A terapia dos sonhos

Cena do filme Freud – Além da Alma

A TERAPIA DOS SONHOS

Margarete Hülsendeger

 

Dormir, dormir… talvez sonhar…

Shakespeare (Hamlet)

 

Margarete Hülsendeger é Física e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS. É mestra e doutoranda em Teoria Literária na PUC-RS. margacenteno@gmail.com

Uma manhã, no intervalo entre as aulas, uma colega, sentando-se ao meu lado, revelou muito séria:

– Estou de alta da terapia! – A expressão do seu rosto era um misto de alegria e orgulho mal disfarçado

Apesar da surpresa inicial, logo me recuperei e consegui cumprimentá-la dando o devido valor à noticia que ela havia compartilhado comigo. Afinal, não é sempre que as pessoas revelam estar em terapia e, muito menos, que receberam “alta”. Mas a conversa não parou por aí.

Já que ela havia se sentido à vontade em falar sobre esse assunto, quis saber os motivos dessa decisão que, segundo ela, fora consensual. A resposta não poderia ser mais clichê: um sonho.

Sigmund Freud, e até mesmo seu discípulo rebelde, Carl Gustav Jung, teriam ficado extremamente felizes com essa resposta. É claro que o sonho foi, como explicou minha colega, a culminância de todo um tratamento. Contudo, ela não tinha dúvidas: ele fora decisivo para o fim da sua terapia.

A conversa se estendeu por todo o intervalo e, quando percebemos, já era hora de voltar à sala de aula. No entanto, a ideia de um sonho ser tão definitiva e reveladora permaneceu na minha mente. Fiquei me questionando se eu também não teria sonhos desse tipo para lembrar. De imediato, recordei de dois em especial.

A força desses sonhos – o  impacto que eles tiveram sobre mim – é difícil de pôr em palavras. Quando abri os olhos não conseguia acreditar que aquela experiência não havia sido real. Talvez se estivesse sendo acompanhada por um psicólogo (ou psicanalista), pudesse ter explorado melhor essa “realidade onírica”. Não sei e agora isso não tem mais importância, o fato incontestável foi que esses sonhos tiveram uma enorme influência sobre o modo como, naquele momento específico da minha vida, estava me sentindo e comportando.

Acredito que a psicologia e a psicanálise tenham as suas explicações – todas absolutamente racionais e científicas – para esses “dois eventos”: um desejo reprimido do inconsciente (segundo Freud) ou a manifestação de algum tipo de arquétipo (segundo Jung). De qualquer maneira, até hoje – e já se passaram vários anos – recordo,  com uma imensa riqueza de detalhes, as sensações e sentimentos desses dois sonhos especiais. Sou capaz de descrever as imagens, os cheiros e os sons que os compuseram. Eles, para mim, foram uma espécie de realidade paralela que tive a sorte de experimentar. Até hoje me emociono com eles.

O certo é que sonhar é uma parte importante do nosso inconsciente. Todos sonham quando dormem, mesmo que não lembrem o que sonharam. Segundo os cientistas, até os animais sonham. Uma pesquisa realizada, em 2001, pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT),  analisou os padrões cerebrais de ratos quando estavam dormindo e concluíram que esses bichinhos sonhavam com atividades ligadas à rotina do dia-a-dia, como correr em um labirinto ou com a sua comida.

Fernando Pessoa dizia que de sonhar ninguém se cansa porque sonhar é esquecer. O poeta tinha razão! Quando sonhei, deixei para trás a realidade objetiva. Esqueci a dor. Esqueci a tristeza. Simplesmente esqueci todo e qualquer problema que estivesse vivendo naquele momento. No entanto, o paradoxo é que nesse esquecimento não estava incluído o próprio sonho. Ao contrário. Os meus ainda permanecem intocados em minha mente.

Como posso, então, me surpreender com minha colega quando, com um brilho nos olhos, contou que fora liberada da terapia depois de ter sonhado? Impossível! Portanto, só me resta dar parabéns a ela. Na verdade, devo parabenizar a todos os sonhadores, pois a ação transformadora de um sonho é uma experiência e um privilégio que poucos conseguem entender.

HÜLSENDEGER, Margarete Jesusa Varela Centeno . TERAPIA DOS SONHOS. REVISTA VIRTUAL PARTES, SÃO PAULO, , v. 10, p. 3 – 4, 12 out. 2012.

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