Crônicas Gilda E. Kluppel Gilda E. Kluppel

Uma andança pelo Bixiga

Uma andança pelo Bixiga

Gilda E. kluppel

 

Gilda E. Kluppel é professora de Matemática do ensino médio em Curitiba/PR, Mestre em Educação pela Universidade Federal do Paraná.

Este famoso Bixiga, escrito assim com i, e seus encantos. Não está no mapa da cidade de São Paulo, talvez nem seja considerado um bairro, mas um pequeno pedaço, repleto de inspiração e beleza. O seu nome prevalece sem a necessidade de constar na referência oficial da cidade. Divinamente instalado no centro da megametrópole, dentro da Bela Vista.

O Bixiga, ao contrário do que se possa imaginar, não é um mero espaço repleto de cantinas e padarias de descendentes italianos, especialistas na arte da comida e da bebida que tão bem sabem produzir. Ao caminhar por suas ruas, entre tantas subidas, descidas e antigos sobrados, de diversas e marcantes cores, encontra-se a serenidade de pisar em solo singular. E bastam mais alguns passos para se deparar com a grande movimentação da cidade. Aliás, até os passos apressados paulistanos, quando circulam pelo Bixiga, desaceleram.

O tempo parou para as imortais padarias e este pão, antes de ser consumido, merece ser venerado, pela história das gerações dedicadas ao seu aprimoramento e que, sem dúvida, encontraram a perfeição, do feitio do pão uma arte. A pasta e o pão, alimentos essenciais tão bem manipulados. As cantinas primam pela qualidade e não pela quantidade, apresentando sabores inigualáveis, regados a um tempero da mama e seus toques celestes. Nestas adoráveis cantinas recordei da minha avó, descendente de italianos e a sua mão maravilhosa para a cozinha. Nada mais acolhedor do que a comida bem feita, servida com atendimento personalizado, para se sentir em casa.

Descendo a escadaria da Rua dos Ingleses se chega à Praça Dom Orione, onde um mendigo fez do coreto a sua cama e parecia dormir o sono dos justos, mas o que mais chamou atenção foi um busto. Desconfiei de quem poderia ser, aproximei lentamente, em respeito ao lugar onde o grande cronista da cidade frequentou, estava certa, era ele: Adoniran. Parecia falar que hoje tinha samba na casa do Nicola na Rua Major Diogo.

Local abençoado pela simpática Igreja de Nossa Senhora de Achiropita, cujo nome demora-se para pronunciar corretamente e de significado: a imagem não pintada por mãos humanas. Ao percorrer pelo Bixiga sente-se um gostinho de “quero mais”, para apreciar outras boas surpresas. E comprovar que as coisas mais belas da vida são encontradas na simplicidade, estas que proporcionam momentos de felicidade. Nessa fatia da cidade encontra-se a saborosa mistura de antiquários e cortiços, relíquias e varais de roupas na sacada, teatros e cantinas, arte e farinha, sossego de dia e boêmia de noite, ingredientes dosados na medida certa.  

Conhecendo melhor o emblemático Bixiga torna-se fácil compreender o motivo para o lugar ser enaltecido, em prosa e verso, e daqui saírem tantas inspirações artísticas. Diante das agradáveis descrições, a mais precisa talvez seja fornecida por um dos seus ilustres moradores, o saudoso Armandinho Puglisi ou Armandinho do Bixiga: “O Bixiga é um estado de espírito. Você sente quando está no Bixiga, você cheira à Bixiga”.

Logo, um “estado de espírito” é perpétuo, o tempo passa, a cidade cresce, as pessoas mudam, mas o Bixiga felizmente permanece.

 

 

Deixe um comentário