Looping

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LOOPING

Margarete Hülsendeger

 

Se eu fosse acreditar mesmo em tudo o que penso, ficaria louco.

Mario Quintana

 

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestra e doutoranda em Teoria Literária na PUC-RS. margacenteno@gmail.com

Quem já andou de montanha-russa sabe o significado da palavra do título. No entanto, em respeito àqueles que ainda não tiveram esse “prazer”, vale uma breve explicação. Looping (ação de fazer loops) corresponde aos pontos mais altos de uma montanha-russa, onde o carrinho, devido a uma combinação de forças e da velocidade certa, atinge uma altura máxima, obrigando seus passageiros a ficarem, por alguns instantes, virados de ponta cabeça à mercê da gravidade. Se tudo dá certo, o carrinho passa por esse ponto, continuando o movimento de subida e descida, até que, novamente, atinge um ponto semelhante, só que a uma altura menor. Uma montanha-russa pode ter vários desses pontos e, portanto, os passageiros experimentarão o mesmo número de loopings.

Há gosto para tudo. Eu, particularmente, só andei de montanha-russa uma vez na vida e não tenho a menor intenção de repetir a experiência. De qualquer modo, os parques de diversões estão sempre cheios e as filas para andar nesse brinquedo também. Como disse antes, há gosto para tudo.

O mais estranho, no entanto, é que muitas pessoas vivenciam esses loopings sem precisar ir a um parque de diversões. Suas montanhas-russas não têm uma existência real, mas são igualmente assustadoras. Elas encontram-se dentro da mente do indivíduo e o carrinho que as percorre são os seus pensamentos.

Sabe aquela ideia que, sem motivo ou razão, teima em nos obcecar? Aquele pensamento chato que insiste em reaparecer quando menos desejamos? Ou aquelas construções mentais, extremamente elaboradas – espécie de realidade alternativa – que repassamos como se fossem a cena de um filme? Isso é o que se pode chamar de looping mental.

A energia gasta quando estamos imersos nesses cenários fictícios é incalculável, pois estamos sempre reproduzindo as mesmas emoções e sentimentos. E se você já passou por essa experiência deve saber que, raramente, as cenas imaginadas são positivas ou prazerosas. Ao contrário. São cenários apocalípticos. Um inferno que a mente constrói e mantém.

Qualquer terapeuta diria que essa atitude mental é a forma de o inconsciente lidar com o nosso inimigo mais antigo e impiedoso, o medo. É ele que nos faz ver fantasmas onde não existem. Quando estamos presos nas suas garras, não conseguimos discernir a fantasia da realidade. Tudo assume tons que vão do cinza escuro ao negro completo.

Somente o medo tem a capacidade de nos paralisar, impedindo que sigamos com a nossa rotina normal. Apenas ele é capaz de nos impelir a loopings que desafiam a lógica e a racionalidade. E, muitas vezes, quando a situação assume um caráter patológico, pode-se ir facilmente de uma síndrome do pânico “leve” até uma depressão debilitante.

Receitas para vencer (ou combater)  o medo existem aos milhares, basta digitar essa palavra no Google para que milhões de resultados caiam no seu colo. Entretanto, muitos já descobriram que não há uma receita para superar esse sentimento, pois tudo depende da necessidade e do perfil de cada indivíduo.

Assim, algumas pessoas optam pelo caminho da farmacologia. No uso de antidepressivos e ansiolíticos elas irão buscar o alívio, mesmo que temporário, para seus temores. Outras preferem técnicas que dispensem o emprego de medicamentos, como por exemplo, a prática da meditação. Existem, inclusive, várias pesquisas científicas que comprovam essa ideia, creditando uma melhoria da qualidade de vida ao exercício da meditação diária. Um exemplo é o estudo realizado pela equipe da Dra. Elisa Harumi Kozasa,  neurocientista do Instituto do Cérebro do Hospital Israelita Albert Einstein. Segundo ela, “O treinamento em meditação modifica as áreas cerebrais. O córtex fica mais espesso em partes relacionadas à atenção, à tomada de decisões e ao controle de impulsos”.

De qualquer maneira, independente da validade dessas pesquisas, o fato é que há milhares de pessoas que não conseguem vencer esses momentos de medo irracional sozinhas. Os loopings – podemos também chamá-los de pensamentos obsessivos – são por demais extenuantes. E quando o controle não é atingido – ou, para azar do indivíduo, algum dos cenários imaginados realmente ocorre – fica difícil, para não dizer impossível, encontrar um ponto de equilíbrio. Há inúmeros casos, na história passada e recente, de famosos que, não conseguindo manter seus pensamentos e emoções sob, controle optaram por medidas mais drásticas e, não raro, definitivas.

No entanto, seria desagradável encerrar esse texto de uma maneira tão pessimista. Logo, para reduzir a força das minhas palavras, vou me valer de uma frase de Lady Macbeth, uma das maiores vilãs da literatura clássica: “Coisas para as quais não há remédio não devem ser contempladas. O que está feito, está feito” (Macbeth, terceiro ato, cena II). Talvez essa não seja a melhor personagem ou o livro mais otimista, mas a verdade dessas palavras é indiscutível. Quando nos preocupamos com eventos que estão além do nosso controle desperdiçamos uma energia preciosa, zombamos da vida e tornamo-nos presas fáceis de outros males que nem estavam na nossa lista de obsessões.

Assim, se os loopings estão ocorrendo com uma frequência fora do normal e eles não têm um motivo racional para existir é preciso procurar ajuda. Se ela virá de um comprimido ou do treinamento em alguma técnica de meditação, não interessa. O importante, o necessário, é interromper a trajetória ascendente que leva ao medo e a ansiedade, procurando buscar o equilíbrio emocional perdido. Afinal, como diz Lady Macbeth, no fim desse terceiro ato, “Coisas pérfidas, depois de paridas, só fazem crescer, cada vez mais fortes, alimentadas pelo mal”. E quem vai discordar de Shakespeare? Eu não!

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