23 horas –, aparentemente, portador de algum tipo de transtorno obsessivo compulsivo (TOC).

Quem teve a oportunidade de assistir já dever ter reconhecido as cenas do filme “Un Cuento Chino” – em português, “Um Conto Chinês” – uma produção argentino/espanhola, de 2011. Amigos, seduzidos não só com a história, mas, principalmente, com as interpretações – em especial a do ator argentino Ricardo Darín, no papel de Roberto –, há algum tempo vinham insistindo para que eu o assistisse. Porém, por conta daquelas circunstâncias da vida que nos fazem ir adiando compromissos, mesmo que sejam para o nosso divertimento, acabei só tendo a oportunidade de vê-lo recentemente.

Não pretendo estragar o prazer de ninguém contando detalhes do enredo. Esse é o tipo de filme que precisa ser visto para ser devidamente apreciado. O cartaz publicitário, por exemplo, já é uma provocação, pois nele aparecem o ator principal (Ricardo Darín) e uma vaca. O filme está classificado como comédia, mas na minha opinião, ele também deve ser assistido com a seriedade de um drama, pois, ao mesmo tempo que diverte, emociona.

A história realmente começa quando o dono da loja de ferragens e o imigrante chinês Jun, interpretado pelo ator Ignacio Huang, se encontram após este último ser assaltado em uma avenida de Buenos Aires. A partir daí, os dois passam a viver sob o mesmo teto, pois Roberto, se sentindo comovido com a situação do rapaz, leva-o para a sua casa até que a família possa ser encontrada. Detalhe: Jun não fala uma única palavra em espanhol e Roberto não sabe chinês.

As situações vividas pelos dois personagens principais são hilariantes. Enquanto procura se comunicar com o chinês, o argentino tenta de todas as maneiras seguir com a sua rotina. No entanto, a presença silenciosa do rapaz obriga-o a rever hábitos e manias. A angústia e ansiedade de Roberto, por estar aparentemente perdendo o controle sobre a sua vida tranquila e estruturada, é tão forte que fica impossível se manter indiferente aos seus problemas.

Contudo, apesar de todo o estresse, os dois acabam desenvolvendo um relacionamento que transcende as dificuldades de comunicação. Há entre eles uma cumplicidade e um respeito que poucas vezes encontramos entre pessoas que se conhecem há muito tempo ou falam o mesmo idioma. Roberto, à sua maneira, preocupa-se com o bem-estar de Jun a ponto de agredir um policial para defendê-lo. Do mesmo modo, a delicadeza dos gestos de Jun para com seu “salvador” são sempre no sentindo de compensá-lo pela perturbação que está provocando.

Entre a estranheza da situação, a angústia de Roberto e a tristeza, não explicada, de Jun, vemos uma amizade fora do comum ser construída. A comédia é por conta dos diversos equívocos que acontecem, resultado dessa união forçada; já o drama não se restringe a uma cena ou uma fala, ele permeia todo o filme e é preciso permanecer atento para não se deixar levar pelo riso, esquecendo a dor que está sempre presente.

Enfim, se seguir adiante revelarei toda a história e, como disse anteriormente, esse é o tipo de filme que precisa ser visto para ser apreciado. Todavia, tenho de contar um último detalhe. Trata-se de um diálogo entre Roberto e Jun, intermediado por um entregador de pizza de origem chinesa. Quando chega nesse ponto, o filme está quase no fim e Roberto faz algumas revelações que ajudam a entender o seu comportamento. Jun ouve a tradução sem nada comentar, porém, quando Roberto diz “A vida é algo sem sentido, absurdo”, ele responde, com convicção, que para ele tudo tem, independente da sua estranheza (ou dor), um sentido. Depois dessas duas frases o filme que até aquele instante, para os menos atentos, parecia ser uma comédia divertida e meio absurda, assume todo o seu significado.

O sofrimento, a desesperança e a nostalgia – encarnados por Roberto – quase nos derrubam, tal a força com a qual nos atingem. Entretanto, junto com esses sentimentos pesados nos deparamos com outros mais positivos – traduzidos, na maioria das vezes, pelos longos silêncios de Jun –, como uma vontade enorme de viver, apesar das tristezas que possam nos atingir ao longo da vida. É estranho e ao mesmo tempo tocante. Mais não posso contar, pois assim o filme perde a graça. Porém, se esse texto provocou a sua curiosidade, faça o seguinte: vá à locadora mais próxima e retire “Um Conto Chinês”. Eu só posso dizer que vale muito a pena.

 

 

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