Cida Mello Terceira Idade Terceira Idade

Ambidestra

Ambidestra[1]

Aparecida Luzia de Mello*

Aparecida Luzia de Mello É Advogada, Mestre em Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor, Psicogerontologia e Memórias.

Certamente o pai nunca imaginou o mal que lhe causaria por toda a vida já que ela ainda hoje traz resquícios da dor emocional a que foi submetida na infância.

As primeiras lembranças dão conta da hora do jantar. Ao sentar-se a mesa simples da cozinha com a família para comer, pegava o talher com a mão esquerda e o pai severo dizia com aspereza:

-: com a outra mão!

Ela que era canhota, mas ainda não se dera conta disto, trocava o talher da mão esquerda para a direita e começava a comer. Como tinha muita dificuldade sem perceber logo voltava o talher para a mão esquerda. O pai então dependendo do humor agia de maneira diferente, mas sempre de forma cruel.

Às vezes gritava para trocar de mão, outras vezes mandava-a sentar no chão e comer sozinha no tapete, outras vezes ainda mandava-a ir para o quarto sem terminar sua refeição.

Quando foi para a escola, teve o mesmo tratamento. Na escola a mão esquerda era amarrada para traz enquanto fazia a lição e em casa a palmatória era frequente, com a diferença que a palmada era no dorso e não na palma da mão.

Ela foi crescendo, desenvolveu a habilidade de escrever com a mão direita e quando necessário comia também. Era uma menina inteligente e esforçada. Quando chegou ao ginásio, participou da 1ª olimpíada de matemática do Estado de São Paulo promovida pelo professor Osvaldo Sangiorgi no ano de 1967.

Tornou-se conhecida pela diretoria e professores da escola. Recebeu certificado e passou a ser paparicada por todos.

Certo dia, por algum motivo, teve que ir a secretaria da escola com o pai para solicitar um atestado e quando a diretora soube de quem se tratava mandou-os entrar. Ao assinar o documento na frente deles, a menina observou que a diretora era canhota. Imediatamente ela olhou para o pai e disse:

-: viu pai ela também é canhota!

A diretora ergueu a cabeça e com ar de surpresa e perguntou:

-: por quê??

A garota inocentemente respondeu:

-: eu fico de castigo por causa disto…

A mulher ficou uma fera com o pai da menina e lhe deu um “sabão” salientando a inteligência e capacidade dos canhotos…

Ele sorriu sem graça e não falou nada. Muitos anos se passaram depois daquele episódio e a implicância diminuiu.

Ela casou-se teve duas filhas e certo dia ao chegar à casa dos pais depois do trabalho, onde suas filhas estavam; ela se deparou com o pai, avô das meninas, brigando com a caçula para que ela pegasse o talher com a mão direita.

Naquele instante foi como se o vulcão adormecido entrasse em erupção e ela falou tudo que estava represado em seu coração. Ele ouviu de cabeça baixa. Quando ela terminou o discurso cheio de rancor, ele olhou-a nos olhos e disse com a voz embargada:

-: eu só fiz o que fiz porque não queria que você sofresse num mundo dos destros…

É certo que parte do rancor arrefeceu, pois ela percebeu que não houvera maldade nas atitudes do pai, na verdade ele o fizera por amor, para protegê-la, mas por sua ignorância não imaginou a sofrimento que isto causaria a ela pelo resto da vida.

Ainda hoje quando chega num ambiente que precisa identificar sua lateralidade ela fica em dúvida: é canhota, mas não se encaixa no grupo e também não faz parte do grupo de destros, pois parte de suas atividades faz com a mão esquerda, parte com a mão direita e parte faz com uma ou outra dependendo a ocasião.

Algumas coisas saem melhor, outras pior, como, por exemplo, escrever, afinal na infância ela foi forçada a fazê-lo com a mão direita, assim, escreve com a direita de forma corrente e com a esquerda de forma primária. As demais atividades do dia a dia são feitas com a mão esquerda.

Hoje ao escrever estas linhas ela sorri, lembrando-se do pai e agradece sua insistência para que desenvolvesse as habilidades do destro, pois caiu e quebrou a mão esquerda, está imobilizada e descobriu que consegue fazer a higiene íntima, comer, cozinhar, se vestir, etc.. Além de digitar com uma mão só para registrar estes fatos.

* Advogada, Mestre em Políticas Sociais, Pós-Graduada em Gestão e Organização do 3º Setor, Psicogerontologia e Memórias. Palestrante, professora, dirige o PEEM Ponto de Encontro e Estudo da Maturidade, voluntária da 3ª Idade e Recanto do Idoso Nosso Lar.

E-mail: cidamell@uol.com.br

[1] Ambidestria é a capacidade de se ser igualmente habilidoso com ambas as mãos direita e esquerda …. Ambidestria de nascença é bastante rara, entretanto ela pode ser aprendida. Muitos indivíduos ambidestros executam determinadas tarefas apenas com uma das mãos. O grau de versatilidade com cada uma das mãos é geralmente o fator determinante para a ambidestria… Hoje em dia, é mais comum encontrar ambidestros entre as pessoas que nascem canhotas e são forçadas a executar tarefas utilizando a mão direita, principalmente durante a infância. http://pt.wikipedia.org/wiki/Ambidestria.

 

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